Edição 118 - Aracaju, 05 de outubro a 02 de novembro de 2008
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  entrevista
Faulkner no Brasil
Romance recria a visita que o escritor americano fez a São Paulo em 1954

Por Paulo Lima

O cenário é a São Paulo de 1954. William Faulkner acaba de chegar para participar do 1º Congresso Internacional de Escritores. O evento faz parte das comemorações do IV Centenário da cidade. O escritor, vencedor do Nobel de Literatura de 1949, é o mais célebre e o mais esperado dos convidados. No aeroporto, uma pequena comitiva o espera. Faulkner segue para o hotel Eldorado, onde fica a maior parte do tempo bêbado e inventando desculpas para se esquivar de qualquer compromisso que soasse a literatura. Cansado da longa viagem e embriagado, Faulkner confunde a já cosmopolita capital com outra localidade dos Estados Unidos. “What the hell am I doing in Chicago?” (Que diabos estou fazendo em Chicago?).

Foi dessa forma, com os ânimos mais voltados para Baco do que para o encontro literário, que o autor dos clássicos O som e a fúria e Luz em agosto permaneceria os primeiros dias. Introspectivo e arredio, Faulkner confinou-se no hotel e mostrou má vontade em participar dos trabalhos do Congresso. O comportamento do escritor só mudaria depois de uma conversa com o serviço diplomático americano, quando o evento já caminhava para o seu final. Faulkner baixa então a guarda e responde a perguntas de jornalistas, jovens escritores e admiradores. Passa a circular pela cidade e conhece lugares. Encontra personalidades e intelectuais, como Lúcio Cardoso, Lasar Segall, Di Cavalcanti e Cecília Meireles.

Essa passagem de Faulkner por São Paulo é o tema do romance Dias de Faulkner (Imprensa Oficial, 136 pp., R$ 25), estréia na ficção do escritor carioca Antônio Dutra, 34, vencedor do prêmio Meet 2008, promovido pela Casa de Escritores Estrangeiros e de Tradutores de Saint-Nazaire, na França, concedido a um jovem escritor latino-americano. A premiação também valeu a Antônio Dutra uma temporada de dois meses na França. Dutra passará os meses de novembro e dezembro em Saint-Nazaire, como escritor visitante em intercâmbio com jovens escritores franceses e de outros países.

Historiador formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, Antônio Dutra descobriu seu tema por acaso, ao entrevistar o escritor Renard Perez, em 2004 – informação curiosamente incluída no romance. Mas a narrativa que resulta de sua investigação é eminentemente literária. Utilizando variados recursos narrativos – há inclusive uma descrição da famosa foto de Faulkner feita por Henri Cartier-Bresson no Mississipi -, Antônio Dutra franqueia ao leitor uma familiaridade que só a literatura é capaz de proporcionar. Desse modo, por meio de um monólogo interior, vemos o que se passa na mente de Faulkner, o que ocorre em seu íntimo durante sua temporada paulistana, conhecemos suas incertezas e seus temores. Este é o grande trunfo do literário. “O escritor acaba privilegiando a palavra, a construção do estilo, as interrogações, impressões e sensações que se pode imprimir com o texto, enfim, outras questões que para um historiador poderia ser lateral, mas que para o romance são fundamentais”, compara Antônio Dutra.

O romance nos conduz ainda por uma São Paulo já tomada pelo surto urbanista que a agigantaria décadas mais tarde. E nos leva de volta a Faulkner para testemunhar o seu colóquio sincero com jovens escritores no saguão do hotel Esplanada, ensinando-lhes os ossos do ofício, o sentido da literatura, suas convicções (“Eu acho que um escritor deve antes de tudo ser fiel a si próprio, não importa o que escrevam sobre ele”), ou manifestando-se sobre o racismo nos Estados Unidos (“Esses problemas, e vocês podem ver em minha obra, são uma das minhas maiores preocupações”).

Antes da estréia bem sucedida de Dias de Faulkner, Antônio Dutra escreveu o romance Matacavalos, que permanece inédito, resultado de projeto selecionado numa oficina de literatura durante a Festa Literária de Paraty de 2004. Atualmente Antônio Dutra assina uma coluna no caderno “Bis”, do jornal Tribuna da Imprensa, e colabora com o blog Paralelos, do jornal O Globo. Por e-mail, ele concedeu a entrevista que se segue, na qual fala sobre seu romance premiado e sobre literatura.

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BN - Dias de Faulkner é sua estréia na ficção, e você já começa com um prêmio literário. Como se sente ao receber um reconhecimento tão rápido?

Antônio Dutra - Eu me sinto muito feliz, claro, com o prêmio, com o reconhecimento e mesmo com as conseqüências que ele traz consigo. Mas acho que ele pessoalmente me ajudou, a partir de uma narrativa não tradicional (pois no livro como um todo há implicitamente a idéia de jogo, do fazer literário), a ganhar confiança como escritor. Antes eu tinha concorrido a uma Bolsa de Criação Literária em Paraty (RJ), através de uma oficina ministrada por Milton Hatoum, em 2004, tinha sido um dos vencedores com um projeto de romance, mas por força das circunstâncias o livro não foi publicado. Acho que com Dias de Faulkner terminado e editado, realmente se inicia a “carreira”, que passou pelo processo de formação natural de todo escritor - leitura, ensaio, erro, escritura etc. - e também com contribuições ao site Paralelos, a partir de 2001, depois à imprensa e com o romance que agora chega às livrarias.

Eu costumo ver como um breve percurso em que tenho marchado, com desafios, às vezes dificuldades, mas caminhando... Acho que o mais surpreendente mesmo é justamente escrever e poder num primeiro livro participar de um primeiro encontro internacional, conhecer os escritores franceses atuais e mesmo de outros países, acho que é uma relação que não era possível para gerações anteriores. Isto sim é fascinante. Há uma relação com o processo de globalização, mesmo para escritores, mas em que extensão realmente não saberia dizer.

BN - Segundo você revela no próprio romance, a idéia de escrevê-lo surgiu após uma entrevista com o escritor Renard Perez, em 2004. A partir daí, como se deu o trabalho de pesquisa?

A.D. - Sim, Renard Perez entra no romance como quem sugere (por acaso) conversando o assunto do livro, mas eu queria incluí-lo no livro porque é também uma forma de celebrar a amizade, isto é, a diferenças entre nossas gerações por vezes são enormes, mas muitas vezes conversamos – pois continuo encontrando-o de vez em quando - e simplesmente as diferenças desaparecem porque acabamos falando dos “nossos” escritores e a literatura acaba nos tornando próximos, “burlando” assim o tempo.

Repare, em 2004 eu estava envolvido com a feitura do romance Matacavalos (que permanece inédito), mas comecei a investigar, a rastrear essa visita, a ir atrás de atores e, claro, os jornais. De início, levantei uma pequena parte da documentação, mas a escrita do outro romance se impôs. Deixei de lado a idéia, preferi "arquivar" o projeto por enquanto, isso em 2005, pensava escrevê-lo só mais tarde. Talvez depois de outro livro. Até que no final de 2006 foi anunciado pelos jornais que haveria o concurso em São Paulo patrocinado pelo consulado francês para autores inéditos, pela Aliança Francesa daquela cidade e pela Maison des Écrivains Étrangers et des Traducteurs (MEET) da cidade de Saint-Nazaire, na França.

Havia certa "sincronicidade" e um grande desafio. Eu tinha material sobre Faulkner em São Paulo, mas até então tinha relutado um pouco em escrever, e percebi que era o momento ideal. No início de 2007 foram divulgadas as regras do concurso e eu já vinha pesquisando e iniciando a escrever desde mais ou menos fim de 2006 e início de 2007.

Havia enormes questões de início: não se encontrava muito material relativo ao que se passou, a que São Paulo Faulkner viu (ou pode ter visto), havia uma imagem difusa de uma visita na qual Faulkner estava o tempo todo embriagado. Mesmo nos artigos acadêmicos norte-americanos se faz referência, e discretamente, censurando essa leitura brasileira quase folclórica sobre o tempo em que ele esteve aqui. Eu comecei a pesquisar as biografias sobre Faulkner. Em geral, elas são reticentes quanto à visita, eu achei que daria um pouco de trabalho (e deu), mas que seria no final recompensador.

Além disso, eu me perguntava como tornar possível falar de uma cidade na qual não se viveu? Em mais de uma entrevista Georges Simenon dizia que comprava mapas e era capaz de elaborar uma trama a partir de nomes de rua de uma cidade em que ele nunca tinha estado. Eu achava difícil simplesmente uma saída como essa, pois viver em uma cidade gera uma relação sentimental com o espaço, com a capacidade de descrição, que eu teria que habilmente tentar contornar, é claro. Fora isso, é difícil também tentar ser respeitoso e ao mesmo tempo convincente quando se escreve sobre alguém conhecido como Faulkner. É um jogo difícil entre tentar equilibrar a visão particular que se pode ter sobre um indivíduo, as expectativas das pessoas que o admiram e o imenso respeito que é preciso ter sobre a figura do escritor.

Conseguir tratar da visita, levando em conta todos esses pontos, e ser convincente foram os pontos mais difíceis. Basicamente de escrita direta, sem contar o que eu já tinha comigo, o livro começa com muitos trechos escritos já no final de 2006, e durante toda a primeira metade de 2007, até o penúltimo dia do primeiro prazo de entrega, em junho.

BN - Em algum momento você se sentiu atraído por uma abordagem documental do tema, como historiador?

A.D. - Eu acho que procurar não só documentação é importante, é mais um elemento com o qual se pode construir literatura. Aliás, eu acho que a grande diferença é justamente a liberdade com que se pode escrever sobre um tema em literatura. Se pode aproximar fatos, pessoas, objetos, circunstâncias, fazer paralelismos, usar a sua imaginação e do personagem, mudar o foco da narrativa.

Fazer uma análise documental ou de fontes, se quisermos, é uma das muitas ferramentas para um escritor. Acho que para um historiador também, mas os caminhos acabam se bifurcando, e o escritor acaba privilegiando a palavra, a construção do estilo, as interrogações, impressões e sensações que se pode imprimir com o texto (até porque o leitor é quem vai aceitar ou não construir os cenários, as pessoas, as circunstâncias), enfim, outras questões que para um historiador poderia ser lateral, mas que para o romance são fundamentais.

BN - Houve alguma interferência de sua formação como historiador no desenvolvimento do romance?

A.D. - Meu trabalho de reunir informação foi um trabalho de historiador, tal qual se aprende nas universidades - coletar material, reunir informações -, mas a imaginação, a preocupação com o estilo, a elaboração do texto foram próprias de um ficcionista. Eu não quero fazer parecer que os historiadores não tenham, é claro que têm, mas o romance é um outro jeito de se interrogar sobre a realidade, o indivíduo, suas idiossincrasias.  Eu acho que a formação de historiador me ajudou muito a elaborar o romance.

BN - Seu livro utiliza elementos narrativos diversificados que incluem, inclusive, a análise da famosa foto que Henri Cartier-Bresson fez de Faulkner no Mississipi. Você buscou alguma inspiração faulkneriana para a narrativa?

A.D. - Bom, o livro começa pela minha admiração à obra do Faulkner, e por reconhecer sua enorme influência em toda geração posterior, e mesmo atual, de escritores, sejam americanos, europeus ou sul-americanos. Hoje estamos convivendo com essas técnicas mesmo no cinema, por exemplo, um fato contado de inúmeros pontos de vista de vários personagens é uma técnica comum em vários filmes, mas que se deve a Faulkner. Aliás, Umberto Eco assinala essa relação entre cinema e literatura, e o inverso também ocorre, livros nos quais se percebe um sabor de roteiro.

No meu caso, acho que Faulkner não só me mostra uma coragem de buscar caminhos que tinham que ver com sua escrita e que só muito recentemente foram incorporadas como fazendo parte de um recurso para se contar uma história. De outro romancear um mundo marcado pela derrota da Guerra de Secessão, um mundo sombrio e violento, racista, e que é o mundo que ele conheceu, um outro Estados Unidos, particular. Parece às vezes que Faulkner nos diz não adiantar querer escrever apenas uma história em Nova York ou Londres, mas é preciso saber explorar aquilo que muitas vezes está diante de seus olhos. Acho que são lições atuais para qualquer escritor.

No Dias de Faulkner há alguma sugestão de mudança de foco, pontos de vistas e versões de fatos, porém a inspiração é muito mais a impossibilidade de ser Faulkner. Nesse sentido, nunca pretendi parodiar o grande escritor, porém dialogar, me aproximar cautelosamente (às vezes, confesso, com um pouco de humor) e me servindo para isso de uma visita quase esquecida.

BN - Quem são os escritores que mais o influenciaram em seu aprendizado literário?

A.D. - O fato de ter uma formação em História denota meu gosto sobre o tempo, sobre os escritores que tratam do assunto, e de temas correlatos, como memória, identidade. Nesse caso se poderia dizer de um António Lobo Antunes, um dos melhores escritores de nossa língua; de um Claude Simon, que procura investigar em mais de um romance a memória das guerras de que participou (Guerra Civil Espanhola e Segunda Guerra) como cavaleiro; Curzio Malaparte e sua visão da Segunda Guerra, entre a ironia e a revolta cáustica, com certo sarcasmo e descrença sobre os homens, influenciado pelo surrealismo e estranhamente pelo lirismo proustiano, o que dá um sabor cambiante e um fascínio ao seu Kaputt; Haroldo Maranhão, ao tratar da morte de Machado de Assis em seu belo livro Memorial do Fim; em outro sentido, Ítalo Calvino, que usa do passado popular italiano para ambientar seus personagens (o homem partido ao meio, por exemplo...). Além desses tem o Proust e aquele imenso afresco afetivo do seu tempo, Beckett e o tanto que é dito naquelas páginas magras, o Machado de Assis e sua argúcia...

Eu não quero parecer pretensioso com todas essas referências, até porque, como lembra Lobo Antunes, ele começou lendo Flash Gordon, Monteiro Lobato, e o escritor, quando elege um panteão de escritores, parece querer convencer o futuro, a posteridade. Eu prefiro pensar que essas leituras e a vida que se tem e se teve, tudo isso acaba convergindo para que se possa criar uma escrita, um olhar sobre a vida. Assim sendo, poderia incluir Kafka, Borges tanto quanto os desenhos animados e gibis da infância da minha geração, as pessoas que conheci, os lugares em que vivi. Essas coisas misturadas, adormecidas, talvez estejam todas presentes discretamente na hora da escrita.

BN - O recurso a um episódio histórico como mote para a criação literária parece um filão pouco explorado pelos escritores brasileiros. Ou a balança pende para o histórico, ou para o literário. Você perseguiu algum tipo de equilíbrio em seu livro?

A.D. - O equilíbrio é fundamental, eu detestaria ter criado uma obra em que apontassem apenas o didatismo. O historiador e o escritor têm preocupação em convencer, o primeiro com razões, refutando , questionando visões correntes, equivocadas, mas o escritor se preocupa com a verossimilhança, com o estilo, isto é, com outros recursos para que o leitor participe do livro.

Na verdade, a preocupação fundamental foi apresentar a participação do Faulkner no Congresso como um romancista faria, convocando a adesão do leitor, equilibrando “fatos”, acontecimentos e situações. Acho que uma coisa de um romance é justamente surpreender, no sentido de não reduzir o romance a uma cadeia de fatos e efeitos. O pior de filmes – para mim - é sempre quando você tem certeza do que vai acontecer e acaba acontecendo mais adiante. Isso cria uma “rotina” que tentei evitar na elaboração do romance.

BN - No romance, Faulkner se mostra pouco disposto a falar de literatura no Congresso em São Paulo, mas, numa de suas conversas com o público e a imprensa, ele aconselha o jovem escritor a escrever sempre, não importa se bem ou mal, sem esperar o julgamento do seu tempo. Esse é um aconselhamento que poderia ser seguido nos dias atuais?

A.D. - Autran Dourado diz algo parecido quando esclarece através de seu “mestre imaginário” que só se você não escrever é que seus livros não vão existir. Acho muito importante essa confiança, os livros vão nascer, mas é preciso se dedicar, superar desafios e, sobretudo, ler. Ler, ler o tempo todo, e simplesmente também arriscar-se, não confiar que relações pessoais podem lhe trazer vantagens ou simplesmente prejuízos. Porque no fundo o objetivo do escritor é permanecer nessa curvatura de tempo que ele imagina ser o máximo de certa perenidade, sobrevivendo até mesmo a sua morte. Escrever algo capaz de sempre falar aos vivos.

No futuro não adianta ser amigo de um ou outro, ter publicado dez ou um livro. Quantas pessoas escreveram ao tempo do Machado e aparentemente só ele parece sobreviver, e bem? Se for para escrever, continue e não desanime. Acho um tipo de conselho muito útil, mesmo hoje.

BN - O romance narra um fugaz momento em que Faulkner avista Joyce em Paris, e que define a opção de Faulkner pela literatura. Esse encontro é verdadeiro?

A.D. - Permanece a dúvida, Faulkner jurava que sim, mas que não teve coragem de perturbar Joyce. Não é o único caso de encontros rememorados ou inventados, como Manuel Bandeira, que durante muito tempo disse ter recitado um poema de Camões no bonde para Machado de Assis, e o mestre não se lembrava do poema. Depois o poeta disse que era brincadeira, mas revela muito da admiração e da personalidade de um escritor a maneira como cria esses encontros. Faulkner era notório mitomaníaco, é bem provável que seja mentira, enfim, no romance mesmo eu sugiro uma interpretação.

BN - E a personagem “L”, uma mulher de olhos “cativantes e movediços”, que cruza o caminho de Faulkner em São Paulo. Ela existiu?

A.D. - Nesse caso, acho que a dúvida é fundamental. “L.” é uma personagem feminina, instigante, bela, quem sabe não aguça a curiosidade do leitor? Se eu conseguir isso, ótimo, o romance cumpriu seu papel.

BN - Em sua passagem por São Paulo, Faulkner mostrou-se arredio e pareceu não se dar conta de que era um elemento da política da boa-vizinhança do governo americano. Faltou a ele essa dimensão da visita?

A.D. - Acho que Faulkner não se interessava pela política nesse sentido. A sugestão do nome dele se deu até por isso. Um escritor respeitado num continente em que os intelectuais tomavam posição mais esquerdista. Sinceramente, Faulkner parecia cansado dessa ciranda de encontros, debates etc. E era notório seu problema com o consumo de bebida alcoólica. A impressão que me dá é que hoje, com uma informalização maior da sociedade, talvez ele se sentisse mais à vontade. Mas é só minha impressão.

BN - Faulkner confessou durante o Congresso que se sentia um malogro, que todos os livros dele eram grandes malogros. Ele estava jogando para a platéia?

A.D. - Quando veio ao Brasil Faulkner já tinha recebido o prêmio Nobel, era reconhecido pelo seu talento, nesse sentido não acredito nesse malogro. Contudo acho que mesmo exagerando um pouco, ele chama atenção para a necessidade de buscar avançar com a sua literatura, ao se contentar com aquilo que você já descobriu de que é capaz ou domina. Nesse sentido, acho que é coerente achar que o clássico pertence sempre a um outro e não a você. Os defeitos são sempre visíveis para o escritor na sua própria obra, acho que, no fundo, nisso Faulkner acaba sendo bem honesto.

BN - Se você tivesse uma chance de encontrar Faulkner naquele Congresso em São Paulo e lhe fosse permitido fazer uma pergunta a ele, que pergunta teria feito?

A.D. - Realmente não sei, eu gostaria sim de observá-lo, pedir um autógrafo, quem sabe... Eu gostaria de principalmente poder puxar conversa, sem a obrigação de que ele fosse um representante da cultura norte-americana, apenas um grande escritor diante de um escritor iniciante. No meio de taças de vinho para mim, e uísques para ele, sem dúvida seria um encontro, algo para se reter para o resto da vida como nesses raros momentos de nossa vida que temos noção no exato instante em que acontecem. Aí sim, seria inesquecível.