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livros Na América profunda Um viagem em busca do país de Obama Por Paulo Lima
Em agosto de 2008, o repórter Rodrigo Alvarez e o cinegrafista Sérgio Telles viajaram durante 17 dias por 18 estados americanos. O objetivo era realizar uma série de reportagens mostrando como viviam e o que pensavam os americanos, às vésperas das eleições que consagrariam Barack Obama como o primeiro presidente negro na história dos Estados Unidos. A série Americanos foi ao ar no Jornal Nacional, e acabou revelando personagens e lugares surpreendentes, ora confirmando clichês sobre a vida americana, ora desmentindo-os. Quem não assistiu à jornada da dupla Alvarez-Telles pelas estradas da América na TV pode ler agora a versão escrita da reportagem no livro No país de Obama, que Rodrigo Alvarez, apresentador do programa Mundo S/A, da Globo News, acaba de lançar pela Editora Nova Fronteira. No melhor estilo pé na estrada, repórter e cinegrafista se aboletaram numa picape e saíram em busca da “alma americana”. No livro, Rodrigo Alvarez explica o propósito da pauta: “Não marcar entrevistas, fazer apenas um roteiro de viagem e ser levados pelo que acontecesse no caminho”. A viagem começa pelo Velho Oeste, em meio a paisagens cinematográficas. “Ultrapassamos falcões e corremos lado a lado com os alces na beira da estrada. Depois, o Grand Canyon e uma outra meia dúzia de cânions igualmente grandes e impressionantes”, relata Rodrigo Alvarez. A aventura prossegue. “Cortamos dúzias de cidades margeadas pelas Montanhas Rochosas, no Meio-Oeste americano, e ali paramos para filmar os carneiros monteses comendo o pasto que brotava entre as rochas vermelhas”. Não demorou para que a dupla encontrasse seus primeiros personagens. E que personagens! George e Edsel eram dois andarilhos viajando de cidade em cidade à procura de emprego. Rodrigo Alvarez deu-lhes carona, registrou sua história e é aí que a América profunda começa de fato a dar as caras. “Não tem trabalho... não tem! Você sabe o que eu estou dizendo?”, reclama George. Naquele momento, com o fenômeno Obama despontando no horizonte ainda como uma promessa, o que restava de concreto eram os baixíssimos níveis de popularidade de Bush e a bancarrota da economia mais poderosa do planeta. “A dupla de andarilhos era a estatística esmigalhada na beira da estrada”, escreveu Rodrigo Alvarez. A narrativa é pontuada por estatísticas e informações sobre os hábitos culturais dos americanos. Muitos desses hábitos são reconhecidos no contato direto de Rodrigo Alvarez com seus entrevistados. Um dos capítulos do livro trata da visita da dupla Alvarez-Telles ao Cinturão da Bíblia, que envolve estados do Sul como o Alabama e o Mississippi. A combinação de orientação política e religiosa forma o maniqueísmo americano. Peggy Harmon é uma dessas americanas para quem a religião determina as escolhas. Dona de uma igreja, ela é instigada por Rodrigo Alvarez a revelar sua opinião sobre o próximo presidente americano. “Temos que perguntar a Deus!... Temos que falar com Deus”, disse Peggy. “Quando você atravessa os Estados Unidos, começa a descobrir como as ideologias estão enraizadas na vida dos Americanos”, escreve Rodrigo Alvarez. Foi em Provo, uma cidadezinha no estado de Wyoming, que Rodrigo encontrou o paroxismo desse enraizamento. Lá o governo Bush ainda gozava de forte aprovação, mesmo perto do fim do mandato. É uma cidade orgulhosa de ser uma das mais brancas dos Estados Unidos, e oito entre dez de seus habitantes são republicanos. Isaac, um rapaz de 18 anos, fornece a evidência de que, por lá, uma vez republicano, sempre republicano. “Armas são uma coisa natural pra mim”, ele disse a Rodrigo Alvarez. Num dos capítulos mais dramáticos do livro, Rodrigo Alvarez descreve a decadência de Detroit, a motown, a cidade-motor que já foi a meca da indústria automobilística nos Estados Unidos e hoje está entregue ao abandono. O centro financeiro da cidade, antes pulsante, virou “residência de pobres, mendigos e ratos”. Uma nova dinâmica se estabeleceu nos arredores de Detroit, em novos bairros formados por executivos das áreas administrativas das empresas de automóveis. Mas enquanto Detroit agoniza, outra cidade surge nos Estados Unidos, marcando assim o ciclo de morte e renascimento típico do capitalismo. A dupla Alvarez-Telles descobriu Pinedale, um lugarejo perdido nos confins do Wyoming, um estado com um amplo território, mas com população pequena – apenas meio milhão de habitantes. Descobriram navegando pelo Google Earth. Pinedale é um oásis de excelência em meio ao atual cenário de angústia e incertezas da economia americana. É um lugar pequeno e destituído de qualquer charme. Apenas uma rua pode ser considerada avenida. E à noite apenas dois tipos de anúncios podem ser vistos, de saloons e restaurantes. Por ali a fonte da grana são as plataformas de gás natural. Ao roteiro pé na estrada não poderia faltar uma visita a Chicago. Rodrigo Alvarez constatou que a cidade que já fora de Batman e Al Capone agora era de Obama. Havia uma energia positiva no ar, e um otimismo nas pessoas com quem ele conversou, ao se deslocar pela cidade. Três mulheres brancas, de diferentes origens, que escolheram Chicago para morar, se mostraram totalmente pró-Obama. “Multirracial”, “Um cara que valoriza a família”, se desmancharam em elogios. Não haveria de faltar uma visita à casa de Obama, que Rodrigo conseguiu localizar depois de muitas andanças: “Um casarão de um milhão e meio de dólares”. Como bom repórter, Rodrigo Alvarez não dá respostas. O mais próximo que chega de uma conclusão é quando visita Nova Orleans e se depara com uma cidade ainda se recuperando da tragédia do Katrina. Ali, sentado num banquinho de ferro diante de um músico de jazz, ele anotou: “Tive certeza de que a angústia do americano de São Francisco era muito parecida com a que atormentava o americano de Nova Orleans”. São oito anos do governo Bush, duas guerras e um cenário de incertezas. A unidade, a suposta alma americana, talvez possa ser encontrada nessa angústia diante do futuro. Mas nisso os americanos não estão sozinhos. *** Um resumo da reportagem de Rodrigo Alvarez pode ser vista no site da Globo News clicando aqui. Originalmente publicado na Revista Plurale. |