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Energia Nuclear
Chernobyl e a
caixa de Pandora
Por
Adilson Luiz Gonçalves*
Quando
ocorreu o acidente nuclear em Chernobyl, em 1986, eu estudava e morava em
Marselha, Sul da França. Já era tempo de Glasnost na URSS, sob a égide de
Gorbatchev, mas as notícias ainda vinham entrecortadas pela censura
soviética: Houvera a de um reator, e que o incêndio ainda não havia sido
controlado...
Uma das primeiras
coisas que me vieram à mente foi o filme “Síndrome da China” (The
China Syndrom, 1979, EUA), que tinha por tema
o risco de acidentes em usinas termonucleares e suas terríveis
conseqüências. Segundo a teoria que embasou e deu nome à produção, o
superaquecimento do núcleo de um reator alcançaria temperatura de milhares
de graus, capaz de fundir rocha e, assim, transpassar diametralmente o
planeta, surgindo na China, e causando contaminação ambiental nos dois
extremos, pela formação de nuvens radioativas, disseminadas ao sabor dos
ventos. O acidente na usina de “Three
Mile Island”, em
1979, nos EUA, também era bastante recente.
Por algum tempo não
era evidente a gravidade do evento, mas ela ficou terrivelmente clara
quando o, antes, impensável ocorreu: A União Soviética aceitou apoio
internacional para socorrer as vítimas!
Não há dúvida de que
a equipe que debelou o incêndio do reator, nas condições em que o fez,
sabia que sua ação rápida e efetiva era imprescindível. Também é patente
que eles sabiam que estavam sacrificando suas vidas... Morreram para
evitar um desastre maior! Seu gesto estóico e heróico, no entanto, não
impediu a formação de uma nuvem radioativa, que passou a deslocar-se,
ameaçadora, em direção à Europa Ocidental. A partir de então, todos os
noticiários mostraram sua trajetória acompanhada por comentários quase
apocalípticos de especialistas sobre a natureza e extensão dos danos
ambientais que poderia provocar. As autoridades francesas anunciaram o
embargo preventivo das importações de gêneros alimentícios dos países do
Leste Europeu, e estratégias de ação começaram a ser estudadas, para o
caso da nuvem atingir o país ainda com níveis de radiação prejudiciais aos
seres vivos.
Pois é... A nuvem se
dissipou juntamente com os piores temores, e a vida francesa voltou ao seu
normal. Marselha - com sua efervescência mediterrânea
- pareceu nunca ter levado a sério o risco...
Tempos depois, já no
Brasil, vi um documentário intitulado: “As crianças de Chernobyl”, que
retratava o calvário de milhares de vítimas inocentes e indefesas do
acidente. Elas sofriam agruras insuportáveis e eram submetidas a
tratamentos dolorosos, mas praticamente inócuos, para tentar tratar ou ao
mesmo entender os efeitos da radiação no entorno de Chernobyl. Eram
agonias semelhantes às das vítimas de Hiroshima e
Nagasaki; eram sofrimentos semelhantes aos vizinhos e habitantes do
deserto de Nevada, onde os EUA detonaram artefatos nucleares na
superfície, até a década de 1950. Para os sobreviventes desses eventos as
alterações biológicas e genéticas pairam, até hoje, como fantasmas, no
mínimo.
Já aprendemos a
controlar totalmente os riscos deletérios da radioatividade? A destinação
do lixo nuclear é segura (césio 137, 1987...)? Podemos nos sentir seguros
com isso quando sequer conseguimos controlar endemias pré-históricas...
O grande paradoxo é
que o mesmo poder que cura, pode matar! A mesma energia que anima cidades
pode riscá-las do mapa ou cultivar seqüelas malignas por décadas.
Enrico Fermi, em
1942, abriu uma “caixa de pandora” moderna, ao realizar a primeira reação
nuclear controlada. Desde então, todas as nações querem a energia nuclear,
embora suas intenções sejam diversas: claras ou dissimuladas; para salvar
vidas, individualmente, ou distribuí-las, em massa.
Não se trata
estigmatizar a energia nuclear, mas há que se buscar sua melhor
compreensão e controle, para que a esperança na lucidez dos que a dominam
e manipulam não seja nossa única e possível, mas passiva, opção!
*Escritor,
Engenheiro e Professor Universitário, autor do
livro "Sobre Almas e Pilhas", Editora Espaço do Autor
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