Webjornal - Mensal  - Edição 86 - Aracaju, 15 de janeiro a 19 de fevereiro de 2006
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Crônica

Calamidade pública

"Ao entrarmos, o aspecto era de uma casa mal assombrada. Um som de tec, tec, tec vinha do nosso lado direito"

Por Paulo Marcio Vaz*

Delegacia de Polícia. Niterói. Quarta-feira, dia de finados, 00:30min. 

Fui acompanhar uma amiga que havia sido roubada dentro de um bar em pleno Saco de São Francisco, bairro chique da cidade. O bar era de gente da alta, pessoal de grana. “É aí que mora o perigo...” diz o policial de plantão: “Talvez se fosse num botequim informal, pé-sujo, isso não aconteceria.”  O pior é que ele tinha razão. 

Na verdade, não sei o que mais me surpreendeu. Se o roubo de uma bolsa num bar de gente fina ou o estado de calamidade pública que encontrei na delegacia central de Niterói. Sinceramente, ainda não acredito no que vi. 

Bem, o bar estava sendo inaugurado naquela noite. Tudo de primeira, garçons bem treinados, chopp da Brahma, decoração mauricinha, gente bonita, boa música... Enfim, um bar da Zona Sul. 

Dentro de um bar de alta classe, tinha um ladrãozinho de merda.

Já na delegacia, um caos. Ao entrarmos, o aspecto era de uma casa mal assombrada. Um som de “tec, tec, tec...” vinha do nosso lado direito. Me aproximei do balcão e um homem magro, com aspecto de funcionário público dos anos 70, batia à maquina. Isso mesmo! Batia à maquina! Aí, você deve estar pensando: provavelmente o computador enguiçou. Mas...que computador? Juro. Não tinha. Foi só então que percebi que havia outro balcão, do outro lado. Enquanto minha amiga dava queixa, fui fazer averiguações. Já no outro balcão, a cena era diferente da primeira. Lá não se batia à máquina. Se consertava a outra máquina. Um policial, com pistola na cintura, fazia o serviço. “Essa máquina é a nossa vedete!”, exclamou ele, ao perceber meu interesse. Ao contrário do bar, ali a decoração era sofás rasgados e paredes descascando, com avisos pregados escritos à mão. Minha amiga precisava ao menos telefonar para um chaveiro que pudesse abrir seu carro e fazer uma ligação direta. Mas na delegacia não tinha lista telefônica. O policial tentou, em vão, desenhar um mapa para encontrarmos o tal chaveiro. 

Dentro de uma delegacia de merda, policiais tentavam manter a classe. 

De repente, um alento. Avisto um computador, no fundo da sala. Numa tentativa de levantar a moral da policia, exclamei: “Ah, vocês têm um computador!” 

“Não é nosso. É de um colega.” 

Me senti mal, muito mal.

Pra completar a noite, faltou luz. Esperei uns 15 segundos. “Quem sabe tem um gerador...”, pensei. Santa ingenuidade. 

Diante do breu, a solução foi desistirmos. “Volte amanhã para completar a ocorrência.” Minha amiga, que mora na Barra, a-do-rou. 

Ao sairmos, em meio à escuridão, nosso amigo policial, zeloso e cumpridor do seu dever, grita: “Cuidado aí na rua pra não levarem de vocês o que sobrou!” 

Ai de nós.

* Estudante de Jornalismo da FACHA - RJ

                                 

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