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Crônica
Calamidade pública
"Ao entrarmos, o aspecto era de uma casa
mal assombrada. Um som de tec, tec, tec vinha do nosso lado direito"
Por
Paulo Marcio Vaz*
Delegacia de Polícia.
Niterói. Quarta-feira,
dia de finados, 00:30min.
Fui acompanhar uma amiga que havia sido roubada dentro de
um bar em pleno Saco de São Francisco, bairro chique da cidade. O bar era
de gente da alta, pessoal de grana. “É aí que mora o perigo...” diz o
policial de plantão: “Talvez se fosse num botequim informal, pé-sujo, isso
não aconteceria.” O pior é que ele tinha razão.
Na verdade, não sei o que mais me surpreendeu. Se o roubo
de uma bolsa num bar de gente fina ou o estado de calamidade pública que
encontrei na delegacia central de Niterói. Sinceramente, ainda não
acredito no que vi.
Bem, o bar estava sendo inaugurado naquela noite. Tudo de
primeira, garçons bem treinados, chopp da Brahma, decoração mauricinha,
gente bonita, boa música... Enfim, um bar da Zona Sul.
Dentro de um bar de alta classe, tinha um ladrãozinho de
merda.
Já na delegacia, um caos. Ao entrarmos, o aspecto era de
uma casa mal assombrada. Um som de “tec, tec, tec...” vinha do nosso lado
direito. Me aproximei do balcão e um homem magro, com aspecto de
funcionário público dos anos 70, batia à maquina. Isso mesmo! Batia à
maquina! Aí, você deve estar pensando: provavelmente o computador
enguiçou. Mas...que computador? Juro. Não tinha. Foi só então que percebi
que havia outro balcão, do outro lado. Enquanto minha amiga dava queixa,
fui fazer averiguações. Já no outro balcão, a cena era diferente da
primeira. Lá não se batia à máquina. Se consertava a outra máquina. Um
policial, com pistola na cintura, fazia o serviço. “Essa máquina é a nossa
vedete!”, exclamou ele, ao perceber meu interesse. Ao contrário do bar,
ali a decoração era sofás rasgados e paredes descascando, com avisos
pregados escritos à mão. Minha amiga precisava ao menos telefonar para um
chaveiro que pudesse abrir seu carro e fazer uma ligação direta. Mas na
delegacia não tinha lista telefônica. O policial tentou, em vão, desenhar
um mapa para encontrarmos o tal chaveiro.
Dentro de uma delegacia de merda, policiais tentavam manter
a classe.
De repente, um alento. Avisto um computador, no fundo da
sala. Numa tentativa de levantar a moral da policia, exclamei: “Ah, vocês
têm um computador!”
“Não é nosso. É de um colega.”
Me senti mal, muito mal.
Pra completar a noite, faltou luz. Esperei uns 15 segundos.
“Quem sabe tem um gerador...”, pensei. Santa ingenuidade.
Diante do breu, a solução foi desistirmos. “Volte amanhã
para completar a ocorrência.” Minha amiga, que mora na Barra, a-do-rou.
Ao sairmos, em meio à escuridão, nosso amigo policial,
zeloso e cumpridor do seu dever, grita: “Cuidado aí na rua pra não levarem
de vocês o que sobrou!”
Ai de nós.
* Estudante de
Jornalismo da FACHA - RJ
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