Edição 127 - Aracaju, 26 de julho a 23 de agosto de 2009
_______________________________________________________________________________________________________________


 

  jornalismo
A jornada de um serendipitoso
Autobiografia revela os métodos de um expoente do new journalism 

Por Paulo Lima

Gay Talese é um de meus heróis literários, e foi com curiosidade renovada que li, reli, vi e revi suas entrevistas concedidas à mídia brasileira, por ocasião de sua passagem pelo Brasil, como um dos convidados de honra da Festa Literária de Paraty.

Descobri o new journalism de Talese quando li O reino e o poder, a alentada história do New York Times, jornal no qual ele trabalhou e abandonou graças à birra de seus editores, que insistiam em enquadrar suas reportagens na camisa de força do velho jornalismo.

No entanto, foi depois de ler A mulher do próximo, a história da permissividade americana numa era pré-aids, que me encantei de vez pelos recursos taleseanos de contar uma história. Tanto que, até hoje, aqueles personagens retratados por Talese, dispostos a instaurar uma nova moral sexual na América, convivem em meu imaginário com outros tipos ficcionais, tal é a força de uma grande narrativa, seja ela creditada como fiction ou non-fiction.

E esse é o grande trunfo do new journalism (por aqui conhecido como jornalismo literário): aplicar as técnicas da literatura à narrativa jornalística. Em seu livro Vida de escritor, recém-lançado no Brasil (Cia. das Letras), Talese conta que percebeu que numa reportagem poderia descrever um personagem da mesma forma que um escritor faria num romance, com a diferença de que num romance o personagem é fruto da imaginação, e numa reportagem, ele é real. Essa é a origem do seu estilo.

Nas inúmeras conversas que manteve com jornalistas em sua passagem pelo Brasil, Talese repetiu mais de uma vez seu credo. Em primeiro lugar, destacou seu interesse por pessoas comuns e situações serendipitosas (coisas que acontecem fruto do acaso), embora um de seus textos mais famosos trate de uma celebridade como Frank Sinatra, que Talese escreveu sem jamais tê-lo entrevistado.  Em segundo lugar, repisou as qualidades indispensáveis de um repórter: ter paciência e capacidade de observação.  Em seu livro Fama e anonimato, ele desdenha a fé inabalável que editores e jornalistas depositam no gravador como peça indispensável para a realização de uma reportagem, um recurso que ele considera eficiente, mas embrutecedor: “Eu próprio fui entrevistado por escritores munidos de gravadores e, enquanto respondia a suas perguntas, surpreendia-os ouvindo sem muita atenção, balançando alegremente, despreocupados porque sabiam que as rodinhas estavam girando.”

A essa postura passiva, Talese contrapõe seu próprio método, com ênfase na observação ativa daquilo que está sendo dito pelas pessoas. A citação, presente em Fama e anonimato, é longa porém valiosa:

“Desde meus primeiros tempos como jornalista, eu estava interessado menos nas palavras exatas que saem da boca das pessoas que na essência do que elas dizem. Mais importante que o que elas dizem é o que elas pensam, embora num primeiro momento seja difícil para elas articular o próprio pensamento, além de exigir do entrevistador muita ponderação e reflexão sobre o que há na mente do entrevistado – o que eu busco com todo cuidado é encorajar e estimular as pessoas sobre as quais escrevo, ao mesmo tempo que lhes faço perguntas, questões e me identifico com elas, enquanto as acompanho em reuniões, em andanças sem compromisso antes do jantar ou depois do trabalho.”

Há quem possa argumentar que esse tipo de jornalismo está fora de moda e é impraticável hoje em dia, com batalhões de editores e jornalistas mesmerizados pelo frenesi do furo. Mas Talese deixa claro que o universo das notícias, das chamadas hard news, nunca o interessou. Ele nunca quis dar a notícia primeiro, mas da melhor forma. Seu objetivo sempre foi contar histórias, na melhor tradição dos story tellers anglo-saxônicos. Por isso ele leva meses e anos apurando um tema, e é conhecido por atrasar a entrega de seus livros a seus editores.  

Talese fez a festa do público e da imprensa em Paraty, com seus ternos impecáveis, sua simplicidade e sua persona de um lord britânico caído no século XXI por acaso. Mas o bom de Talese está em seus livros. Em Vida de escritor, ele escreve sobre os bastidores de algumas de suas reportagens, expondo com vagar sua técnica. Não faltaram críticas ao livro, tanto aqui quanto nos Estados Unidos. Por lá, Talese foi acusado de utilizar trechos e sobras de reportagens que não foram publicadas; de que o livro não teria uma unidade. Aqui, escreveu-se sobre a prolixidade do seu autor, do seu derramamento em histórias que poderiam ser encurtadas pela metade.

Curiosamente, creio existir uma unidade no livro. Nele, Talese expõe histórias que perseguiu durante semanas, meses e até anos, e que no final não foram publicadas, ou por insatisfação dele próprio, ou por recusa dos editores. A história de sua matéria sobre o casal John e Lorena Bobbitt (aquela que decepou o pênis do marido) é lapidar, não apenas por mostrar o método exaustivo de Talese, que perseguiu durante muito tempo os personagens principais desse caso (ele jamais conseguiu conversar com Lorena Bobbitt), como pela recepção da poderosa editora Tina Brown, da revista The New Yorker, para quem a matéria foi originalmente produzida. Depois de ler o texto, Tina mandou um fax para Talese avisando que não ia publicá-lo pelo simples fato de não acrescentar nada ao que Tina já conhecia sobre o caso. E de nada adiantou as investidas de Talese propondo mudanças de ângulo, acréscimos e coisa e tal.

No livro, Talese fala da infância, do pai alfaiate, de quem herdou o esmero e o cuidado no vestir-se; fala do seu ingresso no jornalismo; dos seus embates com editores; da convivência familiar. Mas fala sobretudo de seus personagens, como se ele existisse em função daqueles que um dia retratou.  

Mas deliciosas também são histórias de restaurantes e restaurateurs de Nova York, que em outras mãos não passariam de pratos requentados e sem sabor. E de momentos serindipitosos, como a descoberta da jogadora chinesa Liu Ying enquanto ele zapeava a tevê uma tarde, vendo-a perder um pênalti contra a seleção americana, fato que custou ao selecionado chinês a Copa de futebol dos Estados Unidos, em 1990. Tempos depois, Talese rumou para a China à procura de Liu Ying, pois sentiu que ali teria uma boa história. Mais um insucesso taleseano. O livro jamais foi concluído.

Para um jornalista acostumado a gastar sola de sapato, Talese mantém uma solene distância da internet. Segundo ele, a visão de mundo dos repórteres está hoje condicionada à telinha de um computador, enquanto lá fora, no grande monde, é que estão as verdadeiras histórias.  Com a palavra, Gay Talese:

“As obsessões de um escritor vêm à tona e voltam a aflorar numa espiral imprevisível; as técnicas evoluem, mas a imaginação permanece.”

Ah, o título deste texto foi tomado de empréstimo do título de uma reportagem de Talese sobre Nova York, (“Nova York: a jornada de um serendipitoso”), incluída no livro Fama e anonimato.     

***

O ABC de Talese

A seguir, alguns trechos do livro Vida de escritor, publicado pela Cia. das Letras, com tradução de Donaldson M. Garschagen:

Já gastei semanas negociando entrevistas com pessoas recalcitrantes que, quando finalmente resolveram falar comigo, nada revelaram de interessante. Já viajei centenas e milhares de quilômetros seguindo pistas que por fim não me levaram a parte alguma. Das informações que recolho de pessoas, 80% terminam na cesta do lixo. Ainda assim, eu não teria conseguido descobrir os 20% úteis, sem abrir caminho através dos outros 80%, que acabam virando lixo.

Os restaurantes são câmaras de ressonância para bisbilhoteiros veteranos como eu. Mesmo quando participo da conversa em minha própria mesa, fico ligado na conversa das pessoas próximas, participando silenciosamente de seus debates e altercações, suas confissões e reatamentos, suas piadas e fofocas, suas tentativas de sedução e seu esforço para saltar fora de envolvimentos românticos mais profundos.

Fico sozinho o dia inteiro, produzindo texto com facilidade comparável à de um paciente que expele pedras dos rins, de modo que à noite prefiro jantar fora, procurando diversão e em geral encontrando-a na meia dúzia de restaurantes que frequento – lugares onde posso entrar sem fazer reserva mesmo em noites de casa muito cheia e receber do maïtre (para quem não existe melhor técnica para a memória do que uma nota de vinte dólares) um sorriso de reconhecimento e a primeira mesa vaga.

É frequente que me envolva com dois ou três projetos diferentes ao mesmo tempo, e passe de um para outro quando o trabalho empaca e acho mais sensato por de lado o que estava fazendo e reavaliá-lo em algum momento futuro.

Minha curiosidade me impele em várias direções, mas antes de ter investido muito tempo – meses, anos, - não sei em absoluto que assunto escolhido há de manter meu interesse. Às vezes jogo no lixo rascunhos que escrevi, mas em outras ocasiões ponho um trabalho de lado, arquivo-o, um ou dois anos depois releio o que fiz, às vezes reescrevo e volto a guardá-lo. Vez por outra, concluo que no fim das contas não vale a pena conservá-lo, e aí rasgo tudo e me liberto daquilo para sempre.

Muitas vezes, escrever é como dirigir um caminhão de noite, sem faróis, errando o caminho e passando uma década numa vala. As coisas eram mais simples quando eu trabalhava como jornalista. Naqueles dias de juventude, um editor me mandava escrever uma determinada matéria, eu dispunha de um certo tempo para terminá-la e, estivesse ou não inteiramente satisfeito com o resultado, era obrigado a entregá-la, antes do prazo final, ao editor, que a passava ao copidesque, depois do que ela ia para a linotipia, e a partir daí eu não tomava mais conhecimento dela, até que a via na próxima edição do Times. No dia seguinte, o processo se repetia.

Desde meus tempos de repórter juvenil, e depois, durante minha carreira de dez anos no corpo editorial do Times, me diziam que nós, jornalistas, não fazíamos parte da reportagem. Onde estávamos, quem éramos e o que pensávamos não era relevante para o que escrevíamos.