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ficção Minha lembrança de Maiakóvsky Memória e invenção sobre o poeta russo Por Paulo Lima
Uma biografia de Maiakóvski, nova, desconhecida. Maiakóvski, o poeta da revolução, de Aleksandr Mikhailov. Editora Record, respeitáveis 560 páginas. Por acaso eu a descubro numa dessas minhas intermináveis investidas pelas livrarias. Se eu tivesse 20 anos, seria tomado por um inevitável impulso de abrir o livro e comprá-lo sem nem mesmo me dar o trabalho de percorrê-lo. Vladimir Maiakóvski, minha grife poética dos anos 80. Herói do cubo-futurismo russo, que líamos nas escassas edições brasileiras em tradução dos irmãos poetas Augusto e Haroldo de Campos, e do professor Boris Schnaiderman. Mas hoje, um quase irremediável cinqüentão, me esvaziei daquela poesia hiperbólica e marcada por um lirismo dramático. Mudei eu, sem dúvida. O leitor é móbile. Mesmo assim, como se num gesto de respeito à memória do poeta, avanço num ritmo indolente as páginas do livro de Aleksandr Mikhailov, rememoro informações há muito esquecidas, me detenho nas fotografias. Maiakovski e sua adorada Lília Brik. Maiakóvski e sua figura carrancuda diante da exposição que comemorou seu jubileu de atividades poéticas. Maiakóvski e suas leituras públicas. Maiakóvski rodeado por jovens admiradores. Maiakóvski e sua tenra infância, quando ele sequer desconfiava do futuro no futuro. Salto vários capítulos, vou para o final. Nele Mikhailov narra o dia de Maiakóvski anterior ao suicídio do poeta, e levanta algumas hipóteses para o seu ato final. Numa delas, a KGB teria visitado o poeta e o ameaçado. Foi a gota d´água para o gigante já fragilizado. Devolvo o livro de volta à estante como quem deposita uma última flor para Maiakóvski. Em casa, mais tarde, falo da biografia pra Helena. Minha mulher ouve um tanto ausente, enquanto se dedica a um de seus intermináveis relatórios de trabalho. Esse inesperado reencontro com Maiakóvski me trouxe à memória um episódio dos anos 80, quando eu tinha 20 anos, quando essa é uma idade em que os sentimentos parecem inescrutáveis e intransponíveis, quando o mundo todo é o palco de uma aventura em moto contínuo, quando um grande poema era um bálsamo, especialmente se esse poema vinha de Maiakóvski. Helena conhece bem o seu parceiro, ela sabe que não vou deixá-la em paz até que ela me permita alugar seu ouvido mais uma vez. Ela sabe que jornalistas adoram se derramar numa história. Eles simplesmente acusam o golpe, seus egos murcham e desaparecem, se condenados a um silêncio forçado ou involuntário. Por isso não foi surpresa quando ela, misturando resignação com impaciência, propôs: ok, você conta seu encontro com Maiakóóóóvski, mas em troca me deixa contar meu encontro com Charles Darwin. Tá? Apesar do tom irônico, fazia sentido. Darwin ocupa um lugar de honra em sua biblioteca de evolucionista fervorosa e ambientalista devota. Tá, combinado. Então, agora conta. Conto eu. Naquele ano eu viajei a São Paulo. Férias da universidade, mundo grande, solteirice e uma puta fome de tudo. 1980, por assim dizer, foi o meu ano-Rússia. Eu me alimentava de esquerdismo barato contra o establishment americano, poesia russa, literatura underground e filósofos mal-digeridos: tudo se misturava, meu liquidificador trabalhava à plena potência para entender o dasein, o estar-aí, o engagement, Sartre & Cia., a liberdade, o materialismo histórico. Numa palavra: porralouquice total disfarçada de inteligentsia. São Paulo day and night, estou na cidade, caminhos que se abrem em infinitas direções. Lembro duma livrariazinha ali pelas bandas do Centro Cultural São Paulo. A mocinha em silêncio atrás do balcão. Radiografei o lugar, aí bati o olho num cartaz de Maiakóvski, uma foto de quando ele foi preso pela primeira vez pela KGB. Propus negócio à mocinha. Ela disse que não estava à venda, e eu tenho certeza que ela não venderia aquele cartaz por dinheiro nenhum. Mas não saí de mãos vazias. Comprei o livro Maiakóvski, primeira tradução dos poemas de Maiakóvski realizadas diretamente dos originais russos. Os irmãos Campos e o professor Boris Schnaiderman foram os responsáveis pela façanha. Naquela noite me enfurnei no hotel e desandei a ler o poeta. No dia seguinte peguei o catálogo telefônico e procurei o nome do professor Boris. Meu objetivo era falar do livro e pedir uma sugestão de um curso de russo para iniciantes. Não foi difícil localizá-lo. O próprio Boris atendeu. Você não é um senhor de Recife que me escreveu outro dia? Não, não era eu. Desfeito esse mal-entendido, conversamos sobre Maiakóvski. O professor lamentou que a discussão no Brasil em torno do poeta russo acabasse por vezes privilegiando a vida pessoal em prejuízo do literário, da obra. Vá até a Livraria Russa na Galeria X, na Barão de Itapetininga. Lá procure por Ludmilla. Peça o curso Y de russo para iniciantes. Ele explicou tudo perfeitamente, naquele sotaque carregado de erres.Tomei nota e sai para procurar a tal galeria. Helena pediu uma pausa e deixou a sala. Eu precisei conferir uma informação. Talvez eu a encontrasse no livro do professor Boris e dos irmãos Campos. Localizei o livro e pude examiná-lo tanto tempo depois. Sua capa está amarelada, assim como suas páginas. Dentro, separando o livro em duas metades, encontro um texto escrito à mão que eu havia produzido em setembro de 1986. Uma ficção em torno da história de Maiakóvski. O papel utilizado foi uma folha de caderno escolar com pautas e está dobrado em quatro partes. Eu enchi um lado inteiro mais metade com uma letra de forma um tanto achatada, um tanto miúda, porém legível. Reli esse texto com um sentimento de auto-indulgência, sem escarnecer o tom naïve que eu manifestei à época; respeitei, porém, o interesse legítimo pela biografia de Maiakóvski. Comuniquei a Helena o meu achado. Leia para mim, ela pediu, ao voltar para a sala. Visita a Maiakóvski “Camarada Maiakóvski, venho de terras longínquas e sou um admirador de sua poesia.”
Impossível pronunciar uma frase tão longa em língua russa. Para ser sincero,
não sei dar um espirro
Você não vai fazer dar uma copidescada nisso aí? Helena foi falando enquanto o corpo dela vibrava num acesso de riso. Uma novela das oito perde de braçada em termos de melodrama e atmosfera dramática, ela provocou. Não é o texto que é dramático, retruquei, era a condição de Maiakóvski e de todos os artistas que se negavam ao genuflexório stalinista. Eram tempos dramáticos. Ele não foi o único a naufragar. Outros se foderam, antes e depois dele. Béria não era brinquedo. Sei. Hoje o mercado é o grande regulador da arte, é ele que direciona as antenas, é ele quem diz quem morre ou sobrevive. Mas na Rússia era Stalin, era o socialismo real. Tá. Então você foi correndo procurar a Ludmilla lá no centro de São Paulo. É, eu percorri um sem-número de pequenas galerias, um labirinto que eu explorei como se estivesse indo para as estepes russas. De repente eu estava diante de uma porta estreita encimada pelo nome da tal livraria russa. Uma mulher atarracada e rosto avermelhado estava sentada atrás de uma mesa ampla de madeira. Havia um corredor estreito que era preciso percorrer para chegar até ela. Dos dois lados, estantes repletas de livros que atingiam o teto.
A mulher
era Ludmilla, vestida da cabeça aos pés como uma dessas russas que a gente
costuma ver
Ludmilla
não demorou em localizar o tal curso. Uma caixa com dois livros e pequenos
LPs coloridos e bastante finos. Não era caro. Fiz o cheque, paguei e puxei
conversa. Lá do fundo da loja surgiu uma mulher muito velha e magra. Quando
ela soube do meu interesse em estudar russo, ofereceu-se para me ensinar. Se
eu aceitasse, teria de viajar até o interior onde ela morava. Explique a ela
que não morava
Passei então a falar sobre literatura. Russa, naturalmente. A mulher mais velha mostrou-me uma antologia de Puchkin, em russo, naturalmente. Eu era leitor de Maiakóvski, e a poesia russa moderna, segundo eu havia lido, passava muito longe de Puchkin. Para mim, era natural que se falasse de Maiakóvski como referência da poesia russa, mas eu devia saber que a Rússia tinha seus cânones. Maiakóvski era um revolucionário, que enfrentou opositores poderosos em seu tempo.
Foi o
que eu aprendi ao incluir o nome de Maiakóvski naquela conversa. As duas
mulheres ficaram
E você estudou o curso?, Helena perguntou. Não, eu jamais utilizei aqueles disquinhos coloridos como a roupa de Ludmilla. E o que fez com eles? Sei lá. Estão guardados por aí, em algum baú da memória. E agora conte-me seu encontro com Charles Darwin. Mas por favor não vá inventar demais. |