Edição 130 - Aracaju, 25 de outubro a 22 de novembro de 2009
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  entrevista
Luiz Ruffato
Lisboa é cenário do novo romance do escritor

Por Paulo Lima
Foto Adriana Vichi

Em seu novo romance Estive em Lisboa e lembrei de você (Cia. das Letras, 88p.), o escritor Luiz Ruffato conta a história de um imigrante brasileiro que vai tentar a sorte em Portugal. Apesar do cenário além-mar, o livro, concebido para o projeto Amores Expressos, mantém os objetivos literários do autor, que é discutir a questão da imigração e da perda da identidade provocada por mudanças e deslocamentos, presentes em obras anteriores, a exemplo da série Inferno provisório, em cinco volumes, que narra a história da industrialização no Brasil do ponto de vista dos trabalhadores urbanos.

Mas diferentemente do proposto no Amores Expressos - escritores deveriam passar um mês numa dada cidade do planeta, extraindo daí uma história de amor inspirada no local visitado -, o eixo do livro de Ruffato (ele escolheu Lisboa) não é o amor em seu sentido convencional. Os encontros amorosos propriamente ditos escasseiam no livro. O que prevalece é o amor pelo outro, pelo diferente, presente nas ações de Sérgio de Souza Sampaio, o personagem principal.

Assim como Ruffato, Sérgio é um mineiro de Cataguases. Ele leva uma vida simples de funcionário público, metido em fanfarronices, até que engravida uma moça e é obrigado a casar. O casamento não dá certo, e Sérgio, com a ajuda de uma herança materna, resolve ir embora para Lisboa. Sua história poderia se confundir com outras tantas envolvendo imigrantes em situação irregular no exterior, submetidos a duras condições de trabalho e à difícil adaptação a uma nova cultura.

Poderia, não fosse pela narrativa engenhosa, às vezes trágica, às vezes divertida, calcada nos regionalismos e coloquialismos de Sergio, na primeira parte (enquanto ele ainda está em solo brasileiro), e influenciada por expressões lusitanas, na segunda parte, quando, já em Lisboa, ele luta para sobreviver. “Entreguei para o Serginho a responsabilidade de contar a ida dele para Portugal, e ele então utiliza a linguagem que usa no dia a dia”, disse Luiz Ruffato nesta entrevista concedida por e-mail, na qual fala do novo livro, de literatura e de seu próprio desenraizamento: “Eu me sinto um estranho no mundo em que vivo, seja Cataguases, São Paulo, Lisboa ou Berlim.”

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BN - A ideia do romance nasceu em Portugal ou no Brasil? O prazo estabelecido pelo projeto Amores Expressos ajudou ou dificultou o processo de escrita do livro?

Luiz Ruffato - Quando fui convidado para participar do Amores Expressos escolhi Lisboa,  porque eu já tinha vontade de escrever um livro sobre a presença dos imigrantes brasileiros no exterior. Portanto, no meu caso, a proposta apenas antecipou a realização de um desejo inicial. Dentro do meu projeto literário de discutir a desterritorialização no mundo pós-industrial, este seria um desdobramento natural. Quanto aos prazos, não foi exigido nada muito engessado não.

BN - O livro abre com um poema do português Miguel Torga exaltando a saudade do tempo que viveu no Brasil. Em Portugal, você também sentiu saudade do país?

L.R. - Eu não tenho saudade de um lugar específico, talvez porque eu não tenha esse lugar. Sou filho e neto de imigrantes. Meus avós maternos chegaram da Itália e os paternos de Portugal. Foram para Rodeiro e Guidoval, respectivamente, ambas cidades da região da Zona da Mata mineira. Meus pais saíram daquelas cidades e se dirigiram para Cataguases, em busca de melhores perspectivas para os filhos. E eu saí de Cataguases, fui estudar em Juiz de Fora e moro em São Paulo há 19 anos. Sou o exemplo vivo daquele ditado: “não tem onde cair morto”. Porque não sei, quando morrer, onde serei enterrado...

BN - Há uma nota no início do livro explicando que seu conteúdo é resultado de algumas sessões de entrevistas realizadas com o personagem Sérgio de Souza Sampaio. Esse é apenas um recurso narrativo ou o personagem foi inspirado em alguém?

L.R. - Trata-se de um recurso narrativo, que gostaria fosse “comprado” pelo leitor.

BN – Nesse romance, a linguagem se desenvolve em torno de regionalismos e coloquialismos, lembrando às vezes Guimarães Rosa.  Esse recurso busca enfatizar o realismo da narrativa? Você chegou a pensar em outras estruturas para esse romance?          

L.R. - Eu acredito que cada história só admita uma única maneira de ser narrada. A grande angústia do escritor é exatamente essa: descobrir qual a abordagem correta. No caso do Estive em Lisboa e lembrei de você entreguei para o Serginho a responsabilidade de contar a ida dele para Portugal. E ele então utiliza a linguagem que usa no dia a dia. Na primeira parte, quando ainda se encontra nos preparativos para a viagem, em Cataguases, ele descreve suas aventuras em mineirês, talvez até mais que isso, em cataguasês... Depois, como todo imigrante que busca ser aceito no novo espaço em que se encontra, ele incorpora, na segunda parte, lusismos e africanismos ao seu discurso... Não consigo imaginar o livro organizado de outra maneira...

BN - Ao chegar a Lisboa, Sérgio descobre que Lisboa tem “cheiro de sardinha”, entre outros estranhamentos. Você registrou a mesma sensação no blog do projeto, em sua temporada na cidade. Até que ponto sua vivência influenciou a narrativa?

L.R. - Eu me sinto um estranho no mundo em que vivo, seja Cataguases, São Paulo, Lisboa ou Berlim. Tudo para mim é novo, inaugural, fascinante: estou em permanente maravilhamento. Eu não sou um escritor intelectual, ou seja, que escreve com o intelecto. Eu escrevo com o corpo, com todos os sentidos do corpo. Por isso, vivo todo o tempo mergulhado na possibilidade de compreender o outro e o outro é sempre um estranhamento.

BN - O livro retrata a situação de um imigrante sem eira nem beira que pode ser a mesma de tantos outros espalhados pelo planeta. Um dos personagens achincalha os políticos. É uma forma de estabelecer uma crítica de sua parte?

L.R. - Acho que o Brasil vive hoje uma situação muito parecida com a Itália dos anos 1970, quando a economia se descolou da política. A nossa política é um retrato bastante fiel da nossa sociedade. Todos querem tirar o máximo possível do país, nós não gostamos do nosso país. E, de fora, essa visão é ainda mais clara. Temos um dos lugares mais interessantes do mundo, de todos os pontos de vista, para viver e no entanto nos esforçamos com muita competência para transformá-lo num inferno. 

BN – Como você vê a divulgação da literatura brasileira em Portugal, e vice-versa? Há um investimento por parte das editoras? Essa divulgação não estaria direcionada apenas para os autores mais conhecidos dos dois países?

L.R. - Agora começa a haver um renascimento do interesse dos portugueses pela literatura brasileira, um pouco na cola da importância que o Brasil tem tomado como nação no mundo globalizado. Mas ainda é pouco. Há muita desconfiança, há muita má vontade, de ambos os lados, aliás. Uma coisa, por exemplo, que acho absurda é a mania de “adaptações” da língua, promovida por algumas editoras, lá e cá...

BN – Como você situa esse novo romance em relação aos seus livros anteriores?

L.R. - Estive em Lisboa e lembrei de você se insere perfeitamente no meu projeto literário. O Inferno provisório, composto por cinco volumes, dos quais quatro já publicados, é uma tentativa de reflexão sobre o brutal processo de industrialização do Brasil, abarcando portanto cerca de 50 anos, desde o êxodo rural, ocorrido a partir da década de 1950, até a entrada do país no mundo globalizado, nos fins da década de 1990. Neste período, principalmente nos anos 1980 e 1990, vivenciamos a imigração de brasileiros para os Estados Unidos, Portugal e Japão, principalmente, Portanto, a minha intenção de discutir questões como pertencimento e desterritorialização,  presentes no Inferno provisório e também no De mim já nem se lembra e no Eles eram muitos cavalos se estende também por esse novo livro.

BN – Você já exerceu diversas profissões e começou tarde na literatura. É preciso viver para escrever?

L.R. - Não acredito em fórmulas. Temos exemplos de autores que escreveram obras-primas ainda jovens e de outros que, começando a escrever depois dos 60 anos, ganharam o Prêmio Nobel.

BN - Ao escrever um livro, você persegue um projeto previamente elaborado, ou se deixa conduzir pelos rumos da narrativa?

L.R. - Escrever para mim implica em alguns momentos bastante demarcáveis. Inicialmente, tenho uma idéia. Deixo-me então envolver completamente por ela. Esse processo pode durar meses, anos e até, sem exagero, décadas. Um dia, sinto-me finalmente preparado para iniciar a produção propriamente dita. Mas, no mais das vezes, o resultado não é nem um pouco parecido com a idéia inicial, embora, sempre, guarde dela um parentesco.

BN – Você já atuou como jornalista. O ofício teve alguma influência sobre sua literatura?

L.R. - Diretamente, o que o escritor deve ao jornalista é a disciplina. Nada melhor do que o exercício cotidiano do jornalismo para deixar claro ao escritor que escrever é exercício, é labuta. Além disso, há, claro, um certo treino do olhar, uma certa humildade em saber que o texto que você elaborou e reelaborou torna-se privada de passarinho, no dia seguinte, no caso do jornal, ou nada, se ninguém abre o livro, no caso da literatura... Agora, não vejo nada mais distante da literatura do que o jornalismo. Embora ambos trabalhem com a linguagem, cada um dos ofícios tem com ela uma relação completamente única. O texto jornalístico quer-se mediano, inteligível, objetivo, claro e informativo. O texto literário deseja-se culto, inteligente, subjetivo, deformativo... Onde termina a notícia de jornal começa a prosa de ficção...

BN - Como escritor, como você está vendo essa discussão em torno do livro digital?

L.R. - A morte do livro, assim como a morte da literatura, já foi várias vezes declarada. E o livro e a literatura mantêm-se firmes, inabaláveis. O livro digital virá, com certeza, e terá sua importância, mas conviverão ambos os formatos, complementando-se, não canibalizando-se.