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crônica
Vai valer a pena
A esperança renovada no Natal
Por
Margarida Ribeiro*
Ninguém tem tempo para nada nesta época do ano. E tenho constatado através
de familiares e amigos que, para além das compras de Natal e de outras
tarefas pessoais com ele relacionados, as empresas também este ano deram em
sobrecarregar quem lá trabalha com afazeres suplementares.
Ou sou eu que ando triste? Mas acho que não sou só eu. A verdade é que
andamos quase todos num afã e, infelizmente, não é a fazer os tradicionais
doces de Natal. Por aqui, como na rua, sente-se mais tensão nervosa do que a
alegria.
Exceptuo a criançada e fico feliz com isso.
Os pequeninos encantam-se com as iluminações de Natal. Os mais velhos,
talvez mais do que o costume neste de crise mais acentuada, pensam, em
silêncio – “Quanto terá custado esta loucura de brilhos?” – e fazem contas à
sua vida.
É nesta altura do ano que tenho saudades da inocência da menina que fui. Ser
crescido parecia–me então um privilégio que um dia havia de atingir. Agora
percebo, como todos viemos a perceber, que o direito às decisões traz
consigo o peso de decidir. Que o direito a fazer traz as toneladas de
responsabilidade a suportar nos ombros.
Pergunto-me às vezes se realmente muitas das nossas angústias perante factos
que enfrentamos serão realmente o resultado da vontade errada que um dia
fizemos prevalecer, ou dos actos que omitimos por não nos caberem nas mãos.
E parece-me que a sensação de culpa que muitas vezes nos invade é uma
espécie de presunção disparatada de que temos poderes divinos.
Não os temos, nem para fazer o bem que desejaríamos, nem para evitar os
males que vemos à nossa volta, nem sequer para suprir faltas ou prever na
totalidade a consequência do que fazemos.
Proponho-me então, hoje, neste momento, evitar os “E se eu…” e tomar como
ponto de partida o lugar onde estou. Agarro nas palavras de Ivan Lins:
“Começar de novo e contar comigo.
Vai valer a pena ter amanhecido, ter me rebelado, ter me debatido, ter me
machucado, ter sobrevivido, ter virado a mesa, ter me conhecido, ter virado
o barco, ter me socorrido…
Começar de novo e contar comigo. Vai valer a pena ter amanhecido”.
Vai valer a pena.
*Professora
portuguesa, reside
em
Castelo
Branco,
Portugal. E-Mail:
mariamares@sapo.pt.
Blog:
http://encostada.blogspot.com/
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