Webjornal - Mensal  - Edição 89 - Aracaju, 30 de abril a 04 de junho de 2006
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Energia Nuclear

Chernobyl e a caixa de Pandora
  

Por Adilson Luiz Gonçalves*

Quando ocorreu o acidente nuclear em Chernobyl, em 1986, eu estudava e morava em Marselha, Sul da França. Já era tempo de Glasnost na URSS, sob a égide de Gorbatchev, mas as notícias ainda vinham entrecortadas pela censura soviética: Houvera a de um reator, e que o incêndio ainda não havia sido controlado...

Uma das primeiras coisas que me vieram à mente foi o filme “Síndrome da China” (The China Syndrom, 1979, EUA), que tinha por tema o risco de acidentes em usinas termonucleares e suas terríveis conseqüências. Segundo a teoria que embasou e deu nome à produção, o superaquecimento do núcleo de um reator alcançaria temperatura de milhares de graus, capaz de fundir rocha e, assim, transpassar diametralmente o planeta, surgindo na China, e causando contaminação ambiental nos dois extremos, pela formação de nuvens radioativas, disseminadas ao sabor dos ventos. O acidente na usina de “Three Mile Island”, em 1979, nos EUA, também era bastante recente.

Por algum tempo não era evidente a gravidade do evento, mas ela ficou terrivelmente clara quando o, antes, impensável ocorreu: A União Soviética aceitou apoio internacional para socorrer as vítimas!

Não há dúvida de que a equipe que debelou o incêndio do reator, nas condições em que o fez, sabia que sua ação rápida e efetiva era imprescindível. Também é patente que eles sabiam que estavam sacrificando suas vidas... Morreram para evitar um desastre maior! Seu gesto estóico e heróico, no entanto, não impediu a formação de uma nuvem radioativa, que passou a deslocar-se, ameaçadora, em direção à Europa Ocidental. A partir de então, todos os noticiários mostraram sua trajetória acompanhada por comentários quase apocalípticos de especialistas sobre a natureza e extensão dos danos ambientais que poderia provocar. As autoridades francesas anunciaram o embargo preventivo das importações de gêneros alimentícios dos países do Leste Europeu, e estratégias de ação começaram a ser estudadas, para o caso da nuvem atingir o país ainda com níveis de radiação prejudiciais aos seres vivos.

Pois é... A nuvem se dissipou juntamente com os piores temores, e a vida francesa voltou ao seu normal. Marselha - com sua efervescência mediterrânea - pareceu nunca ter levado a sério o risco...

Tempos depois, já no Brasil, vi um documentário intitulado: “As crianças de Chernobyl”, que retratava o calvário de milhares de vítimas inocentes e indefesas do acidente. Elas sofriam agruras insuportáveis e eram submetidas a tratamentos dolorosos, mas praticamente inócuos, para tentar tratar ou ao mesmo entender os efeitos da radiação no entorno de Chernobyl. Eram agonias semelhantes às das vítimas de Hiroshima e Nagasaki; eram sofrimentos semelhantes aos vizinhos e habitantes do deserto de Nevada, onde os EUA detonaram artefatos nucleares na superfície, até a década de 1950. Para os sobreviventes desses eventos as alterações biológicas e genéticas pairam, até hoje, como fantasmas, no mínimo.

Já aprendemos a controlar totalmente os riscos deletérios da radioatividade? A destinação do lixo nuclear é segura (césio 137, 1987...)? Podemos nos sentir seguros com isso quando sequer conseguimos controlar endemias pré-históricas...

O grande paradoxo é que o mesmo poder que cura, pode matar! A mesma energia que anima cidades pode riscá-las do mapa ou cultivar seqüelas malignas por décadas.

Enrico Fermi, em 1942, abriu uma “caixa de pandora” moderna, ao realizar a primeira reação nuclear controlada. Desde então, todas as nações querem a energia nuclear, embora suas intenções sejam diversas: claras ou dissimuladas; para salvar vidas, individualmente, ou distribuí-las, em massa.

Não se trata estigmatizar a energia nuclear, mas há que se buscar sua melhor compreensão e controle, para que a esperança na lucidez dos que a dominam e manipulam não seja nossa única e possível, mas passiva, opção!

*Escritor, Engenheiro e Professor Universitário, autor do livro "Sobre Almas e Pilhas", Editora Espaço do Autor

                                

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