Edição 139 - Aracaju, 11 de julho a 08 de agosto de 2010
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  crônica
Desventuras de um torcedor
A partir de 1970, torcer pela seleção brasileira virou rotina

Por Fernando Molica*
Foto: Divulgação

Aprendi a torcer pela seleção brasileira antes mesmo de saber ao certo o que era o Brasil. Em 1969, nas eliminatórias, acompanhei pelo rádio - sim, não havia transmissão ao vivo pela TV - jogos disputados em países vizinhos que então me pareciam distantes. Um jogo duro aqui, uma e outra goleada contra a Venezuela (5 a 0 e 6 a 0, se não me engano), a vitória contra o Paraguai, em Assunção, testemunhada pelo meu pai.

Em 1970, aos 9 anos, eu já me sabia alvinegro, comemorara os campeonatos de 1967 e 1968 conquistados pelo Botafogo. Conhecia o Campeonato Carioca, seus jogos, sua lógica. Mas o Brasil era muito grande, muito maior que a distância entre Piedade e o bairro de Botafogo, onde ficava o estádio de General Severiano. O Botafogo era meu, do meu pai, seria também do meu irmão, então um bebê. Já o Brasil - como assim? - era grande demais, superava rivalidades, abarcava todos nós, alvinegros, tricolores, cruzmaltinos, rubro-negros e até paulistas e mineiros. De uma certa forma, o Brasil me foi imposto, uma doce imposição que se transformou em vitória, em tricampeonato.

A partir de 1970, torcer pela seleção brasileira virou rotina. Ao longo de mais de duas décadas esperei a repetição da euforia testemunhada no ano do tri. Em 1974, não entendi a derrota, não imaginava a possibilidade de o Brasil não vencer. Pelo Brasil, superei rivalidades clubísticas, esperei que Zico fizesse pela seleção o que já me acostumava a, com muito sofrimento, ver no Maracanã. Não deu. Em 1978, ele e o time caíram nos buracos do estádio de Mar del Plata, sucumbiram diante
do arranjo de peruanos e argentinos.

Em 1982 e 1986, mais decepções. Quatro anos depois saí pelas ruas do Andaraí antes de o jogo contra a Argentina terminar, inconformado pelo gol de Caniggia. Em 1994, enfim, voltei a comemorar uma Copa, um grito ainda mais efetivo, já que compartilhado com meus dois filhos. E vieram o amargo1998 (Quem é que sobe? Zidane!), o penta de 2002 e a nova decepção de 2006 - esta, uma Copa marcada pelo descompromisso, pela irresponsabilidade. Mas, pelo menos, torci, reclamei, procurei culpados.

Há menos de um mês, antes do início do Mundial, escrevi aqui um agradecimento irônico ao Dunga, ressaltei que, pela primeira vez, não me sentia obrigado a torcer pela seleção. Havia um incômodo em compartilhar da histeria, da patriotada, do autoritarismo, da patotagem, do desprezo pelo talento. Aos 49 anos, me sentia livre para não aderir a uma lógica que me feria, atentava contra princípios que, ao longo da vida, aprendera a valorizar.

Para minha surpresa, o sentimento foi verdadeiro. Não fiquei à vontade para torcer pelo Brasil, sequer tirei da gaveta a camisa da seleção que comprara um mês antes da Copa. A grosseria de Dunga depois do jogo contra a Costa do Marfim me afastou ainda mais do time. A corrente-pra-frente pró-técnico esboçada em seguida aumentou meu susto: como assim, transformar aquilo em algo louvável, fazer da covardia uma suposta manifestação de coragem? A tendência autoritária que se mantém na sociedade brasileira é assustadora, perigosa. A perspectiva de vitória da seleção se transformou num risco ao culto à repressão, à incivilidade, à ditadura. Não dá para torcer a favor desta escalação.

Admito que, durante o primeiro tempo do jogo contra a Holanda, a seleção quase me seduziu. Pela primeira vez na Copa eu comemorei com algum prazer um gol brasileiro. Achei que, enfim, minha má vontade seria superada pelos jogadores. Mas não deu: a pisada que aquele sujeito deu no adversário foi definitiva. Mais do que os gols holandeses, o gesto descontrolado do Felipe Melo revigorou minha decisão de manter distância daquele time. Um time que, enfim, assumia a cara de seu comandante - para aqui usar uma palavra tão cara ao hoje ex-técnico. Naquela sexta, voltei a direcionar minha torcida para o Uruguai, para o Loco Abreu, para o Botafogo.

Mas há pouco li na internet um texto de um colega, o Bernardo Pombo. Um texto em que ele narra toda sua tristeza pela derrota da seleção. Conta que machucara a mão ao comemorar o gol de Robinho e complementa: "A ferida na mão vai sarar rapidamente. Mas o coração está partido, destruído, dilacerado." Engraçado, mas o relato me pegou pelo pé, contribuiu para uma certa melancolia. No fim deste domingo, percebi que o Dunga roubara de mim até mesmo o direito de sofrer pela seleção, de chorar sua derrota. Ele, que tanto arrotou patriotismo, embotou meu carinho e meu respeito por um time responsável por tantas alegrias, que sempre despertou em mim a certeza de que o Brasil viria a ser melhor do que é. Um país que produz tantos talentos não é compatível com a pobreza, com o autoritarismo, com a ignorância. Mas Dunga - invasor de minha pátria, tão diferente da que ele cultiva - conseguira tirar o meu time de campo.

Que Dunga seja feliz, que seja mais tolerante, afável, educado, que retome sua carreira cheia de sucessos. Mas, caramba, acho que vou demorar a perdoar o exílio que me foi imposto nesta Copa, o sequestro da vontade de torcer pela seleção brasileira: um banimento que ele me impôs. Nunca imaginei que não fosse ter o desejo infantil de vestir a camisa amarela.

*Jornalista e escritor, autor dos livros Notícias do Mirandão, O homem que morreu três vezes, entre outros. Texto originalmente publicado no blog Pontos de Partida.