|
|
|
|
|
livros O tigre de Bangalore Romance ironiza neoliberalismo na Índia Por Paulo Lima
A Índia já não ocupa o imaginário ocidental apenas por sua tradição milenar, seu exotismo e sua pobreza endêmica. O país tem produzido milionários a rodo, alta tecnologia e novos empregos numa era sem empregos. A palavra de ordem é gerar riqueza. E o subcontinente indiano reúne as condições para que essa transformação ocorra com rapidez: mão-de-obra qualificada a baixo custo, que fala inglês e que ganha apenas uma fração do que recebem trabalhadores americanos e europeus no mesmo nível. O epicentro dessa riqueza está nas grandes cidades como Bangalore e Nova Déli, que é para onde se dirigem todos os indianos que querem melhorar de vida. É nesse cenário de profundos contrastes que se move Balram Halwai, personagem principal do romance O tigre branco (Editora Nova Fronteira), livro de estréia do jornalista indiano Aravind Adiga. O livro conquistou o Man Booker Prize de 2008, o mais importante prêmio literário da Grã-Bretanha. Nascido em Madras, em 1974, Aravind Adiga foi correspondente da revista Time e escreveu para diversas publicações dos Estados Unidos e da Inglaterra. Graças ao seu trabalho, pôde circular por várias regiões do subcontinente indiano, tomando conhecimento das situações exploradas em seu romance. O tigre branco é uma sátira ácida e politicamente incorreta da Índia atual, com seus pontos de luz e seus abismos. O livro é estruturado de uma forma epistolar. Nele, Balram Halwai, um bem-sucedido empresário de Bangalore, escreve uma longa carta ao primeiro-ministro chinês Wen Jiabao, que está prestes a visitar a Índia. O título do livro se refere ao fato de Balram Halwai - vivendo na zona rural às margens do rio Ganges - ser uma criança com inteligência acima da média dos seus colegas, uma qualidade que logo é reconhecida por um diretor em visita à escola, comparando Balram a um tigre branco, um animal raro na Índia. A comparação serve de impulso a Balram, que tenta fugir da miséria em que vive com a família. Ele deixa a Escuridão e vai tentar a sorte na Luz. É por meio dessa divisão simbólica, dessas duas Índias, que Balram apreende sua condição social e a realidade brutal da sociedade indiana. Ao chegar à Luz, Balram consegue trabalho como motorista particular de Mr. Ashok, um indiano rico que o acolhe. Casado com a americana Pinky Madam, Mr. Ashok é o mais novo dos irmãos de uma família de empresários corruptos. Vivendo na Luz e convivendo com Mr. Ashok e sua família, Balram irá desenvolver uma consciência de sua própria fragilidade, que no fundo é a fragilidade da maioria dos indianos que habitam a Escuridão. Aravind Adiga compõe uma espécie de herói picaresco que debocha de tudo e de todos. Com seu patrão Mr. Ashok, Balram acaba desenvolvendo uma relação de admiração e raiva surda. Mas essa convivência terá um trágico desfecho que mudará o rumo da vida de Balram. Em O tigre branco, Aravind Adiga não esconde uma proverbial simpatia pelos pobres e ofendidos da Índia. O próprio Aravind Adiga critica a ideia de ascensão social tão apregoada pelas cartilhas de autoajuda do neoliberalismo; a facilidade com que alguém pode se tornar um self made man, um empresário de sucesso. “Com minha formação de jornalista na área de Economia”, disse ele numa entrevista, “me dei conta de que a maior parte do que se escreve nas revistas de negócios é bobagem, não levo esse tipo de literatura a sério”. Segundo ele, “a Índia tem sido inundada por livros do tipo como se tornar um empresário da internet, e eles são assustadoramente honestos em suas promessas de transformar você num Iacocca em uma semana”. Aravind Adiga sabe que a realidade é mais complicada. “Há muitos milionários na Índia que venceram com seus esforços, e muitos empresários de sucesso. Mas lembre-se que aqui vivem mais de um bilhão de pessoas, e, para a maioria dessas pessoas, a quem são negadas saúde, educação e emprego, chegar ao topo implica fazer o mesmo que fez Balram”. E o que fez Balram Halwai? Assassinou seu patrão Mr. Ashok e roubou-lhe uma pequena fortuna, com a qual abriu um negócio e se tornou um empresário de sucesso em Bangalore. É essa trajetória da Escuridão à Luz que Balram conta em sua longa carta ao primeiro-ministro chinês, deixando no ar um alerta cheio de escárnio: “O futuro do mundo está nas mãos dos homens de pele amarela e marrom, agora que o nosso antigo amo, o homem branco, se perdeu completamente em meio à sodomia, ao uso dos telefones celulares e ao abuso de drogas” Aravind Adiga deixou claro numa entrevista que O tigre branco não deve ser lido como uma visão alternativa sobre a Índia atual, mas como entretenimento, apesar das pinceladas naturalistas do romance, especialmente das descrições da miséria. Mas ainda que a gente se emocione com a condição sub-humana mostrada no livro, é impossível não nos divertir com seu humor corrosivo, tal é a força dessa Índia de Balram Halwai. Originalmente publicado na Revista Plurale. |