|
|
|
|
|
entrevista Michel Laub O gato diz adeus, novo romance do escritor gaúcho, narra um triângulo amoroso Por Paulo Lima
Quem leu os primeiros livros de Michel Laub, escritor gaúcho radicado em São Paulo, ficará surpreso com O gato diz adeus (Cia. das Letras), seu mais recente romance. Enquanto que nas histórias anteriores – Música anterior, Longe da água e O segundo tempo - o universo narrativo envolvia os ritos da adolescência, nesse novo livro o tema é a vida adulta e seus desencontros amorosos. Mas não é apenas o objeto em si que muda. Também a estrutura sofre uma guinada, representando um ponto de ruptura na obra do autor. O livro conta a história de um triângulo amoroso sob o ponto de vista de quatro personagens: uma atriz, um escritor, um professor universitário e uma estudante de Letras. É por meio dessa narrativa polifônica que os dramas de uma separação e de um novo casamento são estabelecidos. Sérgio Fontoura, um escritor de 40 anos, perde sua mulher, Márcia, uma atriz, para Roberto, um jovem professor universitário. Um casamento que se desfaz, um novo que se inicia. Uma trivialidade da vida adulta, digamos assim. Contudo, é na exposição de motivos que cada personagem faz de si e do outro que o romance conquista seus contornos próprios. “É uma história tão feia que tenho até vergonha de comentar”, afirma Roberto, logo no início. A partir das justificativas e ardis de Sérgio, Márcia, do próprio Roberto e Andreia (que surge mais tarde na história) é que as qualidades e defeitos dessas pessoas vêm à tona, fazendo com que o leitor tome partido ora de um, ora de outro personagem. Trata-se de um mundo de traições e jogos eróticos, no qual a inocência há muito deixou de existir. “Eu queria experimentar narrar do ponto de vista de personagens que sabem, que já viveram bastante e enxergam os dramas de outra forma”, explica Michel nesta entrevista. *** BN - Os seus três livros anteriores exploram o universo da infância e da adolescência. O gato diz adeus aborda uma temática adulta. O que o levou a mudar? Michel Laub - Eu achei que tinha achado um certo tom para contar histórias de adolescentes, que são personagens meio inocentes, que vivem as coisas pela primeira vez, e se fosse escrever outro livro desses eu estaria me repetindo. Até pretendo voltar a essas histórias no futuro, mas no Gato eu queria experimentar narrar do ponto de vista de personagens que “sabem”, que já viveram bastante e enxergam os dramas de outra forma. Embora todos os meus livros tratem de temas semelhantes – amor, perda, culpa, etc. –, usar esse outro ponto de vista é como fazer algo totalmente novo. BN - Que desafios você precisou enfrentar para desenvolver essa narrativa a quatro vozes? Foi mais difícil trabalhar com essa estrutura? M.L. - O maior foi como fazer essas vozes. No início eu tentei diferenciar cada uma delas: por meio da pontuação (um personagem falaria com frases longas, outro com frases curtas), pelo uso de cacoetes de linguagem (palavras específicas que fulano ou sicrano sempre usariam), por um ritmo lógico diverso (um pensaria em círculos, outro só usaria construções diretas), enfim, as possibilidades eram infinitas. Aos poucos cheguei à conclusão de que recursos assim, apesar do virtuosismo aparente, são apenas muletas técnicas, algo que qualquer escritor minimamente habilidoso consegue fazer, mas que para um leitor mais qualificado soam como esquematismo. Então limpei boa parte delas. Em termos formais, as vozes dos personagens acabaram ficando parecidas. Mas o que as diferencia, e o que deve importar, afinal, é a verdade do que cada um narra: se o personagem está sendo sincero no que diz (mesmo quando mente), sua voz nunca será confundida com a de outro. BN - No romance não há qualquer indicação do lugar onde as ações ocorrem. Os personagens estão confinados em seus próprios universos emocionais. Essa é uma maneira de conferir universalidade à trama? As histórias de amor são todas iguais? M.L. - Não. É mais fácil ser universal falando de um lugar específico, porque você dá maior verossimilhança ao relato, compõe os personagens com maiores detalhes, etc. No caso do Gato eu não quis dar lugar à trama porque meus dois livros anteriores se passavam em Porto Alegre, e até nisso eu quis soar um pouco diferente. BN - Escritores costumam afirmar que seus personagens adquirem vida própria. Esse é um mito literário? Nesse romance, algum personagem o inspirou mais do que outro? M.L. - Acredito em parte. Não que eles “criem vida própria”, mas às vezes você vai narrando e percebe que um ou outro filão – ou um ou outro personagem – é mais interessante, então acaba investindo nele. No caso do Gato, acho que o Sergio, pela idade, a profissão e um certo cinismo na maneira de falar, tem mais a ver comigo do que os outros. Mas a história dele, o caráter, etc. são inventadas. BN - Você explica que seu romance recebeu influências de obras específicas de três escritores – Amós Oz, William Faulkner e Junichiro Tanizaki. Não teve receio de que comparações pudessem ser estabelecidas? M.L. - Não, porque são só citações. Algumas pessoas fizeram essa comparação, o que até me surpreende. Só o que faltava era eu me comparar ao Faulkner, por exemplo – posso até escrever livros ruins, e aí depende do gosto de cada um, mas ingênuo a esse ponto eu não seria. BN - Como é o seu método de trabalho? Você se impõe uma disciplina? M.L. - Hoje em dia não tenho método. Acabo escrevendo nas horas vagas, mas sem regularidade nem horários. Há meses em que trabalho todos os dias, outros em que não escrevo uma linha. BN - No seu caso, como surge a ideia de um romance? Que critérios você estabelece para saber que um romance deve ser escrito desta ou daquela forma? M.L. - Difícil dizer. Acho que surge uma idéia vaga primeiro – escrever um livro sobre futebol, ou sobre um casamento -, e a partir daí penso um pouco nos personagens, na forma narrativa, etc. antes de começar a escrever. Mas depois que começo as coisas em geral mudam muito. BN - Você costuma ser citado como um exemplo bem sucedido da funcionalidade das oficinas literárias. Ao apostar em fórmulas, por assim dizer, consagradas, as oficinas não tendem a desenvolver uma certa padronização? M.L. - Não. Basta ver os escritores que saíram das oficinas, um é muito diferente do outro. E há vários tipos de oficinas, porque os escritores que as ministram também são diferentes uns dos outros. BN- Você aderiu tardiamente à blogosfera, e utiliza seu blog mais como espaço de crítica sobre música, literatura e cinema. Você acha que o imediatismo dos blogs pode estimular um tipo de literatura mais apressada, com menos qualidade? M.L. - O blog é meio, não fim. A literatura vai ser boa ou ruim em função do autor, não do veículo onde ele publica. Agora, o exercício do texto, seja de ficção ou não, seja na imprensa em papel, num blog, num e-mail, no twitter, no facebook, numa carta ou onde for, sempre é bom. BN - O que você acha do avanço crescente do livro digital? Isso poderá implicar em mudanças no modo de fazer literatura no futuro? M.L. - Mais uma vez, é uma questão de meio. A literatura não muda em nada com isso. Talvez mude o modelo de negócio da indústria editorial, mas tenho dúvidas se isso será tão dramático quanto muita gente diz. |