Webjornal - Mensal  - Edição 85 - Aracaju, 11 de dezembro de 2005 a 15 de janeiro de 2006
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Música

Festa brasileira no México

Da Orquestra Petrobras Sinfônica ao grupo Olodum, passando por Elba Ramalho e Arthur Moreira Lima, os brasileiros literalmente fizeram a festa e se encantaram com a magia da alma mexicana

Por Paulo Marcio Vaz*
Fotos Paulo Marcio Vaz e Nelson Oliveira

Foi uma viagem de quase 24 horas, incluindo um enorme atraso na saída do aeroporto do Rio para São Paulo, 8 horas de avião até a Cidade do México, 2 horas de alfândega e mais de 5 horas de ônibus até o destino final. Na chegada, apesar do cansaço, uma grata e bela surpresa: Morelia. 

O Festival Internacional de Música de Morelia acontece desde 1989 e, anualmente, um país é escolhido para ser homenageado. Finalmente, na 17ª edição, chegou a vez do Brasil. Para abrir o Festival, os organizadores convidaram a Orquestra Petrobras Sinfônica (na foto, naipe de percussão), do Rio de Janeiro, que pela primeira vez, depois de 18 anos de existência, pôde deixar o país em busca de outros palcos.  Seus mais de setenta músicos enfrentaram a dura viagem com bom-humor e fôlego de crianças e a determinação de profissionais acostumados a deixar famílias, filhos, namoradas, namorados e os afazeres do dia a dia em nome da música, numa dura e doce rotina. 

Durante o festival, diariamente, artistas brasileiros da mais alta categoria e dos mais variados estilos brindaram os mexicanos com o melhor da nossa música. Do baiano e popular Olodum ao carioca e erudito Quadro Cervantes, passando também pela cantora Elba Ramalho e pelo pianista Arthur Moreira Lima, Morelia se rendeu, durante quinze dias, ao talento de nossas vozes, tambores, cordas, sopros e raízes. E nossos músicos se renderam à beleza e hospitalidade de uma das mais belas cidades mexicanas. 

Imaginem Ouro Preto. Agora, imaginem Ouro Preto absolutamente preservada (na foto, Museu de Artes e Ofícios de Morelia). Multipliquem o tamanho das ruas, dos monumentos, das igrejas e dos prédios antigos por dez. Ah, e retirem as ladeiras. É esse, mais ou menos, o retrato de Morelia, que fica a 303 quilômetros da Cidade do México e pertence ao estado de Michoacán, segundo seus próprios habitantes, “a alma do México”. Se Michoacán é a alma, Morelia, provavelmente, é a aura. 

No concerto da Petrobras Sinfônica, regido pelo maestro Roberto Duarte, obras de Villa-Lobos, Ernani Aguiar, Miguel Bernal Jiménez e Joaquim Gutiérrez Heras deram ao público um belo panorama da música de concerto latino-americana, contando também com a participação do violonista brasileiro Turíbio Santos e do violoncelista mexicano Carlos Prieto. Durante os 6 dias em que ficaram na cidade, os músicos da Petrobras Sinfônica  descansaram, trabalharam, passearam e se esbaldaram.

A dura viagem e o fuso-horário de 4 horas a mais não permitiram ensaios nos primeiros dias. A orquestra, que não pôde ir inteira no mesmo vôo, só se encontrou completa um dia depois que a primeira turma já havia chegado. Sorte de quem chegou primeiro. Um dia a mais para apreciar a belíssima arquitetura de influência espanhola e o maravilhoso  artesanato local, degustar a mais típica comida mexicana e curtir as crianças de Morelia, um espetáculo a parte. Lindas e sempre muito bem arrumadas (na foto, o repórter com crianças de Morelia). As meninas, sempre com seus vestidinhos coloridos e um sorriso pronto para explodir a qualquer momento. E para nossa sorte, com uma vontade imensa de se deixarem fotografar. 

Outro fator impressionante em Morelia é a quase absoluta ausência de miséria. Não há mendigos ou pedintes. A população é alegre e bem educada. E amam os brasileiros. Num posto de gasolina, por exemplo, o frentista fez questão de comprar nossas notas de Real. “Vou guardá-las como um troféu!”, disse ele. No trânsito, depois de um ligeiro deslize de nosso violinista/motorista, o guarda nos manda parar. Rapidamente, explicamos que éramos “brasileños” e que não sabíamos que não podíamos ter feito o retorno naquela rua, etc, etc, etc... O guarda, com sorriso de menino, nos explicou que infelizmente seria obrigado a nos aplicar a multa: “Terei que recolher os documentos do veículo. Te darei um recibo e você pagará a multa no departamento de trânsito, onde poderá pegar os documentos de volta.” O desespero tomou conta de nós. Explicamos que o carro, alugado, teria que ser devolvido em poucos minutos e apelamos: “Será que não dá pra pagar a multa agora a você mesmo?” A resposta, com imensa simpatia: ‘Infelizmente, não, pois não teria como lhe dar o recibo”. Ao perceber nossa situação de penúria e compreender nosso erro involuntário, o guarda nos liberou, em troca de um fraternal aperto de mão. De Morelia, até a “PM” deixa saudades.

*Estudante de jornalismo da FACHA, Rio de Janeiro

                                  

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