Edição 107 - Aracaju, 11 de novembro a 16 de dezembro de 2007
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  crônica
Lutos e lutos
O provisório e o eterno das regras sociais

Por Margarida Ribeiro*
 

Quando eu era criança e adolescente, até ainda quando era mulher jovem, havia regras rígidas em relação à maneira como nós, mulheres, provávamos à sociedade que lamentávamos a morte de alguém. (Os homens podiam limitar-se a uma tarjeta negra no braço e gravata preta)
Os tempos de luto eram marcados pelo calendário – “luto pesado” (vestir completamente de negro) ou “luto aliviado” (com roupa preta e branca e, em raros casos, com roxo bem escuro). À nossa volta, as pessoas mais chegadas e as menos chegadas contavam o tempo e seria um escândalo terrível se o vissem não ser respeitado.

Lembro-me de aos 16 anos andar seis meses de luto (por avô eram seis meses, três pesado e três aliviado). E só eu sei como esse meu luto ainda dura, vista a roupa que vestir... E como na altura me incomodou pelo nada de sentimento que representava.

Cada tipo de parentesco tinha o seu tempo determinado. Já não me lembro quanto era para tio ou tio-avô…

Na mesma época, nas aldeias, morte de filho ou marido exigia luto pesado para o resto da vida. Com a forte mortalidade infantil e as dificuldades perigosas de muitos dos trabalhos masculinos. vemos nas fotografias antigas aquela escuridão toda nas vestes.

Quando morreu a minha sogra, tinha eu 29 anos, vesti-me de luto pela última vez. Na altura, morte por pai ou mãe, sogro ou sogra, exigia 12 meses de roupa de luto.

A minha filha, que tinha nascido um mês antes dessa morte, cresceu o seu primeiro ano a ver-me sempre de preto ou de preto e branco. Deve ter sido um choque, para ela, quando comecei a vestir cores mais variadas…

Por ser a minha sogra, e não querer começar a quebrar as regras chocando o meu marido e a sua família, aguentei. Mas jurei a mim mesma e avisei aos 4 ventos que era a última vez.

Não tardou, infelizmente, que tivesse oportunidade.

Em Coimbra fui das primeiras pessoas a quebrar o tabu. Faço ideia de quanto, antes de me imitarem, disseram mal de mim.

Mas não me caiu o céu em cima da cabeça.

As regras sociais dividem-se em dois grupos:

- as eternas, porque a sua contravenção faz mais ou menos mal aos outros. Falar de boca cheia enoja o companheiro da frente…

- as provisórias, fruto de preconceitos – essas são fáceis de quebrar como teias de aranha. E inúteis.

Pergunto-me quantas pessoas sofreram ou ainda sofrem, inutilmente, com as segundas…. Diferentes das antigas, mas igualmente estúpidas…

*Professora portuguesa,  reside em Castelo Branco,  Portugal.  E-Mail: mariamares@sapo.pt Blog: http://encostada.blogspot.com/