Edição 117 - Aracaju, 07 de setembro a 05 de outubro de 2008
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  reportagem
No interior das cavernas
Oficialmente elas são 4.500 no Brasil,
mas o potencial é muito maior

Por Nicia Ribas*
Fotos Divulgação/GPME

Primeiro abrigo do homem pré-histórico, com o passar do tempo as cavernas se tornaram meras atrações turísticas. É bem verdade que esses espaços vazios em rochas, alguns com pinturas rupestres, lagoas azuis e formações como as estalagmites, continuam encantando turistas em todo o mundo. No entanto, a exploração e o estudo das cavernas, objetos da espeleologia, têm revelado importantes informações científicas, algumas com impacto direto na sociedade. A verdade é que lapas, grutas, tocas, furnas, locas, ermidas, casas de pedra, buracos e cavernas, sinônimos, graças à vasta extensão territorial brasileira e à conseqüente diversidade cultural, estão despertando cada vez mais, a atenção de cientistas e turistas.

Mais de 10 mil km de galerias já foram mapeadas em todo o mundo e mais de 4.500 cavernas estão registradas nos cadastros brasileiros, uma parcela muito pequena diante do imenso potencial aqui existente. O estudo dos terrenos cársticos, nos quais as cavernas se formam, é importante para entender e evitar fenômenos geológicos como a subsidência, ou colapso, de terrenos, como o ocorrido em Cajamar, São Paulo, em 1986.  

Fundado em março de 1987, o Grupo Pierre Martin de Espeleologia - GPME- reúne cerca de 50 sócios das mais diferentes idades e profissões, que têm em comum a paixão pelas cavernas e muita disposição para preservar esse patrimônio. Geólogos, biólogos e geógrafos, mas também advogados, publicitários, engenheiros e profissionais de informática, que integram o GPME já mapearam, exploraram e registraram aproximadamente 600 cavernas. Sócio pleno e fundador da Redespeleo, o Grupo é um dos mais ativos do Brasil. Atualmente eles buscam patrocinador para publicar um livro comemorativo dos 20 anos do Grupo, já aprovado na Lei Rouanet, bastando apenas conseguir apoiador interessado em utilizar os benefícios da Lei.

Temos mais cavernas do que pantanal

Ericson Cernawsky Igual, vice-presidente do GPME - www.gpme.org.br, conversou com a Plurale.

Qual a importância da espeleologia para o mundo moderno?

Ericson Cernawsky Igual: Além de seus atributos científicos, turísticos e esportivos, hoje a espeleologia pode colaborar, por exemplo, com estudos hidrogeológicos, visando a preservação de aqüíferos em regiões cársticas e seu uso racional e sustentável como fonte de abastecimento. É comum encontrar no Brasil cemitérios mal situados em regiões cársticas, que pelas características de recarga do aqüífero se tornam uma fonte constante de contaminação, assim como a contaminação por agrotóxicos, esgotos urbanos, etc.

No aspecto biológico, as cavernas podem ser consideradas como um banco genético, um "estoque" de fauna pretérita, o registro da história evolutiva de diferentes grupos e de organismos fósseis. No sentido de compreender e desvendar essas questões, os estudos espeleológicos correlatos se mostram de extrema importância.

O estudo paleoclimático feito em cavernas, através da análise das estalactictes e estalagmites, permite entender as variações climáticas do passado,dando dicas sobre suas possíveis tendências no futuro.Além de todos esses aspectos, ainda podemos preservar e conhecer nossa pré-história, através dos estudos arqueológicos.

O Brasil se destaca por suas florestas, rios, praias e o pantanal. E quanto às cavernas?

E.C.I.: Comparado com outros países, o percentual de áreas carbonáticas com relevo cárstico no Brasil é pequeno, algo em torno de 5% a 7% do território. Porém, a vasta extensão territorial transforma esse pequeno percentual em uma área de extensões consideráveis. A título comparativo, o Pantanal matogrossense ocupa aproximadamente 2% do território nacional. A grande diferença é que os terrenos cársticos brasileiros estão subdivididos em inúmeras frações e localizados por quase todo o território, com destaque para os estados da Bahia, Goiás e Minas Gerais.

Outra característica interessante do Brasil é o grande volume de cavernas associadas a outras rochas não carbonáticas, como arenitos, quartzitos, granitos e gnaisses, o que não costuma ser comum. Atualmente, o Brasil tem se destacado pelo elevado número de cavernas de ferro descritas. Infelizmente, esse grande número de cavernas reveladas nessa litologia estão associadas a estudos relacionados a empreendimentos e que não visam exatamente a preservação.

No aspecto biológico, o Brasil se destaca pela sua ampla variedade de espécies cavernícolas, com destaque para os peixes. Hoje possuímos 24 espécies confirmadas e potencial para mais de 30 espécies, segundo diversos estudos em andamento. Com isso, o Brasil se aproxima do número de espécies de peixes cavernícolas da China, que possui o maior número de espécies conhecidas, levando em consideração sua extensa área cárstica, proporcionalmente muito elevada em comparação ao Brasil.

Nossas cavernas estão bem preservadas?

E.C.I.: De certa forma sim, porém, estima-se que apenas 5% de nossas cavernas sejam conhecidas pelos espeleólogos e conseqüentemente cadastradas, o que nos deixa com uma impressão muito parcial do grau de preservação das cavernas brasileiras. Ainda temos muito a conhecer e descobrir sobre o patrimônio espeleológico brasileiro. Muitas surpresas positivas e negativas ainda estão por vir.

Em nossas expedições, é comum descobrirmos cavernas com alto grau de intervenção antrópica, como a presença de lixo e pichações, a poluição de aqüíferos com esgotos urbanos e agrotóxicos e rebaixamento de aqüíferos. Tudo isso compromete seriamente a integridade do patrimônio espeleológico. Assim como também observamos excelentes exemplos de preservação, a partir de iniciativas locais (prefeituras, pequenos sitiantes, etc...).

Atualmente se discute mudanças na legislação brasileira que protege as Cavidades Naturais Subterrâneas (Cavernas e respectivos sinônimos regionais). Corremos o risco de sair de uma radical inversão em nossa legislação, atualmente bem protecionista, para uma legislação que permita um alto grau de destruição, em vista da demanda do crescimento econômico. A necessidade de velocidade no licenciamento de empreendimentos pode comprometer seriamente o conhecimento da biodiversidade cavernícola brasileira, além da aceleração da destruição irreversível do patrimônio espeleológico como um todo.

As mais recentes expedições do GPME

Serra do Calcário 2007-2008

Área localizada nos municípios baianos de Central, Jussara e Itaguaçu da Bahia. A Serra do Calcário e a região de Central, apesar de ser muito conhecida no aspecto arqueológico e paleontológico, até o ano de 2000 era inédita para a comunidade espeleológica. A partir de 2004, o GPME intensificou o número de visitas em expedições com pequeno contingente e curtos períodos. O potencial revelado nessas ocasiões demonstrou que a região merecia maior atenção. No réveillon 2007/2008, o GPME realizou uma expedição de grande porte, utilizando como sede a escola municipal Rui Barbosa, localizada na área urbana da cidade de Central.

Essa expedição, além do objetivo espeleológico e a integração com a comunidade local, teve um importante fator de compromisso social, com os participantes, valorizando o voluntariado em ações sociais, com doações de roupas, calçados, brinquedos e até computadores. Em paralelo, a expedição contou com o apoio do Projeto Idéia Fixa pela Educação que doou 500 livros de histórias infantis, que foram repassados ao acervo didático da Escola Rui Barbosa.

Presidente Olegário - MG

Apesar de descrita em alguns documentos históricos de exploradores e naturalistas do passado e posteriormente na publicação "As Grutas em Minas Gerais - IBGE1939", até 2007 o município nunca havia sido visitado por espeleólogos, podendo também ser considerado inédito sob a ótica espeleológica. Em meados de setembro de 2007, com base nessas referências históricas e com o apoio da prefeitura municipal, uma primeira expedição de reconhecimento com apenas dois participantes, num período de nove dias, revelou 32 cavernas novas e reencontrou duas descritas em IBGE-1939, sendo que 13 delas foram mapeadas.

O incrível potencial empolgou os membros do GPME e, em novembro, uma segunda expedição, com maior contingente, mas em período mais curto, descobriu 22 novas cavernas e mapeou sete destas.

O potencial cientifico, biológico e geológico, observado nessas duas primeiras expedições animou o Grupo a realizar uma terceira expedição, em abril de 2008, dessa vez sem objetivos de explorações e mapeamento, mas voltada totalmente para levantamentos científicos.

E assim como na Expedição Serra do Calcário, a expedição contou com o apoio do Projeto Idéia Fixa pela Educação que doou 400 livros de histórias infantis, repassados ao acervo didático de diversas escolas do município.

*Jornalista. E-mail: niciaribas@yahoo.com.br Matéria originalmente publicada na Revista Plurale