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memória Mãe, amiga, escritora O adeus a Margarida Ribeiro Por Paulo Lima
Um dia recebi um e-mail um tanto lacônico, e sem assinatura. Lá se vão 8 anos. Embora breve, a mensagem transmitia um quê de poesia. Dizia que um texto meu, que o remetente lera por acaso na internet, o fizera refletir durante uma tarde na Beira Baixa portuguesa. Fui imediatamente movido por duas curiosidades e uma vaidade. As curiosidades: que texto seria esse, e onde ficava essa tal Beira Baixa. A vaidade: com minhas parcas palavras, eu tinha sido capaz de tocar alguém num lugar aparentemente remoto de um país distante. Rapidamente respondi a mensagem. E daí nasceu uma longa amizade. Um desses milagres que a internet é capaz de produzir. Os relacionamentos, apesar de virtuais, adquirindo mais significado do que muitos dos nossos contatos em carne e osso. Meu leitor era uma mulher, portuguesa, professora, aí na faixa de 50 e poucos anos. E a Beira Baixa, uma região no centro de Portugal. O texto, se bem me lembro, trazia uma reflexão pessoal sobre o ato de escrever tomando como ponto de partida uma frase de Guimarães Rosa. Foi um alumbramento mútuo. Não tardou para que eu me sentisse envolvido pela inteligência e sensibilidade da minha nova amiga. Era como se eu tivesse descoberto, por acaso, um espírito aparentado. O tempo passou e Margarida se tornou membro da minha pequena família. Ela “viu” meus filhos crescerem, e por extensão se transformou também em amiga da minha mulher. Na prática, era um misto de avó distante, conselheira e ombro amigo. Nesse meio tempo, fizemos mil planos de visitá-la um dia, naquela que seria A GRANDE VIAGEM para terras portuguesas. Margarida dava corda à idéia: não poucas vezes, traçou roteiros completos de viagem, anotando cuidadosamente os custos que me caberia realizar na empreitada. Enquanto o grande dia não chegava, íamos alimentando a amizade com muitas mensagens, mimos mútuos encaminhados pelo correio-caracol, e alguns telefonemas. Sua voz era cheia, forte, aveludada. Voz educada durante anos pelo magistério e a necessidade de se fazer comunicar. Num desses mimos, ela me presenteou com uma fita na qual recitava poetas portugueses e brasileiros. Quando decidi criar um jornal on-line, Margarida não apenas incentivou o projeto – aliás, jamais deixou de estimular todas as minhas maluquices -, como, a contragosto, se tornou uma colaboradora regular, preenchendo a coluna Portugal on-line, que criei especialmente para ela. Digo a contragosto porque, embora escritora e poeta nata - e muito culta -, Margarida era muito modesta quanto a suas habilidades, que não eram poucas. Não gostava de se pavonear publicamente. Mas, em nome da amizade, cedeu aos meus pedidos de editor ansioso. Era não somente a colaboradora mais pontual, mas também a mais responsável. Um dia, por problemas de internet em sua região, Margarida viu-se impossibilitada de enviar seu texto costumeiro. O que ela fez então? Telefonou para avisar e se desculpar. No ano passado, a vida reservou reveses pesados para a minha amiga. A saúde, então, cobrou-lhe pedágio. Por isso, ela pediu para ser dispensada do Balaio de Notícias. Mas o afastamento durou pouco. Ninguém pode imaginar do que um jornalista é capaz. Margarida não somente voltou a colaborar com sua rica prosa poética, como ainda ajudou a produzir a capa de algumas edições. A notícia de sua morte, ocorrida em 11/01, me atingiu com o impacto de um raio. Margarida tinha 61 anos, e o seu coração, sempre tão grandioso, dessa vez não permitiu que ela visse a aurora de um novo dia. Ela estava pronta para começar uma nova etapa na vida, apesar dos sofrimentos recentes. Na última mensagem que me enviou, dizia que planejava morar em Lisboa, e lá eu não precisaria pensar em despesas de hospedagem. Senti-me órfão e desolado. Desolação que vai perdurar por muito tempo. Custo a acreditar. Semana passada comprei um DVD contendo uma apresentação de Amália Rodrigues (a grande fadista) em Nova York. Meu primeiro impulso foi correr e avisar à minha amiga. Não deu tempo. Ela era uma das minhas grandes interlocutoras intelectuais, a primeira a quem eu recorria para contar as novidades e dividir o meu universo. Margarida, este é o meu abraço de despedida para ti. Diogo, o filho de Margarida, deixou uma mensagem no blog que ela vinha alimentando ao longo dos últimos anos, um símbolo de sua hospitalidade e amizade incondicionais. Peço licença a Diogo e a transcrevo aqui:
“A minha Mãe era uma pessoa especial. Muito inteligente, corajosa como nunca
vi e com uma energia transbordante. Viveu sempre à frente do seu tempo e
talvez por isso nem sempre tenha sido bem compreendida por todos. Foi assim
quando insistiu em tirar a licenciatura, foi assim quando se divorciou, e
criou os 3 filhos sozinha, foi assim quando quis viver na quinta, foi assim
quando achou que era tempo de começar gozar a vida, foi assim numa imensidão
de decisões que tomou. Desbravou sempre o seu caminho, com todas as suas
forças, muitas das vezes, completamente sozinha, mas totalmente determinada.
Talvez por isso tenha esgotado as energias antes do tempo. Muito cedo. Muito
antes de cumprir todos os seus sonhos. E ainda lhe faltavam cumprir tantos… |