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reportagem O mar está virando roça Pescadores contribuem para a produção de alimentos Texto e foto: Nícia Ribas*
Chova ou faça sol, todo dia, às 6h30, o caiçara Nilson Gonçalves pega sua bateira (embarcação de fundo chato para poder passar em terrenos de pouca profundidade) na praia de Porto Belo, litoral norte de Santa Catarina, e parte para mais uma jornada de trabalho no mar. O visual fantástico da Costa Esmeralda, que deixa os turistas embasbacados, é bastante familiar para Nilson e seus dois sócios. Sobre uma balsa de manejo, onde ergueram uma cabana, com fogão e churrasqueira, eles cumprem o expediente, cuidando das suas vieiras, ostras e mariscos. Importante fornecedor de alimentos e principal fonte de proteína para o homem, o mar vem sendo tratado, pelos especialistas, como território cada vez mais valioso para o cultivo. A maricultura é o setor de produção de alimentos que mais cresceu nas últimas décadas, superando a criação de gado e a pesca. Em 2008, a produção total de moluscos comercializados em Santa Catarina foi de 13.107,92 toneladas, representando um aumento de 29,33% em relação a 2007. Este volume de produção proporciona uma movimentação financeira bruta estimada em R$ 29.709.300,00 para o Estado (dados da Epagri - Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina), que dá assistência técnica aos maricultores. Filho e sobrinho de pescadores, Nilson completou o ensino médio e conseguiu emprego em banco, mas a força genética acabou arrastando-o para o mar. Há 17 anos, ele e sua família vivem da maricultura de pequeno porte. Atualmente, ele preside a Associação de Maricultores em Porto Belo, mantendo-se bem informado a respeito das leis e últimas novidades do setor. “O acesso às baías para fins comerciais é regulamentado pela Associação de Maricultores e pela Epagri”, explica. Periodicamente, Nilson participa de fóruns de maricultores promovidos pela Epagri, em Florianópolis. Em Porto Belo, a maricultura ainda é artesanal. No entanto, em 2008, o município destacou-se na produção comercializada de vieiras. “Ainda estamos engatinhando; todos os municípios estão participando de audiências públicas para discutir, com vereadores, o Plano Local de Desenvolvimento da Maricultura – PLDM, informa Nilson. Em torno da sua balsa de manejo, bem protegido pela Ilha de Porto Belo, Nilson mantém um plantel de 410 mil ostras. No início de cada mês, ele compra sementes na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Traz para sua área de cultivo, acomodando-as no berçário – caixa de madeira com tela. Dez dias depois, é feita a classificação e as maiores passam para uma caixa com tela mais larga, que permite a entrada de mais água e alimentos - fitoplantas e microalgas. Cada caixa-berçário pode receber até 4 mil moluscos. À medida que vão crescendo, é preciso reduzir a quantidade para evitar a deformação, o que faz cair o preço na hora da venda. “É importante fazer o rareamento constantemente para melhorar a qualidade do produto”, diz ele. Ao todo, atuam em Santa Catarina 643 maricultores. Segundo a Epagri, na última safra (2008), as chuvas causaram alta mortalidade de mariscos em função da forte queda de salinidade da água do mar. Por outro lado, a produção de ostras comercializadas por Santa Catarina cresceu de 91,47% em relação a 2007, passando de 1.155,8 toneladas para 2.213 toneladas, porém não atingindo os patamares verificados em 2006, quando foram comercializadas 3.152,4 toneladas. Esta recuperação é atribuída, em parte, à credibilidade adquirida junto ao consumidor através do projeto de monitoramento higiênico sanitário de moluscos bivalves do litoral catarinense, que vem controlando os eventos de algas tóxicas e repassando as informações às instituições públicas de saúde e à população em geral, em tempo real. Graças à riqueza natural de Santa Catarina e ao trabalho bem feito dos maricultores locais, os moluscos barrigas-verdes estão cada vez mais famosas. Restaurantes bem conceituados, como o Le Vin, no coração de Ipanema, Rio de Janeiro, fazem questão de imprimir no menu a procedência de suas ostras: Florianópolis. É proibido retirar mariscos dos bancos naturais e muito difícil obter licença para isso, segundo Nilson. O jeito é utilizar os coletores ou longlines, que são cabos feitos com restos de redes de pescadores. Em frente à praia do Perequê, vizinha de Porto Belo, o caiçara mantém seu coletor de mariscos, cuja função é prender aqueles que se soltam dos bancos naturais. “A cada 15 dias, fazemos análise da água e do marisco para garantir sua qualidade”, explica. Entre os pedradores mais ferozes estão os caramujos e o ser humano: “eles levam o cacho inteiro”. Para evitar a entrada de peixes, em volta da área de cultivo é colocada uma rede. Muitas famílias de caiçaras desconcham os mariscos, mas Nilson não aprova esse procedimento porque “as pessoas trabalham sem as condições ideais e isso compromete a qualidade do produto”. Seu filho, Carlos Augusto e o genro, Fábio ajudam na manutenção da “roça” sempre que a demanda cresce, ou seja, nos meses do verão, quando os restaurantes bombam no litoral brasileiro. “Nossa meta é exportar”, diz Nilson, otimista com a procura crescente dos seus produtos. O costão de Porto Belo é chamado Canto das Vieiras pela abundância natural do molusco no passado. Hoje, as sementes desenvolvidas pela UFSC são cultivadas desde o berçário, com cuidados redobrados devido à sua grande sensibilidade. “Utilizamos a mesma técnica do cultivo da ostra, mas a vieira é muito sensível à água doce, o que nos obriga a trabalhar com ela debaixo d’água; já a ostra pode ficar até dois dias fora d’água”, diz Nilson. Mas, mesmo com todo cuidado, a perda é grande: 30%. Para alcançar o tamanho exigido para venda (6,5cm), a vieira leva 18 meses. Esses moluscos famosos, conhecidos em diversos países, como scallops, coquille saint-jacques e almejas, são bem valorizados. No Brasil, há cerca de 16 espécies, sendo as mais valorizadas a pata-de-leão e ziczac. Em 2008, apesar das chuvas e enchentes que assolaram Santa Catarina, dos 25 produtores em seis municípios, apenas Porto Belo (2.88 ton) e Penha (0,24 ton) conseguiram comercializar vieiras. Nos demais municípios, houve uma perda total da produção. As chuvas de novembro causaram significativa queda na salinidade das águas. “O maior entrave da maricultura é o fator climático”, diz Nilson, que perdeu grande parte da sua produção (36 mil moluscos), um prejuízo de R$ 90 mil. “A incidência de água doce trazida pelo vento leste para o mar matou minhas vieiras; se fosse vento sul, o dano não teria sido tão grande,” explica. O fenômeno El Nino é outro grande ofensor, pois costuma esquentar muito a água, o que também causa grandes perdas. “É como trabalhar na roça, estamos sempre de olho no clima e na plantação”, conclui Nilson. Sua meta é crescer, chegando a 200 mil vieiras e 800 mil ostras. *Jornalista. E-Mail: niciaribas@yahoo.com.br Reportagem publicada na Revista Plurale. |