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comportamento Trabalho e multitarefas Prejuízos do excesso de informação Por Paulo Lima
Sou do tipo que costuma realizar muitas tarefas ao mesmo tempo. Considero que o ato de fazer as coisas devagar, com calma, pertence ao reino de três categorias de pessoas: as preguiçosas demais, as lentas demais ou as velhas demais. A imagem que ilustra mais apropriadamente esse meu comportamento é o de alguém ligado o tempo todo na tomada. Para o meu caso, uma das muitas cartas que Lord Chesterfield escreveu para o seu filho, em 1740, certamente não serviria. “Há tempo suficiente para tudo durante um dia, desde que você faça uma coisa de cada vez”, escreveu ele. “Porém, não haverá tempo suficiente durante um ano, se você fizer duas coisas ao mesmo tempo”. Lord Chesterfield prosseguiu em sua carta. “Essa atenção constante e não dispersiva a um único objetivo é certamente a marca de um gênio superior; enquanto que a pressa, a azáfama e a agitação são os sintomas indubitáveis de uma mente frívola e fraca”. Okay, Lord. Queria ver só se você tivesse caído neste século veloz, e não na Inglaterra pastoril pré-revolução industrial. Seria capaz de manter a fleuma britânica? A pressa e a agitação são estados inerentes aos tempos modernos. Somos exigidos a exercer múltiplos afazeres num tempo muito curto. Os americanos até já inventaram uma palavra para esse mal do século: multitasking (multitarefas), ou o ato de executar múltiplas atividades simultaneamente. O assunto foi objeto do ótimo artigo The myth of multitasking, recém-publicado na revista eletrônica The New Atlantis. Tento explorá-lo neste texto. O termo multitasking foi tomado de empréstimo da informática, e serve para descrever as habilidades de processamento em paralelo dos computadores. Não poderia ser mais apropriado. A analogia é perfeita. Somos pressionados a produzir mais e mais rapidamente, como se fossemos máquinas de alta-performance. O custo disso tudo? Uma pesquisa conduzida pelo Instituto de Psiquiatria da Universidade de Londres revelou que trabalhadores que costumam ler e escrever e-mails enquanto atendem ligações telefônicas (algo corriqueiro em qualquer escritório) sofrem uma redução no quociente de inteligência. E essa redução é duas vezes mais acentuada do que em fumantes de maconha. Esse efeito colateral, que eu chamaria por galhofa de “a maldição de Lord Chesterfield”, foi descrito pelo psicólogo que fez a pesquisa em Londres como “infomania”, e atinge principalmente o mundo dos negócios, cuja preocupação com a gestão do tempo é constante. Afinal, temos de estar o tempo todo conectados a celulares e à internet, sob o risco de perder oportunidades, negócios. O impacto desse efeito sobre o QI dos trabalhadores, por sua vez, representa uma séria ameaça à produtividade. O problema tem atraído a atenção de especialistas, como o Dr. Edward Hallowell, um psiquiatra de Massachussetts especializado em doenças provocadas por déficit de atenção ou situações de hiperatividade. Ele até escreveu um livro, sintomaticamente intitulado CrazyBusy (algo como “louco de trabalho”), para explicar o assunto. “Nunca na história o cérebro humano foi tão solicitado para executar tantas tarefas”, disse Edward. Para ele, a crença de que podemos fazer uma ou duas tarefas simultaneamente não passa de um mito. Mudar tudo isso é um desafio. Mas Edward defende duas estratégias possíveis: provocar mudanças criativas no ambiente no qual vivemos e em nossa saúde física e mental. Outros estudos, a maioria deles concentrada no mundo anglo-saxão, têm mapeado os danos causados pela pressão excessiva do ambiente de trabalho sobre mentes e comportamentos. Num deles, o psicólogo Russel Poldrack, da Universidade da Califórnia, revela que nossa capacidade de aprendizado é afetada pelo excesso de atividades. A nossa capacidade de aprendizado se torna menos flexível, e não podemos reter informações facilmente. Russel Poldrack dá um alerta: “Devemos estar cientes de que há um custo para as mudanças sociais, os humanos não foram feitos para trabalhar dessa maneira. Fomos feitos para manter o foco, e quando nos forçamos a executar tarefas simultâneas, somos levados, talvez, a ter menos eficiência a longo prazo, embora isso nos dê às vezes a sensação de que estamos sendo mais eficientes.” O estudo do Dr. Poldrack envolve uma preocupação com as novas gerações, profundamente mergulhadas no que ele chama de “media multitasking”, ou seja, a busca desenfreada de entretenimento propiciado pela internet, tevê, vídeo games, telefone e e-mail, tudo ao mesmo tempo. Se a simultaneidade de várias tarefas reduz a capacidade de aprendizado, o que será dos jovens que são alvos constantes de tantas tentações? Um adolescente ouvido numa pesquisa de 2005 resumiu bem a situação: “Eu faço diversas coisas a cada segundo que estou online. Agora mesmo estou vendo tevê, checando meu e-mail a cada dois minutos, lendo um newsgroup sobre o assassinato de John F. Kennedy, gravando um CD e escrevendo esta mensagem”. Talvez no futuro esse excesso de estímulos venha ser absorvido como parte da nossa vida diária, da mesma forma que os trabalhadores do século 19 se adaptaram aos ruídos das máquinas nas fábricas, ruídos que tanto os perturbavam no início. A grande questão que se levanta é que, sem dúvida, ganharemos em informação, mas não em sabedoria. Porque esta requer o que estamos perdendo: a capacidade de concentração, de bem-estar e de manter a atenção focada nas coisas.
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