Edição 120 - Aracaju, 07 de dezembro de 2008 a 04 de janeiro de 2009
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  ficção
Minha lembrança de Maiakóvsky
Memória e invenção sobre o poeta russo

Por Paulo Lima

Uma biografia de Maiakóvski, nova, desconhecida. Maiakóvski, o poeta da revolução, de Aleksandr Mikhailov. Editora Record, respeitáveis 560 páginas. Por acaso eu a descubro numa dessas minhas intermináveis investidas pelas livrarias. Se eu tivesse 20 anos, seria tomado por um inevitável impulso de abrir o livro e comprá-lo sem nem mesmo me dar o trabalho de percorrê-lo.

Vladimir Maiakóvski, minha grife poética dos anos 80. Herói do cubo-futurismo russo, que líamos nas escassas edições brasileiras em tradução dos irmãos poetas Augusto e Haroldo de Campos, e do professor Boris Schnaiderman. Mas hoje, um quase irremediável cinqüentão, me esvaziei daquela poesia hiperbólica e marcada por um lirismo dramático. Mudei eu, sem dúvida.

O leitor é móbile.

Mesmo assim, como se num gesto de respeito à memória do poeta, avanço num ritmo indolente as páginas do livro de Aleksandr Mikhailov, rememoro informações há muito esquecidas, me detenho nas fotografias.

Maiakovski e sua adorada Lília Brik. Maiakóvski e sua figura carrancuda diante da exposição que comemorou seu jubileu de atividades poéticas. Maiakóvski e suas leituras públicas. Maiakóvski rodeado por jovens admiradores. Maiakóvski e sua tenra infância, quando ele sequer desconfiava do futuro no futuro.

Salto vários capítulos, vou para o final. Nele Mikhailov narra o dia de Maiakóvski anterior ao suicídio do poeta, e levanta algumas hipóteses para o seu ato final. Numa delas, a KGB teria visitado o poeta e o ameaçado. Foi a gota d´água para o gigante já fragilizado.

Devolvo o livro de volta à estante como quem deposita uma última flor para Maiakóvski.

Em casa, mais tarde, falo da biografia pra Helena. Minha mulher ouve um tanto ausente, enquanto se dedica a um de seus intermináveis relatórios de trabalho. Esse inesperado reencontro com Maiakóvski me trouxe à memória um episódio dos anos 80, quando eu tinha 20 anos, quando essa é uma idade em que os sentimentos parecem inescrutáveis e intransponíveis, quando o mundo todo é o palco de uma aventura em moto contínuo, quando um grande poema era um bálsamo, especialmente se esse poema vinha de Maiakóvski.

Helena conhece bem o seu parceiro, ela sabe que não vou deixá-la em paz até que ela me permita alugar seu ouvido mais uma vez. Ela sabe que jornalistas adoram se derramar numa história. Eles simplesmente acusam o golpe, seus egos murcham e desaparecem, se condenados a um silêncio forçado ou involuntário.

Por isso não foi surpresa quando ela, misturando resignação com impaciência, propôs: ok, você conta seu encontro com Maiakóóóóvski, mas em troca me deixa contar meu encontro com Charles Darwin. Tá? Apesar do tom irônico, fazia sentido. Darwin ocupa um lugar de honra em sua biblioteca de evolucionista fervorosa e ambientalista devota.

Tá, combinado.

Então, agora conta.

Conto eu. Naquele ano eu viajei a São Paulo. Férias da universidade, mundo grande, solteirice e uma puta fome de tudo. 1980, por assim dizer, foi o meu ano-Rússia. Eu me alimentava de esquerdismo barato contra o establishment americano, poesia russa, literatura underground e filósofos mal-digeridos: tudo se misturava, meu liquidificador trabalhava à plena potência para entender o dasein, o estar-aí, o engagement, Sartre & Cia., a liberdade, o materialismo histórico. Numa palavra: porralouquice total disfarçada de inteligentsia.

São Paulo day and night, estou na cidade, caminhos que se abrem em infinitas direções. Lembro duma livrariazinha ali pelas bandas do Centro Cultural São Paulo. A mocinha em silêncio atrás do balcão. Radiografei o lugar, aí bati o olho num cartaz de Maiakóvski, uma foto de quando ele foi preso pela primeira vez pela KGB. Propus negócio à mocinha. Ela disse que não estava à venda, e eu tenho certeza que ela não venderia aquele cartaz por dinheiro nenhum.

Mas não saí de mãos vazias. Comprei o livro Maiakóvski, primeira tradução dos poemas de Maiakóvski realizadas diretamente dos originais russos. Os irmãos Campos e o professor Boris Schnaiderman foram os responsáveis pela façanha.

Naquela noite me enfurnei no hotel e desandei a ler o poeta. No dia seguinte peguei o catálogo telefônico e procurei o nome do professor Boris. Meu objetivo era falar do livro e pedir uma sugestão de um curso de russo para iniciantes.

Não foi difícil localizá-lo. O próprio Boris atendeu. Você não é um senhor de Recife que me escreveu outro dia? Não, não era eu. Desfeito esse mal-entendido, conversamos sobre Maiakóvski. O professor lamentou que a discussão no Brasil em torno do poeta russo acabasse por vezes privilegiando a vida pessoal em prejuízo do literário, da obra.

Vá até a Livraria Russa na Galeria X, na Barão de Itapetininga. Lá procure por Ludmilla. Peça o curso Y de russo para iniciantes. Ele explicou tudo perfeitamente, naquele sotaque carregado de erres.Tomei nota e sai para procurar a tal galeria. 

Helena pediu uma pausa e deixou a sala. Eu precisei conferir uma informação. Talvez eu a encontrasse no livro do professor Boris e dos irmãos Campos. Localizei o livro e pude examiná-lo tanto tempo depois. Sua capa está amarelada, assim como suas páginas. Dentro, separando o livro em duas metades, encontro um texto escrito à mão que eu havia produzido em setembro de 1986. Uma ficção em torno da história de Maiakóvski. O papel utilizado foi uma folha de caderno escolar com pautas e está dobrado em quatro partes. Eu enchi um lado inteiro mais metade com uma letra de forma um tanto achatada, um tanto miúda, porém legível. Reli esse texto com um sentimento de auto-indulgência, sem escarnecer o tom naïve que eu manifestei à época; respeitei, porém, o interesse legítimo pela biografia de Maiakóvski. Comuniquei a Helena o meu achado. Leia para mim, ela pediu, ao voltar para a sala. 

Visita a Maiakóvski

“Camarada Maiakóvski, venho de terras longínquas e sou um admirador de sua poesia.”

Impossível pronunciar uma frase tão longa em língua russa. Para ser sincero, não sei dar um espirro em russo. O diabo é que eu estava ali na Moscou dos anos 30 e não podia deixar passar a oportunidade. Precisava conhecer o poeta revolucionário.  A saída foi utilizar-me do pouco conhecimento em inglês e arranjar um intérprete. Eis aí. Então vou eu direto à Travessa Lubianka com o meu intérprete. Sem muita dificuldade localizamos o refúgio do poeta. Um prédio velho, corredores escuros e afinal a figura taciturna do poeta à nossa frente. Trocaram duas ou três palavras e me pareceu que eu estava sendo apresentado, pois o poeta esboçou um sorriso e fez um gesto nos convidando a entrar. Um compartimento exíguo, exatamente como dizem os livros. Estávamos a 13 de abril de 1930 e eu sabia com certeza o que aquele personagem ímpar faria no dia seguinte à noite. “Incompreensível às massas”, não foi assim que a cultura oficial da época rotulou sua poesia? Então dei início à conversação por aí. “Camarada Maiakóvski, compreendo perfeitamente sua obra”. Um leve halo de surpresa surgiu no rosto sério e carregado do poeta. Ele me perguntou: “Você é mexicano?” (O poeta havia visitado o México anos antes, e eu tinha toda a aparência dum latino, daí a tentativa de identificação do poeta). “Não, disse eu, sou daquele país chamado Brasil. Te lembras? Você disse num de seus versos: Parece que/no Brasil/existe um homem feliz”. Não poderia dizer ao poeta que aquele talvez havia sido o maior equívoco dos seus 37 anos. Mas eu estava ali para evitar o inevitável do dia seguinte. Após horas de conversação, percebi que o meu intérprete já mostrava sinais de cansaço, e o poeta, embora todo ouvidos, parecia estar a quilômetros de distância. Desisti do meu intento e, antes de deixar o poeta, fui agraciado com um de seus livros com a seguinte dedicatória: “Para um homem feliz do Brasil”. Trazia comigo talvez o melhor souvenir daquela Moscou agitada dos anos 30, mas sabia que aquele gigante que acabava de fechar atenciosamente a porta após nossa despedida era o maior patrimônio vivo da cultura russa do seu tempo. Pensei em retornar e convidá-lo para conhecer o quente litoral nordestino. Talvez aquilo lhe injetasse sangue nas veias, esperança no coração, como ele tanto queria. Mas algo me dizia que era tarde. Tarde. Perambulei ainda mais um dia naquela cidade tão rica em acontecimentos e no dia seguinte à minha partida percebi um estranho silêncio se acercando das pessoas, e uma nuvem de tristeza pairava sobre a capital soviética. Rápido tratei de comprar a edição diária do Pravda e então pude entender que Maiakóvski tinha morrido.

Você não vai fazer dar uma copidescada nisso aí? Helena foi falando enquanto o corpo dela vibrava num acesso de riso. Uma novela das oito perde de braçada em termos de melodrama e atmosfera dramática, ela provocou.

Não é o texto que é dramático, retruquei, era a condição de Maiakóvski e de todos os artistas que se negavam ao genuflexório stalinista. Eram tempos dramáticos. Ele não foi o único a naufragar. Outros se foderam, antes e depois dele. Béria não era brinquedo.

Sei.

Hoje o mercado é o grande regulador da arte, é ele que direciona as antenas, é ele quem diz quem morre ou sobrevive. Mas na Rússia era Stalin, era o socialismo real.

Tá. Então você foi correndo procurar a Ludmilla lá no centro de São Paulo.

É, eu percorri um sem-número de pequenas galerias, um labirinto que eu explorei como se estivesse indo para as estepes russas. De repente eu estava diante de uma porta estreita encimada pelo nome da tal livraria russa. Uma mulher atarracada e rosto avermelhado estava sentada atrás de uma mesa ampla de madeira. Havia um corredor estreito que era preciso percorrer para chegar até ela. Dos dois lados, estantes repletas de livros que atingiam o teto.

A mulher era Ludmilla, vestida da cabeça aos pés como uma dessas russas que a gente costuma ver em enciclopédias. No momento em que cheguei, ela conversava em russo com um sujeito alto trajando uma capa sobre um paletó, a própria imagem de um espião da KGB. Calaram-se quando me viram. O grandalhão foi embora. Eu senti um certo temor, como se estivesse profanando um território proibido. Ludmilla abriu um pequeno sorriso, o que me deixou à vontade. Mencionei então o professor e o curso de russo. Sobre a mesa, muitos livros empilhados com suas capas cobertas por palavras no alfabeto cirílico.

Ludmilla não demorou em localizar o tal curso. Uma caixa com dois livros e pequenos LPs coloridos e bastante finos. Não era caro. Fiz o cheque, paguei e puxei conversa. Lá do fundo da loja surgiu uma mulher muito velha e magra. Quando ela soube do meu interesse em estudar russo, ofereceu-se para me ensinar. Se eu aceitasse, teria de viajar até o interior onde ela morava. Explique a ela que não morava em São Paulo, e tudo se resolveu.

Passei então a falar sobre literatura. Russa, naturalmente. A mulher mais velha mostrou-me uma antologia de Puchkin, em russo, naturalmente. Eu era leitor de Maiakóvski, e a poesia russa moderna, segundo eu havia lido, passava muito longe de Puchkin.

Para mim, era natural que se falasse de Maiakóvski como referência da poesia russa, mas eu devia saber que a Rússia tinha seus cânones. Maiakóvski era um revolucionário, que enfrentou opositores poderosos em seu tempo.

Foi o que eu aprendi ao incluir o nome de Maiakóvski naquela conversa. As duas mulheres ficaram em silêncio. Senti que cruzara uma linha, e a partir daquele momento era declarado persona non grata. O poeta revolucionário permanecia um tabu mesmo decorridos 50 anos de sua morte.

E você estudou o curso?, Helena perguntou.

Não, eu jamais utilizei aqueles disquinhos coloridos como a roupa de Ludmilla.

E o que fez com eles?

Sei lá. Estão guardados por aí, em algum baú da memória. E agora conte-me seu encontro com Charles Darwin. Mas por favor não vá inventar demais.