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livros O falso Camelot Livro revela detalhes de Marilyn Monroe e JFK
Por Paulo Lima
John Fitzgerald Kennedy era um mulherengo, e Marilyn Monroe foi uma de suas inúmeras amantes. JFK foi assassinado numa rua de Dallas, em 1963, no auge da sua popularidade, e Marilyn cometeu suicídio um ano antes em Los Angeles. Muito se escreveu sobre o relacionamento dos dois, ou sobre JFK ou Marilyn isoladamente. Mas, segundo François Forestier, crítico de cinema da revista Nouvel Observateur, romancista e biógrafo, essa “é uma história que todo mundo conhece, mas ninguém conhece”. Forestier tomou para si a missão de passar a limpo um affair famoso e turbulento do século XX no livro Marilyn e JFK, recém-lançado no Brasil pela Editora Objetiva. Forestier produziu uma narrativa em ritmo de thriller e utilizando às vezes recursos de tablóides sensacionalistas que segura o leitor da primeira à última página. Histórias e situações pouco edificantes, típicas das piores revistas de fofocas, não lhe faltaram. Afinal, Forestier se debruçou sobre os agitados anos da Era Kennedy e suas intermináveis intrigas políticas e amorosas, como se fosse um filme noir repleto de traições, crimes, negociatas, máfia, álcool e sexo, muito sexo. Na história de Marilyn e JFK, porém, como se pode esperar de um filme noir, não existem heróis. Partindo de ampla pesquisa bibliográfica e entrevistas com personagens daquela época, Forestier produziu o que se pode chamar de um romance-reportagem em que, um após outro, os personagens vão tombando vítimas de suas ambições. O livro abre com a descrição do assassinato de JFK. É como se pudéssemos acompanhar o desenrolar dos acontecimentos desde o instante em que Kennedy foi alvejado até ser declarado oficialmente morto no Parkland Hospital, em Dallas. Assim que fica sabendo da morte do irmão, Robert Kennedy determina que os arquivos e pertences de JFK sejam constantemente vigiados e que se desmonte o sistema de gravação instalado em locais estratégicos da Casa Branca. Era o fim de Camelot, nome atribuído por Jackie Kennedy ao marido, numa alusão à corte do Rei Arthur e os cavaleiros da Távola Redonda. Forestier mostra como John Kennedy conquistou a presidência graças às alianças espúrias realizadas por seu pai, Joe Kennedy, que queria ver um filho na presidência a qualquer custo. De origem irlandesa, o patriarca dos Kennedy é retratado com tintas negras no livro. Durante a Segunda Guerra Mundial, Joe Kennedy foi despachado por Roosevelt para servir como embaixador na Inglaterra. Era a forma que Roosevelt encontrou para se livrar de um tipo incômodo. Em Londres, Joe Kennedy fez negócios com os alemães. Aprontou tanto que acabou sendo destituído do cargo e voltou aos Estados Unidos. Fez fortuna e poder durante a Grande Depressão, lucrando com a Lei Seca, e para eleger o filho presidente realizou alianças com importantes nomes da máfia americana, como Sam Giancana e Santo Trafficante. Em seu currículo de mulherengo, característica que transmitiria aos filhos, Joe Kennedy ostentou conquistas como a atriz Glória Swanson, de quem foi produtor e a quem costumava explorar. A história de Marilyn Monroe aparece lá pelo segundo capítulo do livro. Todos sabem que ela nasceu Norma Jean Baker e teve uma infância difícil. A mãe, Gladys Baker, tentara se suicidar duas vezes, e passou anos num hospital psiquiátrico, o mesmo em que morreu a avó de Marilyn, que acabou sendo criada de lar em lar. Acaba se casando aos 16 anos com Jim Dougherty, um marinheiro que por causa da guerra passava longas temporadas distante de casa. Se somaria ao currículo de Marilyn um casamento com o ídolo do baseball Joe DiMaggio e com o dramaturgo Arthur Miller. Foi numa festa que ela e Joe DiMaggio deram para convidados que o caminho de Marilyn se cruzou com o de John Kennedy. Rápido na conquista, JFK pôs o olho na loira platinada e saiu de lá com um número de telefone. Foi uma relação com idas e vindas, para sofrimento de Joe DiMaggio, que nunca esqueceu a ex-mulher e talvez tenha sido o único homem a amá-la de verdade. Quando estavam juntos, Marilyn e JFK curtiam-se com intensidade. Forestier escreveu: “O Presidente a vê com mais freqüência do que à esposa”. Jackie Kennedy também sofria com essas e outras escapadelas de JFK, a ponto de ir se queixar para Joe Kennedy. Mas de nada adiantou. Ela acabou se moldando às infidelidades do marido, passando longas temporadas na Itália com os filhos ou em outro lugar distante dos excessos da Casa Branca. Desde o início JFK e Jackie mantiveram um casamento de fachada. O casamento fora arranjado por quem? Por Joe Kennedy, claro, puramente para catapultar a ascensão do filho. Marilyn sempre alimentou o sonho de tornar-se um dia a First Lady. Forestier sublinha que o que ela queria não era dinheiro, mas a glória, o direito de ser admirada por todos. Embora vivendo um relacionamento sem amor com Jackie Kennedy, JFK jamais cogitou em se divorciar, pois isso decretaria o fim de sua carreira política. Para JFK importava um único objetivo: transar com o máximo de mulheres possível, o que ocorria em qualquer tempo e lugar, inclusive em escapadelas furtivas na própria Casa Branca, durante festas, nas quais Jackie Kennedy estava presente. Na lista podiam entrar atrizes, call-girls, prostitutas, amigas, secretárias e quem mais surgisse no caminho. Perto das estripulias amorosas de JFK, um caso como o de Bill Clinton e a estagiária Monica Levinsky soa como uma aventura banal entre adolescentes. Marilyn Monroe não ficava atrás. Era o que se pode chamar de atleta sexual, mas, segundo revelou ao seu psicanalista Ralph Greenson, ela jamais tivera um orgasmo. Diretores, atores, entregadores – qualquer um podia cair em sua rede de sedução. Os encontros da Vênus platinada com Camelot ocorriam muitas vezes às escondidas. Aqueles eram tempos de Guerra Fria, com a ameaça do comunismo pairando sobre a paz ocidental. Todos estavam de olho em Marilyn: o FBI de J. Edgar Hoover, a CIA e uma ampla constelação de detetives particulares atendendo a diversos interesses, inclusive a Joe DiMaggio, que seguia os passos da ex-esposa. Todos espionavam todos. Para facilitar os encontros secretos – e às vezes não tão secretos – de Marylin e JFK, uma rede de alcoviteiros entrava em ação. O cantor Frank Sinatra, A Voz, era um deles. Sinatra adorava, venerava o presidente. Jackie Kennedy não o suportava, pois desconfiava que ele dividia namoradas com o marido. Peter Lawford, cunhado de JFK, também era responsável por facilitar não apenas os encontros com Marilyn, mas com outras mulheres. O próprio Robert Kennedy, que foi nomeado Ministro da Justiça do governo do irmão, também contribuía para o affair, tendo ele próprio transado com Marilyn. Forestier conta que o estilo de JFK era bateu, levou. Em segundos liquidava o assunto. Herança machista da família Kennedy. A cartilha masculina de Joe Kennedy rezava que mulher tinha de ser tratada como uma Coca-Cola: abria-se rápido, tomava-se rápido e partia-se para outra. JFK jamais se preocupava com o prazer das parceiras. Como Ministro da Justiça de Kennedy, Robert Kennedy empreendeu uma intensa perseguição à máfia, notadamente ao líder sindicalista Jimmy Hoffa. Também levou para as barras do tribunal o mafioso Sam Giancana. Isso lhe custaria a vida. No trato pessoal, no ministério, Forestier nota que Robert Kennedy era uma pessoa grosseira. Ele não tinha o hábito de chamar seus subordinados pelo nome. “Hei, aí! Você!” O interlocutor, um experiente diplomata, olhava ao redor, sem saber se era com ele. “É com você mesmo! Aqui!”, voltava à carga Robert Kennedy. Ralph Greenson, o psicanalista de Marilyn e de várias estrelas de Hollywood, sai bastante chamuscado da narrativa de Forestier. Com Marilyn ele seguia um tratamento nada ortodoxo. Escreveu Forestier: “Ele se tornaria o guardião, o vigia, o conselheiro, o amigo, o confessor, o amante”. Greenson chegou a impor uma acompanhante a Marilyn, Eunice Murray, que atuaria como governanta, chofer, faxineira, administradora e informante dos passos de Marilyn. Em meio a tantos escândalos, há que se perguntar: onde estava a imprensa? Forestier responde: “A vida privada do Presidente, por mais escandalosa que seja, é off”. E assim era. Qualquer tentativa de fazer vir à tona os segredos de caserna de Kennedy era abafada com eficiência pelo pai Joe Kennedy ou por Robert Kennedy, que acabava silenciando a testemunha com dinheiro. Forestier registra que apenas numa ocasião a imprensa se manifestou abertamente contra a vida devassa de JFK. Foi num encontro da Associated Press, no Arizona, onde estavam reunidos os maiores jornalistas americanos para discutir o futuro da imprensa naquele país. O dono do Washington Post, Phil Graham, foi até o palco e abriu o berreiro: “Por que ninguém solta a informação? JFK passa o dia trepando! Não tem um só que diga isso! Vocês não têm colhões! São uns merdas!” Pior para Phil Graham. Foi retirado do recinto, dado como maluco e tempos depois cometeu suicídio. Suicídio que também viria cometer Marilyn, algum tempo após receber um recado de Peter Lawford para que não procurasse mais o presidente. Forestier não endossa a tese de homicídio, prefere acreditar que Marilyn foi vítima de uma overdose de medicamentos, situação que vinha se tornando comum à vida da atriz, após um período de internamento numa clínica psiquiátrica. No fim da vida Marilyn tinha cada vez mais dificuldade em trabalhar e cumprir compromissos, graças a seu estado físico e psíquico. O livro de Forestier pode ser lido como um incrível repertório de segredos de personagens que marcaram uma época, mas pode ser percorrido também como mais um capítulo dos bastidores da política americana no século XX. Originalmente publicado na Revista Plurale. |