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Flip 2007 A literatura como ela é A Festa Literária Internacional de Parati reuniu este ano 76 escritores de 11 países e um público estimado em 20 mil pessoas. Debates, música, provocações, aplausos e muitas leituras. Leia o relato do nosso enviado especial.
Veja as fotos desta reportagem A expectativa era grande para a primeira mesa da quinta edição da Festa Literária Internacional de Parati, a FLIP, que teve como homenageado o escritor Nelson Rodrigues. Depois do show de abertura conduzido pela Orquestra Imperial, com a participação do pianista João Donato, dei uma esticada pela charmosa noite paratiana, para colher as primeiras impressões sobre o evento. Sob um sol de rachar, dirijo-me à Tenda dos Autores, local onde acontecem os debates. Encontro uma fila gigantesca. Pessoas à minha frente reclamavam que não tinham conseguido comprar ingressos para a concorrida Tenda dos Autores pela internet, outras reclamavam pela demora no atendimento. Ser idoso nessas horas tem lá suas vantagens. Nesse caso, não. Olhei para a fila dos idosos, muito menor ao lado, mas, em contrapartida, não andava nem à base de preces e orações. Lá permaneci, por uns trinta, quarenta minutos até ser atendido e, inexplicavelmente, conseguir um lugar na desejada Tenda dos Autores. Parecia que a sorte estava ao meu lado. Pilhéria, diria o homenageado da feira. Agora a fila era para entrar. Dessa vez, aplausos cadenciados como protesto. Felizmente, nos dias que transcorreram a feira, os problemas foram sanados pela produção junto com a equipe de apoio, sempre atenciosa e prestativa. A seguir, um resumo das palestras a que tive a oportunidade de assistir. Lobão dispara sua metralhadora A palestra Uivos (por que será?!) reuniu Chacal e Lobão. Ambos têm mais em comum que os apelidos de feras caninas. Falaram sobre a música que há na poesia e a poesia que vira música. Em campos diferentes, estes dois cariocas inconformados vêm fazendo há um par de décadas o mesmo processo: extrair poesia do cotidiano mais banal e transformá-la em coisa falada. Lobão canta seus poemas, Chacal fala suas criaturas em eventos como o Centro de Experimentação Poética CEP 20000, encontro dos poetas que criou há dezessete anos no Rio. Lobão não pôde fugir do assunto jabá, explorado pela platéia. Como resposta, se defendeu dizendo que não se vendeu à grande mídia, mas que agora está sendo reconhecido após anos de luta contra a “cultura do não-mérito”. Citou como exemplo a época que as rádios no Brasil só tocavam música sertaneja: “Aquilo não era sertanejo, aquilo era um agro-brega!”, disparou. Terminou dizendo àqueles que acham que ele tinha se vendido: “Eu não me vendo, eu vendo um produto, um trabalho. As pessoas nessas horas não se lembram que estamos no país do mensalão, onde as pessoas trocam a paixão pelo que se faz em troca de qualquer merreca. É uma fábrica de bundas-moles”. Durante o debate Lobão e Chacal brindaram o público com belos poemas e canções. Lobão encerrou com uma canção chamada Samba da Caixa Preta (na verdade um rock), uma homenagem a Tom Jobim que compôs o Samba do Avião. “Esse avião já caiu faz tempo, só sobrou a caixa preta! Por isso fiz essa canção mostrando todo meu amor e ódio pelo Rio de Janeiro”, provocou. Flip para menores Ao lado da FLIP acontece a FLIPINHA, onde a história de Paraty é contada através de maquetes, artes plásticas, fotografias e brinquedos, alguns deles feitos pelas próprias crianças dos colégios estadual e municipal. Abordam diversos assuntos, desde festas populares à preservação do mar. Há também uma biblioteca à disposição das crianças com o auxílio de atenciosas (pacientes) mediadoras de leitura, ou se preferir, contadoras de história. Segundo a professora Luciana Motta, do colégio Estadual Almirante Álvaro Alberto, o incentivo à participação é total por parte da Prefeitura. Meses antes começam a trabalhar em sala de aula os temas abordados, como a história da cidade e a obra do homenageado. Você deve estar pensando: crianças a partir de seis anos estudando Nelson Rodrigues? Eu também me espantei, mas a professora explicou que se atém apenas à biografia e a algumas crônicas futebolísticas. Outro fato interessante é a oportunidade de interagirem com os autores que lêem em sala de aula, como Ronald Claver, Léo Cunha, Ricardo Benevides, Luiz Antônio Aguiar, Sônia Rosa e Pedro Bandeira. Nelson Rodrigues Ato 2 Durante a ditadura, quando Augusto Boal foi preso, acusado de subversão, Nelson Rodrigues publicou um artigo defendendo fervorosamente o dramaturgo. “Sua vida é uma apaixonada meditação obre o mistério teatral”. Na mesa que discutiu Nelson, Boal, hoje o nome mais conhecido do teatro brasileiro fora do país, dividiu um pouco desses mistérios com Eduardo Tolentino, fundador do Grupo Tapa e premiado diretor teatral que já se notabilizou como um apaixonado “meditador” dos mistérios dramatúrgicos de Nelson Rodrigues. Eduardo Tolentino acabou sendo o coadjuvante da mesa, não por demérito, mas Boal acabou roubando a cena ao ler um texto feito pelo próprio, mostrando a cumplicidade entre ele e Nelson, uma forma de agradecer ao artigo feito por Nelson durante a ditadura. Batata! Foi aplaudido de pé durante quinze minutos. O texto se encontra disponível no site da FLIP. Boal fez também uma autocrítica ao teatro praticado na época do Centro Popular de Cultura, o CPC: “A idéia que o artista era superior foi o grande erro do CPC. Diferente do que acontece com o Teatro do Oprimido, porque a criação é vossa e não nossa”. Sobre Macacos e Patos Dois talentos literários excêntricos e irreverentes falaram do processo criativo na literatura: Jim Dodge e Will Self. Até que ponto a criatividade pode ser ensinada? O autor cult Jim Dodge, diretor do programa de Escrita Criativa da Humboldt State University, na Califórnia, teve o dever de responder que sim. No entanto, os exercícios de sala de aula dificilmente produziriam outra pata obesa incapaz de voar, como a protagonista de sua inesquecível novela Fup. Uma oficina literária tampouco ensinaria a criar aberrações, mutantes visionários grotescos que povoam a ficção de Will Self. O assunto continuou em aberto, porque, quando se fala em formas de alimentar a criatividade de escritores, é cada um com a sua. A vida como ela foi De longe a melhor mesa da FLIP, com Ruy Castro, Fernando Morais e Paulo César de Araújo. No final de 2006, o historiador Paulo César de Araújo publicou Roberto Carlos em Detalhes, biografia do cantor mais popular do país das últimas décadas. Fruto de 15 anos de pesquisas e mais de 200 entrevistas, o livro foi bem recebido pelo binômio “público e crítica”. Mas desagradou ao biografado, que impediu na justiça a circulação do livro. Paulo César abriu a mesa soltando os cachorros em cima dos juízes e promotores da fatídica (segundo o autor) audiência de conciliação do 20º fórum da Barra Funda, em São Paulo. Paulo César de Araújo contou que, logo no início da audiência, o juiz de forma tendenciosa, em benefício de Roberto Carlos. Paulo César e a editora Planeta foram pegos de surpresa com tal atitude. Segundo o a autor, o juiz os ameaçou dizendo que se ele não comparecesse à audiência, a editora seria fechada o mais rápido possível, sujeito a pagar uma multa astronômica, multa essa requerida pelo cantor, além da posse dos onze mil livres restantes que ainda existiam em estoque, e que posteriormente seriam queimados pelo cantor. O autor não se conteve interveio. Disse ao cantor que em pleno século XXI cometer tal ato seria uma página negra na biografia dele, e obteve como resposta dos advogados da acusação que os livros então não fossem queimados e, sim, reciclados. A platéia foi abaixo nessa hora, assim como os autores presentes. Afinal o que estava acontecendo era muito maior que a proibição de um livro, era o direito da liberdade de expressão que estava em jogo. A ditadura mais uma vez batendo à porta. Foram abertos dois processos contra o autor e a editora: um na área cível, outro na criminal, mas em nenhum foram acusados de caluniar o artista. Invasão de privacidade e uso de imagem não autorizada foram as bases do pedido de proibição do livro. Paulo César de Araújo explicou a gênese do livro polêmico: Roberto Carlos em detalhes é resultado de quinze anos de pesquisa. A idéia surgiu quando eu ainda estava na faculdade, em 1990. Além de vasto material de arquivo, entrevistei cerca de 200 personalidades, entre cantores, compositores, músicos – todos falando sobre Roberto Carlos e suas respectivas carreiras. Por isso, o meu trabalho não é apenas uma retrospectiva da vida do “rei”. Na verdade uso Roberto Carlos como um fio condutor para analisar a cultura brasileira. No livro falo de bossa nova, tropicalismo, jovem guarda, festivais da canção, ditadura militar. Enfim, ali está um amplo painel sobre tudo o que de mais importante aconteceu nos últimos quarenta anos da história da MPB. Sobre a tal da “invasão de privacidade” registre-se que todos os fatos relatados na obra já haviam sido citados em jornais, revistas e outros livros. Ou seja, trata-se de uma privacidade pública, já fartamente publicada. E no caso específico de Roberto Carlos não dá mesmo para separar história pública de história privada, porque ambas estão entrelaçadas em sua obra musical. Fernando Morais lembrou que a censura fardada acabou há 31 anos: não que tenha acabado, vivemos uma censura togada. Tem juiz no resto do país fora do eixo Rio-São Paulo proibindo e fechando jornal por que citara mal um amigo. Hoje eles censuram e amanhã aparecem presos na página do jornal pela polícia Federal. Para Ruy Castro, Roberto não passa de um autor de duzentas péssimas canções. Paulo César Araújo rebateu dizendo que o cantor não tem intimidade com o objeto livro. Um fato curioso, abordado pela platéia, foi a disseminação do livro pela internet. “Muitos jornalistas europeus citam algumas passagens do livro como engraçadas, mas respondo dizendo que eu não escrevi isso, ou seja, Roberto Carlos em detalhes virou uma obra coletiva, pelo menos na Internet.” A mesa se estendeu com o tema censura em torno do livro de Paulo César. Uma idéia vinda da platéia foi bem recebida pelos autores, principalmente Fernando Morais. Que se tirasse da FLIP um documento para que se crie uma constituição clara, onde um artigo não passe por cima do outro. “Não é uma guerra sua, e sim da sociedade brasileira pela liberdade de expressão! Temos que tirar, sim, esse documento daqui e mandar para o Congresso. Desde que se decida quem será o presidente. Por enquanto a coisa está meio complicada por lá”, incentivou Fernando Morais. Paulo César de Araújo finalizou: “Eu vou seguir nessa luta até o fim! Sei de todos os males financeiros que isso pode me causar, mas irei até onde for necessário”. Ele explicou que dedicou o livro à filha de cinco anos (e nesse momento não conteve as lágrimas). Encerrou lendo um trecho de seu livro, como um manifesto à censura. Curiosidade Durante o terceiro dia da FLIP um avião monomotor ficou sobrevoando as tendas do evento com uma buzina de se ouvir a léguas. Carregava uma faixa amarela que de início ninguém conseguia ler, mas depois de algumas voltas a mensagem já tinha sido codificada. Era a seguinte: “Senta que o Renan é manso! A revista Piauí saúda a FLIP”. Ausência Arnaldo Jabor deixou de comparecer em virtude do nascimento de seu neto. Mandou um depoimento gravado em vídeo se desculpando. Nelson Motta o substituiu com maestria na mesa 7, Nelson Rodrigues ato 3, juntamente com Leyla Perrone-Moisés e Nuno Ramos. Arrogante Ganhador do Nobel de literatura de 2003 e, na minha concepção, ganhador do prêmio arrogância da FLIP J. M. Coetzee já havia dito previamente que não iria responder as perguntas do público, somente leria seus textos, e ponto. Diante deste fato recusei-me a cobrir esse figurão, fiquei sabendo por alto que ele interrompeu a leitura quando um alarme de carro disparou na rua. E ainda teve gente que o aplaudindo. Coisas da Flip. Um beijo Sob direção de Bia Lessa foi feita uma leitura da peça rodrigueana O Beijo no Asfalto com autores no lugar de atores. São ficcionistas, ensaístas e importantes estudiosos de Nelson: Adriana Armony, André Sant’Anna, Ângela Leite Lopes, Carlito Azevedo, Chacal, Flora Sussekind, Jorge Mautner, Liz Calder, Nelson Motta, Sergio Sant’Anna, Silvano Santiago, Suzana Macedo e Verônica Stigger. A platéia foi presenteada com uma bela surpresa: todos os assentos da tenda continham uma edição trilíngue do livro do Nelson O Beijo no Asfalto. Mas teve gente que ficou sem, por que alguns espertinhos resolveram levar mais de uma edição para casa. Sobre meninos e Lobos Ishmael Beah e Paulo Lins viveram ambientes cheios de brutalidade e desespero, mas resistiram contando suas histórias. O livro com as memórias de Beah, Muito Longe de Casa, é um relato fascinante da sua vida como criança-soldado em Serra Leoa e do modo como se libertou. Cidade de Deus, obra de Paulo Lins que deu origem ao filme adaptado por Fernando Meirelles, romanceia a experiência de crescer numa favela assolada pelo crime. Esses dois sobreviventes discorreram sobre o poder redentor que encontram nas palavras. Até a próxima Flip. *Jornalista. E-mail: wesleyousadia@yahoo.com.br |