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meio ambiente
O futuro da Amazônia
Apenas 30% da floresta
permanecerá viva nos próximos cem anos
Por IHU On-line*
Fotos Divulgação

Um
estudo divulgado no mês passado revela que, devido ao
desmatamento, mudanças no clima e queimadas,
em cem anos, restarão vivos apenas 30% da Amazônia. Esse é um dado que
mostra o aumento crescente destes que são considerados os
principais desafios da maior floresta do mundo.
“Boa parte da floresta, no leste e no sul, poderia desaparecer caso essas
mudanças aumentem. No entanto, o desmatamento tem diminuído, mas é muito
difícil saber para que lado vai o aquecimento global”, avalia o professor
Carlos Nobre.
Durante a entrevista que concedeu, por telefone, à IHU On-Line, ele refletiu
sobre o cenário atual da Amazônia e soluções para resolução dos problemas
que ela vive hoje. Nobre também conversou conosco sobre cenários que surgem
no Brasil devido a problemas climáticos e ambientais, como o aumento da seca
no semiárido e a
desertificação no Rio Grande do Sul.
“Um clima mais variável em uma região onde o clima geralmente é mais estável
sempre motiva muitas coisas, mas não podemos afirmar cientificamente que
esse aumento da variabilidade do clima no Rio Grande do Sul é provocado pelo
aquecimento global”, explicou.
Carlos Nobre é engenheiro eletrônico formado pelo Instituto Tecnológico de
Aeronáutica. Na Massachussets Institute Of Technology (EUA), realizou o
doutorado em metereologia. Recebeu o título de pós-doutor da University Of
Maryland (EUA). Atualmente, é pesquisador sênior no Instituto Nacional de
Pesquisas Espaciais (Inpe).
É autor das obras Amazonian deforestation and climate (New York: John
Wiley and Sons, 1996) e Regional Hidrological Impacts of Climatic Change
- Impact Assessment and Decision Making (Oxfordshire: International
Association of Hidrological Sciences, 2005).
***
Um estudo sobre os riscos que a Amazônia está correndo, conduzido pelo
Banco Mundial, alerta que, devido ao desmatamento, as mudanças climáticas e
as queimadas, em 2075, só restará 30% da floresta amazônica. Hoje, a
Amazônia é a maior floresta do mundo. Como o senhor detalharia o cenário
previsto para 2075?
Carlos Nobre – No pior dos casos, se todas as
mudanças ambientais e globais
aumentarem, seja por desmatamento, impacto do fogo na floresta ou por
aquecimento global, ainda assim sobraria uma faixa de 20 a 30% da floresta
até o final do século. É isso que nossos cálculos mostram. Boa parte da
floresta, no leste e no sul, poderia desaparecer caso essas mudanças
aumentarem. No entanto, o
desmatamento tem
dimuído, mas é muito difícil saber para que lado vai o aquecimento global.
Copenhague não
deu muito certo, mas há um movimento mundial de transição para uma economia
de baixo carbono. Portanto, não é possível prever com precisão se esse
movimento dará certo, qual é a escala de tempo, quantas décadas irá demorar
para
diminuir as emissões
ou qual será o
aumento de temperatura
na segunda metade do século. O que podemos imaginar são cenários. Nem com
bola de cristal alguém conseguiria, hoje, saber exatamente qual seria a
trajetória do aquecimento global nos próximos cem anos.
O cenário atual da floresta permite que recuperemos as áreas que foram
desmatadas?
Carlos Nobre –
Recuperar todas as áreas que foram desmatadas não é uma tarefa trivial, é
uma tarefa muito complicada, mas a política de uso dos recursos da Amazônia
deve ir na direção de uma diminuição muito grande de
novos desmatamentos.
Há uma política do governo brasileiro, inclusive, para reduzir as emissões.
O que o presidente Lula apresentou em
Copenhague, e
que se tornou lei, é uma redução de 80% dos desmatamentos. Então, podemos
sim, em uma escala de dez a quinze anos, nos encaminhar para o desmatamento
zero. É só desenvolvermos
políticas
de
utilização das áreas já desmatadas. Essas políticas devem ser acompanhadas
de avanços científicos e tecnológicos de como usar as áreas desmatadas.
Talvez possamos usar menos da metade das áreas desmatadas para produzir
alimentos e outros materiais, e recuperar boa parte dessas áreas. Fazendo
isso, também estaríamos, no momento que a floresta secundária regenera nas
áreas desmatadas, retirando gás carbônico da atmosfera.
A redução das emissões de gases estufa é a única solução para a Amazônia?
Carlos Nobre – São várias as soluções. É impossível eliminar o risco da
floresta se não reduzirmos o
aquecimento global,
que não pode passar muito de dois graus. O planeta já aqueceu entre 0,7 e
0,8 graus, então precisamos, com certeza, diminuir o aquecimento global. Um
outro ponto é que, mesmo que diminuíssemos o aquecimento global em nome da
temperatura no máximo em graus e continuássemos a desmatar, ainda assim, a
floresta estaria em risco. A redução do desmatamento é muito importante. Por
fim, a prática agrícola tem que ser feita sem o uso do fogo, que é cada vez
mais usado na agricultura em todo o Brasil e América Latina. Esse fogo acaba
saindo de controle, vai entrando aos poucos e queimando áreas de florestas.
Cada vez que se abrem mais áreas agrícolas, mais pedaços de florestas vão
sendo queimados. Então, junto com a redução do aquecimento global e a
redução significativa do desmatamento, deve se eliminar o fogo como prática
agrícola. O fogo não é uma boa prática agrícola, de acordo com a melhor
agricultura que possa ser praticada na região.
O acordo feito em Copenhague não estabeleceu metas obrigatórias de redução
de emissões. Como fica a Amazônia diante desse comprometimento?
Carlos Nobre –
É preocupante, não só para a Amazônia, mas para todo o planeta,
para a
sustentabilidade
da vida e para a produção agrícola. O próprio conceito de desenvolvimento
sustentável fica ameaçado se nós não conseguirmos eliminar esse risco. O
fato de não termos chegado a um acordo legalmente vinculante e multilateral
sob o guarda-chuva das nações unidas não significa que não poderemos chegar
a algum tipo de acordo no futuro, mas é melhor que esse futuro seja muito
imediato, se não no México, na COP 16, tem que ser na África do Sul, na COP
17. Não podemos deixar o tempo passar, e os esforços para reduzir as
emissões devem continuar, com ou sem acordo.
O Brasil, por exemplo, tem
reduzido suas emissões.
Talvez o pico das emissões brasileiras tenha sido no ano de 2005. A partir
daí, reduzimos os desmatamentos, as emissões vêm diminuindo e agora vamos
atuar em vários setores, não só na área do desmatamento, mas de agricultura,
energia, indústria, e caminhamos para essa economia de baixo carbono. Isso
deve ser acelerado e, é lógico, o jogo só se equilibra quando há um acordo
amplo. Se não houver esse acordo, é como se alguém sempre quisesse “passar a
perna” no outro, uns reduzem mais, outros não reduzem e outros aumentam.
Portanto, o acordo é importante, mas as ações claras e que caminham na
direção de uma economia de baixo carbono não podem parar, têm que continuar
até que esse acordo se torne possível e seja efetivado.
Além dos problemas que a Amazônia vive, o semiárido está cada vez mais
seco, o norte do RS vive um processo de desertificação. Como o senhor encara
as mudanças previstas para o Código Florestal?
Carlos Nobre – Esta questão de áreas afetadas pelo processo de
desertificação
no Rio Grande do Sul é muito interessante. Não sou um especialista no
assunto, mas acho que isso é um misto de processos naturais com o uso da
terra e da cobertura vegetal. O solo fica muito exposto ao vento e,
principalmente, aos fluxos de água, e acaba gerando moçorocas e processos de
desertificação
em alguns pontos. De fato, nos últimos dez anos, o clima no sul do Brasil,
principalmente no Rio Grande do Sul, tornou-se mais variável, com períodos
de secas intensas próximas a períodos de chuva. Um clima mais variável em
uma região onde o clima geralmente é mais estável sempre motiva muitas
coisas, mas não podemos afirmar cientificamente que esse aumento da
variabilidade do clima no Rio Grande do Sul é provocado pelo aquecimento
global. Ainda não temos como apontar isso definitivamente, mas é lógico que
qualquer mudança no regime climático, observado por dez, vinte anos, chama
atenção e a comunidade científica tem, portanto, obrigação de buscar uma
explicação, se é um fenômeno natural ou se tem algo a ver com o aquecimento
global.
Existem outros lugares no país que tenham indícios de
desertificação?
Carlos Nobre –
O lugar onde mais existem indícios de desertificação é no Piauí, na
parte do semiárido do Piauí. Existe uma cidade chamada Gilbué que tem uma
paisagem lunar, a maior área desertificada do Brasil.
No estudo, o senhor diz que o risco de colapso da floresta é maior no
leste e sul da Amazônia, região que corresponde ao Pará e Maranhão. Pode nos
falar sobre a situação atual destas regiões? Que aspectos indicam que elas
serão mais afetadas?
Carlos Nobre – É o fato de que, nessas regiões, a estação seca é mais
longa do que no oeste e no centro da Amazônia, onde dura de dois a três
meses. Já no leste e no sul, essa estação seca dura de quatro a cinco meses.
Então, por isso, se o clima fica mais seco, seja por aquecimento global ou
por desmatamento, a região passa a ter um regime de chuva e seca muito
parecido com o do cerrado do Brasil central. O clima seria mais favorável ao
cerrado do que à floresta. A floresta precisa ter água no solo e umidade o
tempo todo. E se é um clima muito sazonal, como é no Brasil central, a
vegetação que aparece lá é de cerrados ou savanas tropicais. O leste e o sul
da Amazônia são cobertos por florestas, mas tem um clima um pouco mais
sazonal. Essa é a razão dessa região ser mais sensível às mudanças
climáticas e ao desmatamento.
Que impactos esses problemas ambientais da Amazônia podem causar em
outras regiões do país?
Carlos Nobre – Não sabemos ao certo. Temos estudado o impacto da
Amazônia nas chuvas do sul, por exemplo, no Rio Grande do Sul, nordeste da
Argentina, Uruguai e Paraguai. Uma boa parte do vapor da água que participa
dos processos de formação de chuva nesta região sudeste da América do Sul
circulou pela Amazônia. Veio do oceano Atlântico, entrou pela Amazônia,
virou chuva, choveu, caiu no solo, evaporou e choveu novamente. É um vapor
d’água com muita milhagem, andou muito na Amazônia. A pergunta que se faz é:
se mudar o clima na Amazônia, será que o vapor d’água, que hoje passa por
ela e alimenta chuvas, principalmente no sul do Brasil, vai continuar o
mesmo? Não sabemos, mas é uma questão importante, principalmente para as
chuvas de inverno. Nas chuvas de verão, as fontes de vapor d’água são de
muitos locais, mas as chuvas de inverno, no sul do Brasil, recebem uma
alimentação muito grande desse vapor que passa pela Amazônia. Não temos uma
resposta definitiva, mas pode haver um efeito principalmente nas chuvas de
inverno no sul do Brasil, com mudanças profundas na agricultura, na ecologia
e nos biomas.
*Entrevista
originalmente publicada no site da
IHU
On-Line. Título editado pelo BN.
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