Edição 123 - Aracaju, 29 de março a 26 de abril de 2009
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  reportagem
Energia solar na Grécia
Naquele país já existe um código obrigando o uso desse sistema na construção civil

Por Nícia Ribas*
Fotos Bonair/Divulgação

Nas campanhas de promoção do sistema de aquecimento da água com energia solar, inicialmente os marqueteiros gregos apelaram para a economia na conta de luz, já que chuveiros e torneiras elétricas seriam dispensados, mas não obtiveram muito sucesso. Numa segunda etapa, que já dura cinco anos, estão apresentando ao consumidor as vantagens sociais do uso do sistema para ter uma residência abastecida pela energia solar. “O cliente que opta pelo uso da energia solar em sua residência (aquecimento de água, aquecimento e esfriamento do local) se sente diferente do vizinho, mais ligado à modernidade e à preservação do Planeta,” explica Michaelis Karagiorgas, engenheiro mecânico, PhD, professor de Energia Solar no curso de Engenharia Mecânica Educativa, em Universidade de Atenas.

 Grego, casado com a pernambucana Isabel, pai de Alexandros e Fivos, Karagiorgas é diretor da empresa Bonair, atuando no ramo de uso da energia em casas solares há mais de 15 anos. Em termos de metros quadrados per capita, o país que mais utiliza sistema de aquecimento solar é Chipre. A Grécia está em quinto lugar no mundo ( com 2,5 milhões de metros quadrados e um milhão de domicílios). “Isso significa que quase 40% dos gregos são atendidos com aquecimento solar da água,” informa o diretor (Na foto acima, instalação de sistema solar de telhado de 20m2 numa casa grega para aquecimento de água e ambiente, projetado pela BONAIR).

No total global, em números absolutos, a China – devido à sua  imensa população, é a primeira e a Grécia fica em sexto lugar do Brasil.

Há seis anos vigora na Grécia um código de construção civil, que obriga a instalação de tubulação necessária para a implantação do sistema solar por todos os andares, já na construção dos prédios. Antes da promulgação dessa lei, a instalação dessa tubulação era facultativa, dependia de decisão do construtor. Na opinião de Karagiorgas, esse código foi fundamental para a ampliação do uso da energia solar no país

No entanto, muito antes da obrigatoriedade legal, nos anos 80, o governo grego passou a oferecer benefício fiscal para quem utilizasse sistema de aquecimento solar em suas residências. “Isso motivou o povo grego, que gostou da idéia de pagar menos impostos”, diz Karagiorgas. 

 A Grécia tem 2.500 horas de sol por ano. Cada metro quadrado do painel solar gera, aproximadamente, 500 watts de potência. Assim, cada metro quadrado produz 600 kWh de energia por ano, o que totaliza  1,5 GWh por ano em todo país.

Uma curiosidade: lá os edifícios só podem ter até seis andares e possuem estrutura super reforçada, por prevenção, devido à ocorrência periódica de terremotos.

Tanto sol, pouca energia

No ano passado, a lei 14459/2007 tornou obrigatória a preparação de todas as novas edificações para o uso de aquecedores solares em São Paulo. No Rio de Janeiro, desde janeiro de 2008, uma lei estadual obriga prédios públicos a utilizar esta fonte para o aquecimento de 40% da água consumida. Porto Alegre, Curitiba e Belo Horizonte também já aprovaram leis de incentivo à energia solar.

Segundo pesquisa da IUCN - União Internacional para Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais, que ouviu mil pessoas que atuam em governos, ongs e indústrias  de 105 países, 74% confiam mais na energia solar para aquecimento de água como forma de reduzir as emissões de gases do efeito estufa e 73% na energia solar para geração de energia elétrica. O Brasil tem 2.200 horas de sol no ano em todo seu imenso território, com um potencial equivalente a 15 trilhões de MWh, mas ainda investe  pouco nesta farta fonte de energia.

Quem saiu na frente com uma política de uso de energia solar para aquecer água foi Israel, em 1980. O governo grego, na década de 80 passou a dar benefício fiscal aos que optavam por esse sistema. Desde então, muitos países europeus vêm aproveitando a energia solar, certos de que o uso de renováveis e a eficiência energética poderão ajudar a atingir as metas de redução de emissões de gases do efeito estufa estabelecidas pelo Protocolo de Kyoto

Brasil na Solar Decathlon

Em junho de 2010, um consórcio formado por seis universidades brasileiras – Escola Politécnica da UFRJ, UFMG, UFSC, UFRGS, Unicamp e USP vai participar da Solar Decathlon Europe, na Espanha. Trata-se de uma competição internacional que reúne equipes de 20 instituições de ensino do mundo todo, com o desafio de construir protótipos de casas que funcionem com energia solar.

É a primeira vez que o Brasil se classifica para o evento e quer fazer bonito. Para isso, alunos das universidades envolvidas já estão apresentando idéias para o protótipo, que deve reunir inovação e sustentabilidade, aplicando tecnologias que tornem a casa inteiramente atendida por energia solar. Empresas de construção civil e engenharia vão patrocinar a participação dos brasileiros.  

Coletor de garrafa pet

Um projeto de energia solar de baixo custo, desenvolvido pela equipe do professor Carlos Eduardo Leal, da UERJ, em parceria com o inventor, um aposentado de Tubarão (SC), José Alcino Alano, utiliza coletores feitos de garrafas pet. Na Ilha Grande (RJ), o chuveiro elétrico já foi substituído; e em Santa Catarina a Creche Chico Mendes atende a 130 crianças com água aquecida pelo sol.

“Nosso projeto, desenvolvido no Centro de Estudos Ambientais e Desenvolvimento Sustentável, coloca a tecnologia a serviço de quem não pode pagar. Usamos as informações e o conhecimento que temos para construir equipamentos que vão melhorar a qualidade de vida das pessoas”, explica o Carlos Eduardo Leal, doutor em Física, com MBA em Gestão de Negócios Sustentáveis. Com 1000 garrafas dá para construir um coletor que aquece dois mil litros de água para chuveiro e cozinha.

Na foto abaixo, instalação solar de 350 kW no Olympic Palace Hotel, em Rhodes Island, projeto Bonair:

 

E dois coletores solares de 25 m2 na fachada sul do edifício do Centro Grego de Fontes de Energias Renováveis- CRES:


Originalmente publicada na Revista Plurale. Título e subtítulo do BN.

*Jornalista. E-mail: niciaribas@yahoo.com.br