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Humor
A utopia que deu
certo
Seleção com o melhor do Pasquim,
publicado entre 1969 e 1971, é garantia de humor inteligente e
irreverência, há muito ausentes da nossa imprensa
Por
Paulo Lima

Diante da
caudalosa antologia de O Pasquim, com a seleção do melhor publicado
entre 1969 e 1971, difícil é saber por onde começar. Qualquer página que o
leitor abra ao acaso vai estampar doses maciças de humor, verve, anarquia
e inteligência em elevados decibéis. Não era para menos. Para cutucar com
vara curta a sisudez e a truculência dos milicos que mandavam no país
naquela época, o histórico hebdomadário acabou formando uma espécie de
time dos sonhos. Quantas redações puderam contar com um plantel que
incluía Ivan Lessa, Paulo Francis, Ziraldo, Jaguar, Luiz Carlos Maciel,
Tarso de Castro, Millôr Fernandes, Sérgio Cabral e Sérgio Augusto? E
colaboradores como Vinicius de Moraes, Glauber Rocha, Moacir Werneck de
Castro, Chico Buarque, Otto Maria Carpeaux, Dalton Trevisan, Rubem Fonseca
etc., numa lista ampla e estelar?
Melhor mesmo é
começar pelas apresentações de Jaguar e Sérgio Augusto, organizadores
desse primeiro volume. Segundo Jaguar, o Pasquim nasceu de uma
reunião entre ele, Tarso de Castro e Sérgio Cabral. Precisavam substituir
o tablóide de humor A carapuça, cujo responsável era Sérgio Porto,
que acabara de morrer. Definida a idéia, veio a dificuldade para a escolha
do nome. Ganhou "Pasquim", sugerido por Jaguar, que hoje mora em Brasília.
Marco zero do ato porra-louca: setembro de 1968.
Foram editados 1.072
números – assim mesmo, nada cabalístico, pois as coisas no Pasquim
nunca funcionaram redondamente. Tudo acabou em 11 de novembro de 1991. O
Pasquim sifu com 22 anos, ou seja, uma idade provecta, dadas as
condições insalubres nas quais existiu: AI-5, tortura, censura – aquelas
coisas. Ah, não adianta correr pro dicionário para sabe o significado de
sifu. Trata-se de criação de Luis Carlos Maciel, e passou a ser utilizada
na linguagem diária, ao lado de modismos como "barato", "curtir", "sarro"
e outros vitupérios devidamente cifrados como nusfu e duca. Com a censura
não se brincava.
Mas as novidades
introduzidas pelo Pasquim não se restringiram apenas a esses
modismos. A entrevista com Ibrahim Sued já estava pronta (a primeira do
Pasquim) quando Tarso de Castro e Sérgio Cabral bateram os olhos nela.
"Tem que fazer o copidesque", orientaram. Jaguar, que a havia transcrito,
desconhecia o termo. Como não deu tempo, a entrevista foi publicada do
jeito que estava. "E foi assim que, repito, por acaso, o Pasquim
tirou o paletó e a gravata do jornalismo brasileiro", escreveu Jaguar.
Para escapar da
censura, tentavam-se uns dribles. Pôr astericos (inaugurados quando da
célebre entrevista com Leila Diniz) em lugar dos palavrões foi um deles.
No começo, conseguiram levar no bico uma censora que durante algum tempo
pousou na redação. A mulher deu bandeira demais e acabou substituída por
um linha-dura dos militares. Resultado: um belo dia a redação foi para a
prisão. O jornal continuou sendo editado aos trancos e barrancos por
Millôr Fernandes, que escapou. Com uma corrente pra frente de
colaboradores, o Pasquim manteve-se de pé.
Pense no maior
fenômeno editorial da imprensa no Brasil. Para Sérgio Augusto, o título
cabe hors-concours ao Pasquim. "E não adianta discutir. O
Cruzeiro? Tinha atrás de si uma poderosa empresa jornalística, os
Diários Associados, de Assis Chateaubriand. Veja? Ora, veja. Com a
editora Abril bancando a aventura, modéstia à parte, até eu. Atrás de O
Pasquim só havia um punhado de porras-loucas", escreveu Sérgio na
apresentação. "Assumidamente nanico, moleque, paroquial e abusado, nasceu
sob a suspeita de que duraria pouco tempo", continuou.
As suspeitas não
eram infundadas. Da chamada imprensa alternativa da época, ninguém sobrou
para contar a história. Um a um, os nanicos foram tombando vítimas de
embargo dos militares, asfixia financeira e outros problemas. Não deveria
ser diferente com o Pasquim. "Onde já se viu um jornal sem patrão,
onde todos os colaboradores podiam escrever o que bem entendessem e como
bem entendessem? Pois a velha utopia de dez em cada dez jornalistas
revelou-se, mais do que factível, um sucesso – fulminante e retumbante",
escreveu Sérgio Augusto. Mas o Pasquim deu certo. E só funcionou, segundo
Sérgio, porque foi editado no Rio, como um produto típico de Ipanema.
Pois agora o leitor
tem a oportunidade de ser um hóspede dessa utopia. Aí está o Volume I com
o melhor das 150 primeiras edições do Pasquim. Se o leitor estiver
na casa dos enta, terá a chance de matar a saudade de um tempo em que a
crítica cultural tinha charme, texto e erudição. Se for um aluno dos
cursos de Jornalismo que pululam Brasil afora, poderá ter em mãos um
exemplo de paixão pela profissão exercida ao extremo.
O moço ou a moça
quer ler um perfil admirável? Não deixe de saborear os escritos por
Vinícius de Moraes, com retratos soberbos de Dorival Caymmi e Di
Cavalcanti, entre outros. Quer um exemplo da irreverência beirando a
genialidade? Leia tudo que escreveu Paulo Francis, que naquela época ainda
se dizia trotskista – mas uma coloração que mudaria em pouco tempo, com
sua ida para os Estados Unidos, de onde escreveria anos mais tarde o seu
Diário da corte, sucesso nas páginas da Folha e do
Estadão. Imperdível também, no presente volume, é a entrevista que
Glauber Rocha fez com Gabriel García Márquez, prova de que era um craque
não somente com uma câmera na mão e uma idéia na cabeça. Ivan Lessa, que
se mudou para Londres, onde vive há 21 anos, criou personagens e frases
antológicas enquanto colaborou com o Pasquim. A mais famosa delas,
"A cada 15 anos os brasileiros esquecem o que aconteceu nos últimos 15
anos", até hoje é repetida.
E as entrevistas?
Recomenda-se a leitura de todas, sem exceção. São retratos 3 x 4 de
personagens que marcaram uma época. Eis alguns deles: Leila Diniz, Paulo
Mendes Campos, Madame Satã, Paulinho da Viola, Tom Jobim, Edu Lobo. Todos
submetidos ao crivo sem-cerimônia do Pasquim, em bate-papos regados
a uísque e doses maciças de inteligência. O Pasquim também inovou
ao pôr o entrevistado na roda, coisa que se imita até hoje. Ah, e tem os
cartoons, as famosas tiras da lavra de Ziraldo, Millôr, Jaguar (e o seu
Sigmund), Henfil e Fortuna.
Segundo os
organizadores, esse primeiro volume mobilizou 25 pessoas, ao longo de um
ano de trabalho "delicado e inteiramente subjetivo". Outros três volumes
virão. Enquanto isso, é aproveitar e se esbaldar.
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