|
|
|
|
|
reportagem A festa do século A inauguração do Batistão, há 40 anos, contou com a presença da seleção brasileira tricampeã de futebol
Por Paulo Lima
Era para ser um dia de inverno como outro qualquer, mas havia uma tensão no ar naquele 08 de julho de 1969, como se mil trovões estivessem prestes a anunciar algo fantástico e inacreditável. Às 15:45h, o avião da Varig aterrissou no aeroporto Santa Maria, em Aracaju, fez as manobras de praxe, por fim se aquietou e dele foram saindo um a um os jogadores da seleção brasileira de futebol que, meses depois, se consagraria tricampeã no México. Foi o sinal para que a multidão que entupia o pequeno aeroporto se alvoroçasse. Aos poucos os jogadores iam se aproximando da área de desembarque. Jairzinho, Gerson, Carlos Alberto, Clodoaldo, Félix, Edu, Paulo César... e a maior atração entre todos: Pelé. Era como estar diante de um desfile de estrelas. O assédio dos fãs e da imprensa foi intenso, apesar do forte cordão de isolamento da polícia. O Rei tentava atender a todos. Um grupo de moças pediu para tirar fotos. Pelé deixou-se fotografar de vários ângulos. Sempre com um sorriso, distribuiu autógrafos e apertos de mão. Depois das boas vindas o time de João Saldanha foi despachado para um hotel. À noite os jogadores fizeram o reconhecimento do gramado do estádio Batistão, onde no dia seguinte jogariam contra a seleção de Sergipe. O nome oficial é estádio Lourival Batista. O apelido Batistão é uma homenagem ao governador de Sergipe na época. O estádio nascia como um dos mais modernos do país. Sua inauguração exigiu das autoridades um tour de force que movimentou toda a cidade. Para o evento criou-se uma comissão central – chamada de “comissão resolve tudo” - e várias subcomissões. Só os jornalistas visitantes somavam mais de 300. Não havia hoteis para todos. A solução foi distribuí-los por casas na Atalaia, um bairro praieiro distante do centro. Até mesmo Leônidas da Silva, o “Diamante Negro”, ficou a ver navios. Sem conseguir vaga em hotel, o artilheiro da Copa de 1938 foi salvo pela hospitalidade de pessoas que o reconheceram na rua. A seleção brasileira atraiu torcedores do interior de Sergipe e de estados vizinhos, como Alagoas, Bahia e Pernambuco. Todos os caminhos levavam ao Batistão. Se a estrutura da cidade ficava aquém desse mar de gente, os anfitriões compensavam as limitações com rasgos de amizade. Carlos Magalhães, um radialista de voz tronitruante, deu as boas vindas aos jornalistas forasteiros. “Usem e abusem de Sergipe”. O projeto do Batistão foi concebido em meio aos delírios megalomaníacos da ditadura militar e sua ideologia do “Brasil grande”, e um dos símbolos dessa ideologia foi a construção da rodovia Transamazônica. Em 1969 já estava em vigor o AI-5, e a ditadura escancarara de vez seus métodos de repressão aos inimigos do regime. O pontapé inicial para a construção do estádio foi dado em 1968. Foi necessário demolir o antigo estádio de Aracaju que lhe tomava o lugar. Duzentos operários trabalharam nas etapas iniciais em turnos que iam das 7 da manhã às 6 da tarde. A princípio o estádio teria o formato de uma ferradura, por causa de alguns terrenos invadidos que ocupava uma de suas cabeceiras. Mas o governo interveio e desocupou a área. Hoje a região que abriga o estádio pouco lembra o traçado original. O projeto previa um público de 25 mil pessoas, número que poderia chegar a 30 mil em dias de grandes jogos. Toda essa massa humana seria evacuada em sete minutos. No dia da inauguração esses cálculos se mostraram corretos. Foram necessários apenas 10 minutos para que um público de 40 mil pessoas deixasse o estádio. Outras características fizeram do Batistão uma maravilha da engenharia na época. O campo era à prova de inundações. O gramado, uma perfeição, um verdadeiro “tapete”. Outra inovação era a construção de salas de aula em suas dependências. Embora o plano original previsse a construção de um complexo esportivo com ginásio de esportes e piscina olímpica, o objetivo só foi atingido na gestão do governo que sucedeu Lourival Batista. Apesar do clima de euforia, temia-se um malogro no dia da inauguração. Chovera nos dias anteriores, e havia o risco de que a partida entre a seleção brasileira e um combinado de jogadores sergipanos não acontecesse. Mas o dia amanheceu ensolarado. Diziam que a estrutura do estádio não suportaria o peso provocado pelo excesso dos torcedores. E se acreditava que Aracaju não poderia abrigar mais do que 80 pessoas. Os deuses do futebol já haviam sentenciado que a festa seria irretocável. Às 11h do dia 9 de julho, um feriado de quarta-feira em Aracaju, milhares de torcedores já se aglomeravam em frente aos portões de acesso ao estádio. Às 18h não cabia mais ninguém no estádio. Foi um longo dia, que começou com uma alvorada festiva. No começo da tarde a prefeitura ofereceu um almoço à imprensa na Associação Atlética. No Batistão terreiros de macumba aqueciam ainda mais os torcedores, já bastante ligados para ver Pelé e companhia. No dia anterior grupos de danças percorreram boates e restaurantes mostrando as coisas típicas de Sergipe. Um mundaréu de gente continuava a brotar não se sabe de onde. Paulo Lima tinha sete anos e rememora aquele dia. “Saí de casa com meu pai em direção ao estádio”, ele conta. “Eu não tinha noção do que ia ver, e assim não conseguia entender a empolgação do meu pai”. Paulo Lima morava num bairro muito distante do estádio. Ele e o pai tomaram um ônibus e encontraram o estádio já relativamente cheio. “Senti um pouco de medo diante daquela multidão, jamais tinha visto tanta gente reunida”. Os dois conseguiram um lugar nas arquibancadas detrás de um dos gols. “Lembro de ter visto uma apresentação de paraquedistas, que miraculosamente conseguiam cair num ponto estabelecido no gramado”. Quando por fim as duas seleções entraram em campo, seu pai não se cansava de apontar para a figura de Pelé. Mas Paulo Lima passou todo o jogo confundindo Pelé com Edu, por causa da semelhança física entre os dois jogadores. O funcionário público Wellington Santana tinha 20 anos. Ele assistiu à inauguração num ponto privilegiado: o gramado. Como soldado do Exército, Wellington Santana participou de uma das apresentações exibidas ao público. “Foi um sonho acordado que pouco pude curtir”, ele relembra. “Muita gente no estádio, pessoas aos cotovelos, muita luz, imprensa por todo lado, e mais a preocupação pessoal de não errar na apresentação que nosso grupo ia fazer: ginástica balalaica, creio ter sido essa a apresentação. Uma sensação indescritível.” Muitas pessoas foram ao estádio levando marmitas e por lá almoçaram e jantaram, com medo de perder o lugar. O primeiro atendimento registrado no posto médico foi um caso de bebedeira. Nada de mais grave ocorreu até o final da partida. Nem mesmo uma chuva rápida que caiu a certa altura esfriou os ânimos. Às 19h:35 o governador Lourival Batista chega ao estádio. Saindo por um dos túneis, ele dá uma volta no gramado acompanhado de várias autoridades. Os torcedores acenam com lenços brancos. Lourival Batista recebe uma homenagem dos operários que trabalharam na construção do estádio. Num gesto simbólico, entregam ao governador uma colher de pedreiro. Dez minutos antes do tempo estabelecido, as duas seleções entram em campo. Saem pelo mesmo túnel e caminham lado a lado para o centro do gramado. A reação da torcida se espalha pelo estádio como uma poderosa onda sonora. Os jogadores trocam presentes e suvenirs. Lentes e microfones caçam os jogadores da seleção brasileira, com ênfase para Pelé. Os futuros tricampeões se agacham para a foto clássica, e João Saldanha é enfático: apenas oito segundos para a foto. Oito segundos. Quem não fizer, não terá outra chance. O governador Lourival Batista faz uma homenagem a Clodoaldo, sergipano que cedo fora embora para São Paulo. Finalmente às 21h:30 Lourival Batista vai até o centro do gramado e dá o chute inicial. O juiz Armando Marques, uma grife da arbitragem da época, autoriza o começo da partida. Não havia qualquer ilusão de que a seleção sergipana, um combinado que reuniu jogadores dos principais clubes locais, fosse páreo para as feras de Saldanha. O resultado de 8 x 2 em favor da seleção brasileira foi uma vitória mais do que anunciada. A cordialidade deu o tom do espetáculo. “Mais uma vez sou grato a este povo tão hospitaleiro. Sergipe tem um estádio que é orgulho deste estado e do Brasil, com excelente gramado”, disse Pelé. Vevé, que marcou um dos dois gols dos sergipanos, não deixou barato. “Mostrei que realmente sou artilheiro, mesmo com a marcação implacável de Djalma Dias, por sinal um excelente atleta. Aquele tento constituiu na maior emoção da minha vida”. A seleção vinha realizando amistosos pelo país, como parte da preparação para a Copa no México, e antes tinha se apresentado em Salvador. De Aracaju o time seguiria para mais um amistoso em Recife e para mais uma vitória rumo ao tri, uma conquista que também passou pelo Batistão. |