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Crônica
Pastel de feira
Por
Adilson Luiz Gonçalves*
Uma de minhas
primeiras habilitações para pilotar veículos foi concedida por minha mãe,
no início dos anos de 1960. Ela foi instrutora, verificadora e emissora de
minha carteira de motorista de carrinho de feira!
Até que eu aprendi
rápido, para alívio dos pés e tornozelos que ladeavam meu itinerário. Para
protegê-los (e poupar meus ouvidos e os de minha mãe) eu até fiz
alterações técnicas no sistema de condução do carrinho, mudando a posição
do “sistema de tração” (em vez de puxar, passei a empurrá-lo). Sem saber,
eu já estava me habilitando a pilotar veículos mais sofisticados: os
carrinhos de supermercado, ainda raros naqueles tempos.
Veículos à parte, os
dias de feira eram ansiosamente aguardados. O percurso era sempre o mesmo,
já que minha mãe já era adepta da “fidelização” (raramente mudava de
fornecedores). Graças a isso, recebia tratamento “vip”, na qualidade de
“freguesa preferencial”, o que garantia pacotes prontos, com produtos “top
de linha”, selecionados pelos próprios feirantes.
A barraca de batatas
e cebolas era a primeira a ser visitada, pois as compras mais pesadas
deviam ficar no compartimento inferior do carrinho. Era a mais sem graça,
mas, no imaginário infantil, eu não as olhava como batatas e cebolas; eu
já as via como: batata frita, purê, croquete recheado com carne moída,
nhoque, acebolado de bifes...
O “setor de
brinquedos” era pouco freqüentado, pois naquela época presente tinha dia
certo: aniversário e Natal. O Dia das Crianças era um evento escolar,
reservado apenas para passeios.
A barraca de frios,
embutidos e afins também era a das gelatinas coloridas, que enchiam nossos
olhos de cores, nossa boca de sabores e nossos dentes de cáries. Mas nem
as diabólicas perfuratrizes dos arcaicos equipamentos dos consultórios
escolares nos dissuadiam daquele prazer.
A barraca de frutas
só era interessante quando tinha mexerica cravo (bergamotas). Graças a
elas eu desenvolvi, intuitivamente, meu lado “zen”. Até hoje eu as
descasco pacientemente, separo gomo por gomo, removo os filetes
remanescentes de casca e tiro os caroços para, só depois, devorá-las.
Os vegetais não
tinham o menor atrativo... Em compensação, ficavam muito próximos do ponto
culminante do itinerário: a barraca de pastéis!
Ela ficava num beco
e, para variar, era comandada por pais japoneses e filhos nisseis. O
pastel de queijo era feito com queijo branco... muito queijo branco! Minha
mãe comprava vários, também de carne. A única exceção era um, de palmito,
que ela degustava como se fosse criança.
Quando mudamos de
casa, por sorte, a barraca deles também integrava feira do bairro, e
ficava bem na esquina de nossa rua. Os proprietários já estavam tão
acostumados conosco, que qualquer um de minha família que fosse comprar os
dez pastéis, que serviam de “mistura” para o almoço de sábado, trazia mais
dois, de brinde!
Só havia uma coisa
melhor do que aqueles pastéis: comê-los com caldo de cana! Essa fórmula
era milagrosa, pois curava até dores de injeções e machucados. Santo
remédio!
O tempo passou...
Hoje eu vou raramente às feiras-livres. Creio que minha habilitação
caducou e, para piorar, meus calcanhares não se entendem com o carrinho.
As barracas de pastéis ainda estão lá, mas o gosto não parece o mesmo...
É curioso como os
sabores e contextos da infância ficam em nossa memória. Creio que esse é o
gosto da saudade...
*Escritor,
engenheiro e professor universitário (UniSantos e Unisanta), aAutor do
livro: "Sobre Almas e Pilhas"
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