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| Lourenço Mutarelli Dos quadrinhos ao cinema Paulo Lima
De autor de quadrinhos premiado para as telas de cinema. “Nunca imaginei nem por um segundo”, diz Lourenço Mutarelli nesta entrevista. Ao longo dos últimos 15 anos ele arrebatou os mais importantes prêmios conferidos a autores de HQ no Brasil. Mas, apesar do feito, permanecia conhecido apenas entre os iniciados do gênero. Em 2002, Lourenço escreveu o pequeno romance O cheiro do ralo (Devir Livraria). Pequeno, mas visceral. É leitura para começar e largar somente na última página. Num pique só. Diz a lenda que Lourenço o escreveu em cinco dias. Um surto. E um recorde. Ele confirma, mas faz um adendo: “Levei mais 10 dias para enxugar". Cinco dias para ser escrito, dez para ser lapidado. Pois não levou nem isso para provocar um alumbramento no escritor Marçal Aquino, que o leu e cheirou ali um tremendo filme. Numa espécie de corrente da sorte, Marçal Aquino o indicou a Heitor Dhalia. Foi alumbramento à primeira vista. O Cheiro do ralo se transformou no mais novo cult do cinema brasileiro, e o resto é história. No filme, um comprador de objetos usados, vivido por Selton Mello, faz e desfaz dos humilhados e ofendidos que procuram seu serviço. Um tipo abjeto, escatológico, sórdido, mas para quem acabamos torcendo. Mistérios da literatura e do cinema. Torcemos para que ele se dê bem com a garçonete e conquiste seu tão cobiçado troféu: a bunda da moça. Não foi outro o propósito de Lourenço Mutarelli ao imaginar seu personagem. “A minha maior intenção, o maior desafio era atingir uma reversão de expectativa. Era fazer com que aos poucos ele fosse querido”. E conseguiu. Com tanto sucesso, Lourenço bem que poderia estar repousando sobre os louros da vitória. Tsk, tsk, tsk. Mas que nada. A reação dele a todo esse ôba-ôba é surpreendente. “Não agüento mais falar nesse cheiro do ralo, nem em filme nem em livro”. Mais antiestrela, impossível. Lourenço nem quer ouvir mais falar desse negócio, mas, a bem do rigor informativo, vai a saideira: mencionar a participação breve porém convincente dele como ator no filme, na pele do vigilante que vê o circo pegar fogo e às vezes o apaga. Segue a entrevista. *** BN - Como é que surgiu a idéia do livro? Li numa reportagem que ele foi escrito em cinco dias. Parece que é um recorde. Lourenço Mutarelli - A idéia veio realmente do mau cheiro. Escrevi em 5 dias e depois levei mais 10 para enxugar e fazer uns acertos. Foi como um surto. BN - Como é que funciona o seu processo criativo? Você distingue o Mutarelli quadrinista do escritor, do dramaturgo, ou o caminho é um só? L.M. - O acesso é o mesmo, mas eu distingo perfeitamente quando surge uma idéia, a forma em que ela se manifesta e o formato que vou seguir. BN - Leitores e críticos costumam se referir ao livro como “quadrinhos sem balões”. Você concorda com essa definição? A estrutura dos quadrinhos foi mesmo determinante para pensar o livro? L.M. - Eu não gosto desta definição, mas é inegável que o poder de síntese e a própria dinâmica vem da experiência de tanto tempo dimensionando frases dentro de balões. BN - Alguns escritores são mencionados no livro, como parte das leituras do personagem. James Ellroy, Paul Auster e Férrez são alguns. São referências, inspirações para você? L.M. - São coisas que eu já li e o protagonista não tem muita erudição, não digo que são escritores menores, mas acho que ele não leria outras coisas que são realmente minhas influências. Eu pensei num personagem que lê o que sai ou está disponível na mídia e não necessariamente alguém que busca de forma autodidata em notas de rodapé algo que delineie um caminho. BN – O personagem do filme é tido como repulsivo, mas para quem acabamos torcendo. Você se inspirou em alguém de carne e osso para construí-lo? L.M. - Busquei no inicio criar uma antítese do que sou. Por exemplo, nunca consigo comprar ou vender qualquer coisa sem tomar prejuízo. Entre outros tantos exemplos, mas, naturalmente durante o percurso acabei me misturando a ele, não é inspirado em ninguém, mas espelha muitos. A minha maior intenção, o maior desafio era atingir uma reversão de expectativa. Era fazer com que aos poucos ele fosse querido. BN - Você imaginou que O cheiro do ralo um dia se tornaria um filme? O cinema faz parte do seu imaginário de escritor e autor de quadrinhos? L.M. - Nunca imaginei nem por um segundo. O cinema foi uma grande inspiração no meu trabalho, hoje em dia já não é tão influente talvez pelo excesso de pretensão e pela desesperada forma de se criar o novo. BN - Agora, com o filme, não conseguimos imaginar o personagem principal senão na pele de Selton Mello. Mas você, como autor do livro, consegue pensar em alternativas? L.M. - Eu escrevi o livro em 2002 e nunca mais o li. Não tenho apego a nada que faço e para ser muito sincero não agüento mais ouvir falar nesse cheiro do ralo, nem em filme, nem em livro. Muitas coisas passaram pela minha cabeça depois disso, muitas são inéditas porque são textos teatrais. O cheiro do ralo é pra mim parte do que venho praticando. Um exercício. Um tijolo. Só isso. |