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livros Nos labirintos da Camorra Um retrato implacável do submundo italiano Por Paulo Lima
A realidade é mais surpreendente do que qualquer ficção. A investigação que o jornalista italiano Roberto Saviano realizou sobre a Camorra, a famosa máfia napolitana, em seu livro Gomorra - só agora publicado no Brasil pela Editora Bertrand, já foi traduzido para 33 idiomas, vendeu mais de 2 milhões de exemplares e foi transformado em filme homônimo -, faz épicos hollywoodianos, como "O poderoso chefão", parecer história da carochinha. Se o filme dirigido por Francis Ford Coppola - e todas as produções cinematográficas posteriores sobre o tema - contribuiu para amalgamar a imagem de um Don Corleone como o símbolo máximo do poder mafioso, e o sul da Itália o local onde os cappi mandam e desmandam, Roberto Saviano põe as coisas em seu devido lugar. A Camorra napolitana é hoje um poder globalizado que lança seus tentáculos por diversos países, incluindo o Brasil. E os negócios são administrados com altos padrões de eficiência, como numa grande corporação. O típico boss, o chefão mafioso, é hoje um gerente, cruel e sanguinário, para quem um único objetivo importa: o sucesso de sua empresa, o lucro exponencial. E ao contrário dos grandes chefes mafiosos do passado, como Sam Giancana e Al Capone, que levaram uma vida de ostentação e glamour, o boss moderno mantém distância dos holofotes midiáticos. Comandam suas negociações milionárias, cometem assassinatos, governam vidas de comunidades inteiras sob a mais discreta surdina, quase como se não existissem. "A lógica do empreendimento criminoso, a mentalidade dos boss coincide com o mais extremo neoliberalismo. As regras ditadas, as regras impostas, são as do mercado, do lucro, da vitória sobre todo concorrente. O resto é o zero, não vale nada. O resto não existe". Dessa forma Roberto Saviano explica a filosofia dos boss da Camorra. Nessa engrenagem, pessoas são descartadas como se fossem uma peça defeituosa, liquidadas como quem se liquida uma fatura ou uma nota fiscal. No segundo capítulo do livro, Roberto Saviano descreve a guerra entre dois grupos dissidentes dentro da Camorra. Os ritos dos assassinatos nos lembram as narrativas dos crimes cometidos por facções nas favelas cariocas. Corpos carbonizados. Decapitados. Esquartejados. Homens. Mulheres. Crianças. Porque pobreza e criminalidade guardam semelhanças em qualquer lugar, seja em Nápoles, Rio de Janeiro ou Bogotá. A banalidade do mal. Na região da Campânia, na periferia de Nápoles, em Secondigliano, a falta de oportunidades, a inação do Estado, os apelos de ganhos fáceis e ascensão na hierarquia da Camorra atraem jovens a partir de 12 anos. Aos olhos da opinião pública italiana, tudo que acontece em Secondigliano não passa de uma "guerra de gangues", de uma "guerra entre maltrapilhos", um "gueto da Europa", em suma. Mas a realidade é outra: ali está um dos "pilares da economia", "uma mina escondida", conforme relata Roberto Saviano. A Camorra não ganha apenas com o narcrotráfico, outra associação obsoleta que se faz da máfia com seus negócios ilícitos, embora os ganhos sejam astronômicos - um comprimido de ecstasy é produzido por um euro na região da Campânia, reduto da Camorra, e revendido nos mercados de Milão e Roma a 50 ou 60 euros. Na verdade, os boss atuam em várias frentes, desde o pequeno supermercado até o mundo da alta costura. As matérias-primas têm origem na China e entram na Itália pelo porto de Nápoles. Sua dinâmica é descrita por Roberto Saviano no primeiro capítulo do livro: "Quando vou ao embarcadouro Bausan, tenho a impressão de estar vendo por onde passam todas as mercadorias produzidas pela espécie humana. Onde passam a última noite antes de serem vendidas. Como se eu estivesse vendo a origem do mundo". Gomorra narra com crueza e riqueza literária uma realidade além da imaginação, uma espécie de quinto círculo do inferno de Dante. No fundo, é uma investigação primorosa sobre a verdadeira globalização, que submete, criminaliza, destrói e mata. A descrição que Roberto Saviano faz do trânsito obscuro que as mercadorias fazem pelo planeta, até chegarem ao consumidor final, é brilhante: "Os produtos têm cidadanias múltiplas, híbridas e bastardas. Começam nascendo pela metade no centro da China, depois são completadas em alguma periferia eslava, aperfeiçoado no nordeste da Itália, confeccionados em Puglia ou ao norte de Tirana, para depois terminarem em quem sabe qual loja da Europa. A mercadoria tem o passe livre que nenhum ser humano jamais terá. Todos os acessos de uma estrada, os percursos acidentais e oficiais têm paragem certa em Nápoles". Roberto Saviano nasceu em Nápoles, em 1979. Conviveu diretamente com o objeto de sua reportagem. Desde criança testemunhou centenas de assassinatos promovidos pela Camorra. Sabe do que fala. Para entender melhor a Camorra, infiltrou-se, correu risco de vida. "Não acredito que haja outra maneira de entender as coisas. A neutralidade e a distância objetiva são coisas que eu nunca consegui encontrar", ele escreveu. Hoje Roberto Saviano, que tem 28 anos, vive escondido na Itália, mas já planeja deixar o país. Por causa do seu livro, a Camorra decretou-lhe uma vendetta, uma sentença de morte. O estado italiano presta-lhe proteção 24 horas por dia. Ele é permanentemente escoltado por seis seguranças. A uma entrevista concedida ao jornal La Nación, ele afirmou não ter medo. "Na prática, já me mataram, porque me retiraram tudo, a liberdade". A analogia com o escritor Salman Rushdie foi imediata, tão logo vieram à tona as ameaças, há dois anos. Rushdie tem vivido os últimos 20 anos sob uma fatwa decretada pelo Aiatolá Khomeini, por causa do seu livro Os versos satânicos. Primeiro livro de Roberto Saviano, Gomorra já pode ser incluído na galeria das grandes reportagens literárias de todos os tempos. Originalmente publicado na Revista Plurale. |