
Webjornal - Mensal - Edição 93 - Aracaju, 17 de setembro
a 15 de outubro de 2006
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Jornalismo Tarimbado e respeitado, Milton Coelho da Graça nos conta sobre sua rica trajetória e opina sobre as agruras e o futuro da profissão Por
José Roberto Mendes*
Ele é carioca da Gamboa e nasceu no ano de 1930. Estudou Direito e Economia. Sempre considerou que seria um bom advogado criminalista, mas o primeiro cliente que tirou da cadeia não lhe pagou os honorários. Partiu para a Economia. Já se formando, foi trabalhar na General Eletric. Mas, certo dia, compareceu à um comício da UNE, contra Roberto Campos, e acabou sendo preso. Foi demitido. Resolveu, então, trabalhar no jornalismo, de onde nunca mais saiu. Era o ano de 1959. Foi editor de Última Hora, editor-chefe de O Globo, Diretor de Redação do Jornal do Commércio, Diretor de Redação do Jornal dos Sports, entre outros jornais (inclusive os clandestinos Notícias Censuradas e Resistência). Trabalhou nas revistas Realidade, IstoÉ, 4 Rodas, Placar e Intervalo. Foi também correspondente no exterior. É colunista do site Comunique-se, professor da Unicarioca e debatedor da Tv Educativa do Rio de Janeiro. Sempre defendeu a ética e a liberdade de expressão. Na época do regime de exceção, foi preso por duas vezes. Mas nunca se abateu diante das ameaças, escrevendo, com perseverança, a partir da coerência de seus pensamentos. *** BN - Depois de tanto tempo de estrada, onde você mais se encontra? No jornalismo escrito, na Tv, no rádio, na internet? O que mais agrada você? Milton Coelho da Graça - Eu gosto, sinceramente, de tudo um pouco. Tenho uma preferência especial por política e economia. Mas as coisas foram acontecendo na minha vida meio empurradas. Aliás, eu já vim para o jornalismo empurrado, porque eu não dei certo nem como economista, nem como advogado. Entrei para o jornalismo porque eu gostava e era curioso. Hoje, faço até uma comparação interessante: o jornalista é meio criança, porque a criança é, acima de tudo, curiosa. Assim que ela desperta e começa a andar, nasce a noção de descobrir o mundo, de saber o que é esse negócio que está em volta dela. O jornalista mantém esse espírito. Todo ser humano carrega um tipo de infantilidade, mas naquele que gosta de jornalismo isto se mantém mais forte, pois, à medida que ele vai se tornando adulto, continua sendo curioso a respeito do mundo. Ele quer saber e quer transmitir. Então, revela a sua vocação jornalística. A menos que seja uma coisa muito chata de fazer, você entra para a profissão e vai fazendo. Eu, por exemplo, comecei em coluna social, o que é realmente chato. Mas até entrevistar cachorro eu fiz. Tinha um maluco que era colunista social, mas que não sabia escrever. Então, me contrataram para ser o redator. Ele sentava e me dizia o que havia acontecido. Um coquetel, uma festa etc. E, uma vez, ele disse: hoje eu entrevistei o cachorro da baronesa. Eu estranhei, mas perguntei: como foi o diálogo? E ele, prontamente, foi dizendo o que perguntou e as respostas do cachorro. Quer dizer, até isso eu já fiz! Mas acaba sendo divertido, porque eu saí dali satisfeito com aquela maluquice. O jornalismo tem dessas surpresas. E o que, às vezes, parece não trazer satisfação, acaba trazendo. BN - Ao longo da sua trajetória, qual o trabalho que mais o marcou, ou que você mais lembra até hoje? M.C.G. - Eu diria que foi a matéria que eu fiz com o Al-Fatah, um movimento guerrilheiro palestino. Foi a que me deu mais trabalho. Eu tive que viajar, durante muito tempo, pelo norte da África e pelo oriente médio. Na verdade, fui para lá por causa do AI-5. Tiveram que me tirar de qualquer maneira da redação, porque a polícia estava atrás de mim. Mas consegui fazer um bom trabalho. Entrevistei, por exemplo, o Arafat, o que ninguém aqui havia feito ainda. Me marcou muito, também, fazer matérias com o Ayrton Sena, quando passei a gostar de corrida de Fórmula 1. BN - Você viveu intensamente o período da ditadura. Como vê a liberdade de expressão hoje? M.C.G. - A liberdade de expressão inclui a liberdade de dizer besteira. É o leitor, o ouvinte ou o telespectador que tem que saber se aquilo é contra ele, ou não. Mas, muitas vezes, ele não percebe isso. Quando uma emissora, por exemplo, está dando ênfase a uma certa matéria, nem sempre o telespectador percebe que ela está defendendo o interesse dela em outra coisa. O importante é que todos tenham direito de se expressar. O que é cruel na ditadura é que ninguém tem direito de dizer nada. Eu peguei um ano e meio de cadeia, naquela época, por fazer jornal clandestino e por escrever coisas que eles não queriam que a gente escrevesse. Mas nós só entendemos a importância da liberdade de se expressar quando a perdemos. BN - Como deve ser, na sua opinião, a atitude de um jornalista ao cobrir uma guerra? M.C.G. - Em primeiro lugar, deve-se ter sempre o cuidado, seja onde for o conflito, de nunca acreditar inteiramente em quem está dando a informação. No livro A Primeira Vítima, Philip Knightley disse muito bem que, em qualquer guerra, a primeira vítima é a verdade. Realmente, é muito difícil que todo noticiário que se lê de um conflito reflita inteiramente a verdade. É preciso ler muita coisa e pensar em tudo que está sendo dito. Por isso, é meio complicado. BN – Há quem afirme, hoje, que o bom trabalho jornalístico deve estar diretamente ligado à técnica. Até que ponto a técnica é suficiente? M.C.G. - Não concordo com a afirmação que precede a pergunta. Talvez na Tv isso seja verdadeiro, mas não no jornalismo impresso. A técnica é boa ferramenta, mas, de forma nenhuma, conseguirá suplantar o bom trabalho jornalístico. BN - Como deve ser a relação do repórter com as suas fontes? M.C.G. - A mais clara possível. A fonte tem de saber claramente o que você vai fazer com a informação e você tem de procurar entender com a maior clareza possível, porque a fonte está dando a você a informação. BN - A princípio, sabe-se que uma boa reportagem não pode prescindir de um bom texto. É preciso proporcionar ao leitor o prazer da leitura? M.C.G. - Entendo que você deixa de lado as reportagens exclusivamente feitas de imagens, porque é isso que Sebastião Salgado, Walter Firmo, Evandro Teixeira e outros vêm produzindo há muitos anos. O prazer da leitura é componente obrigatório de qualquer reportagem escrita. Qualidade de informação não exclui, exige bom texto. BN - Você é um jornalista que gosta da editoria de política. Em todo o seu trabalho com o jornalismo político, deve ter presenciado ilegalidades ou falcatruas. Como um jornalista deve lidar com esta situação? M.C.G. - Escrevendo, meu caro, por mais inútil que isso possa verificar. É o meu papel na sociedade organizada. BN - Como você avalia a imprensa brasileira hoje, principalmente em relação à credibilidade? A Veja e a IstoÉ, por exemplo, têm sido tendenciosas? M.C.G. - Há tendências e há tendências. A Veja inclui o viés liberal, é a sua, digamos, "ideologia". Mas isso não lhe tira a credibilidade, da mesma forma como não tira a da revista inglesa The Economist. A IstoÉ é um caso diferente. O faturamento influi, com freqüência, sobre a pauta e a execução de reportagens. BN - Como você vê, hoje, a democracia no Brasil? Ela é consolidada? M.C.G. - Não existe uma fórmula determinada, perfeita, de democracia. Ela vai sendo sempre construída pela própria cidadania. Eu acho que temos, no Brasil, um nível muito bom de liberdade de opinião e expressão. Na internet, por exemplo, já temos um grande número de sites jornalísticos, que só tende a aumentar, com informações inteiramente independentes das grandes empresas jornalísticas. Agora, é evidente que a internet tem graves problemas de credibilidade. O jornalismo on-line ainda sofre este problema. É preciso observar a pessoa que está assinando. Mas existe coisa séria. O Comunique-se, por exemplo, é um site jornalístico que tem 80 mil inscritos. Para a pessoa entrar, é preciso ser ligada à Comunicação e dizer quem é. Então, quem entra sabe quem está escrevendo e quem escreve sabe para quem está escrevendo. É, portanto, uma comunidade aberta, com credibilidade. Na minha opinião, é uma coisa que vai prosperar muito nos próximos anos, com nível maior e com a ampliação de postos de trabalho. BN - Qual é, a seu ver, o futuro do jornalismo impresso? M.C.G. - A informação impressa tem qualidades importantíssimas. Primeiro, tem a facilidade da consulta imediata. Segundo, é portável. Eu normalmente leio o jornal inteiro no metrô, com a maior tranqüilidade. Mas, hoje, existem muitas pesquisas sobre mudar o meio físico de impressão. Há propostas, por exemplo, de se fazer o jornal impresso através da internet, quando o cliente poderá escolher que partes do jornal ele se interessa. Se não gosta de esportes e economia, por exemplo, o jornal dele será reduzido. Isso irá diminuir bastante o custo. Poderá haver também associações do jornal impresso com os jornalistas eletrônicos. BN - Como jornalista, como você analisa a situação das Tvs públicas no Brasil? M.C.G. - Acho que executam um bom trabalho, apesar do fraco auxílio e estímulo que recebem do poder público. Se a Tv Educativa e a Tv Cultura recebessem os mesmos recursos dados ao SBT e à Record (deixo de fora tanto a Globo como RedeTV, Rede Vida etc., para não parecer exagerado) elas poderiam dar em troca uma programação muito melhor e mais útil a um projeto de desenvolvimento econômico e cultural do país. BN - Há alguns anos, você dá aula em universidades. Como vê o ensino universitário, hoje, e, em particular, os cursos de Comunicação? M.C.G. - Os cursos de Comunicação se debatem - como, em geral, o ensino universitário - entre a concepção de dar uma base de conhecimento geral, teórico, ao estudante, ou prepará-lo para a vida do trabalho. Eu acho que precisa haver um certo equilíbrio nestas duas coisas. Não adianta pensar que a universidade é um curso profissional, porque não é. Para ser um bom jornalista você precisa apenas de três coisas: ser curioso, saber escrever e ter sólidos conhecimentos de cultura geral. É preciso estar disponível para se jogar em qualquer busca de informação. Eu sempre odiei o fato de ser conhecido como jornalista especializado. Uma universidade, portanto, deve dar um bom conhecimento da língua portuguesa - porque o ensino médio, infelizmente, tem sérias lacunas - e oferecer um belo panorama da cultura humana, para o aluno poder se situar nesta busca de informações. BN - Na sua época, o ensino do jornalismo não era obrigatório para quem quisesse se tornar um profissional. Hoje, existe a obrigatoriedade, mas a questão ainda é polêmica. Qual a sua opinião a respeito? M.C.G. - Nós temos uma tradição no Brasil, que vem desde os tempos da primeira ditadura de Getúlio, de proteção do mercado de trabalho. Eu considero um absurdo que o Ministério do Trabalho exija registro de algumas profissões que não oferecem menor risco para a sociedade. É preciso exigir a obrigatoriedade médica, por exemplo, porque o paciente deve acreditar que aquele profissional tem o conhecimento para tratá-lo. O engenheiro é a mesma coisa. Mas será que há cabimento uma bailarina, por exemplo, ter regulamentação profissional? Aliás, no catálogo de profissões do Ministério do Trabalho encontram-se coisas incríveis. No tempo em que foi criada a escola de Comunicação, o Brasil estava em plena ditadura militar. Depois, em 1988, veio a nova Constituição dizendo que é livre a manifestação de expressão das pessoas. Portanto, qualquer pessoa pode escrever o que quiser. Não há como estabelecer que “quem não tem diploma de jornalista não pode escrever em jornal”. Por quê, se Constituição diz que qualquer um pode manifestar seu pensamento? Então, isso criou um problema legal, que é o que está sendo discutido e deverá ser resolvido pela justiça. Eu acho que o jornalista deve lutar pela defesa de seu mercado de trabalho e pela qualidade profissional, mas não é pela exigência do diploma que ele terá mais espaço. Na verdade, os novos jornalistas estão entrando no mercado porque os jornais e revistas, de primeira linha, aplicam um novo vestibular. Eu criei isso, por exemplo, no jornal O Globo. BN - Que recado você daria hoje aos novos profissionais de Comunicação? M.C.G. - Hoje, o processo de conhecimento tem um avanço em progressão geométrica. E na profissão de jornalista, o impulso da tecnologia é muito grande. O profissional, para não se tornar obsoleto, precisa ler muito, estudar, pesquisar coisas do mundo inteiro sobre o que está avançando. Me lembro que eu era redator-chefe quando colocaram o primeiro computador na minha mesa e eu achei que não iria me adaptar. Tratei de aprender logo. Em 1988, fui correspondente da Fórmula 1, na Alemanha. Trabalhei com o primeiro computador portátil que havia chegado ao Brasil, para transmitir à distância. A memória dele era de apenas quatro páginas. E tinha que passar a matéria por telefone, com uma espécie de pinça, chamada “jacaré”. Se era assim há 18 anos e tudo mudou muito rápido, fico imaginando como será daqui a mais 10 anos. Vamos estar mandando matérias, de qualquer lugar do planeta, através do celular. Então, esta é a principal questão que deve estar na cabeça dos jovens profissionais: a necessidade de se manter atualizado nos meios de comunicação. * Jornalista e Diretor da Tv Educativa / RJ |
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