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reportagem Um jardim do Éden tropical O suíço naturalizado brasileiro Marcel Nauer transformou um pequeno sítio num paraíso da botânica
Texto: Paulo Lima
Imagine poder contemplar uma paisagem formada por palmeiras e outras plantas de diferentes regiões dos trópicos, sem que seja necessário se deslocar para outros lugares. De repente, você está diante de um espécime de Madagascar. Mal deu alguns passos, e avista uma palmeira da Árabia Saudita. Bem ao lado, um exemplar da Oceania. Próximo dali, uma palmeira da Índia ladeada por uma planta de forma exótica oriunda do México. Alguns metros à frente, uma palmeira do nordeste brasileiro acrescenta um toque a mais de variedade a esse mosaico. E as surpresas vão se sucedendo, de modo que, depois de algumas horas de exploração, é possível realizar um giro panorâmico pela biodiversidade do planeta percorrendo uma área de apenas 10 hectares. A descrição de um oásis assim pode sugerir a exuberância de um jardim suspenso da Babilônia, mas toda essa riqueza está concentrada num sítio de aparência comum localizado no povoado Caípe Velho, na zona rural de São Cristóvão, cidade histórica de Sergipe, a quarta mais antiga do Brasil. No começo era apenas um sítio com cajueiros, mangueiras e outras árvores frutíferas, mais um entre tantos por ali utilizados como fonte de subsistência familiar. O responsável pela metamorfose de um matagal num sofisticado laboratório de botânica a céu aberto é o suíço naturalizado brasileiro Marcel Nauer. Há 30 anos ele decidiu trocar a paisagem enevoada do seu país pelo calor dos trópicos. Enquanto não se estabelecia de vez no Brasil, ia e vinha em férias. Foi numa dessas viagens que ficou sabendo do sítio por meio de um parente de sua esposa, Neusa. “Comprei superfaturado, sem ver”, explicou. Sempre que vinha ao Brasil, ele arranjava um jeito de visitar o sítio. Depois que se mudou de vez para cá, em 1982, pôde prosseguir com sua epopéia ambientalista. Marcel costuma dedicar os domingos ao sítio. Chega às 7h e parte às 17h. No dia em que o visitei, ele estava às voltas com uma pequena operação de guerra que ocupou boa parte da manhã: inspecionar a retirada de uma palmeira de cerca de 6 metros, que havia conseguido vender. Lá dentro um caminhão resfolegava, e três homens lutavam para remover a árvore, auxiliados por um velho guindaste. Marcel se movia de um lado para o outro, dedicando à palmeira um cuidado paternal. Com uma desenvoltura incomum para os seus 62 anos, ele procurava dar atenção ao visitante, mas com um olho na palmeira, cuja remoção estava complicada. Para quem chega ao local, a primeira visão que se tem é a de uma casa de pau-a-pique. Sua utilidade é servir de base de apoio às atividades do sítio. Cerca de 50 metros depois, à direita de quem entra, avista-se uma caixa d´água de 5 mil litros, instalada no alto de uma torre de madeira com 12 metros de altura. Seu reservatório é destinado à irrigação. Através de um sistema de dois mil metros de mangueiras, a água chega aos pontos mais extremos do sítio. Pequenos furos são feitos nas mangueiras, e a água, sob pressão, espirra a uma altura de até dois metros. É um sistema rudimentar, porém eficiente.
Mas como um tesouro resguardado, a beleza da área vai se revelando à medida que nos vamos embrenhando nela. Chovera muito na véspera, mas o dia amanheceu perfeito. O sol se derramava sobre as árvores, reavivando cores e detalhes da vegetação. Marcel se aproxima e apanha um pedaço de palha do chão. “É uma casca de coco de 20 anos, fantástico!”, diz abrindo os sons das vogais, um traço do seu sotaque no qual também ainda se ouve alguns erres fortes, herança do alemão nativo. Aqui e ali, uma gíria (“não tem grilo”) pontua a conversa. O escritor Bernard Shaw costumava se autodefinir como um irlandês que caiu na Inglaterra por acaso. Marcel é um brasileiro que caiu na Suíça por acaso, tamanha é sua paixão pela natureza do Brasil e dos trópicos. É o mais nordestino dos suíços. “Sou viciado em vegetais”, exulta. A paixão pela botânica o faz abrir mão até da própria vaidade. Ele me conta que é capaz de deixar de comprar um novo par de sapatos em troca de livros sobre botânica. O mais recente que adquiriu, pela internet, vai custar R$ 200,00 e será um presente da filha Christine, de 31 anos. É um autodidata cujos conhecimentos foram se aprofundando ao longo dos anos. Hoje sua expertise já é reconhecida até por pesquisadores do ramo. Com seus desenhos surpreendentes, palmeiras, cactus e bromélias - exóticas e nativas - inebriam até o observador mais desatento. São verdadeiras esculturas vivas. Sua geometria compõe um show de imagens oníricas, um exuberante conjunto de fractais naturais. Enquanto nos deslocamos, Marcel vai explicando cada detalhe minucioso dos variados tipos que surgem pelo caminho. Ele não se contenta em explicar apenas as características dos vegetais. Procura chamar a atenção para o sensorial, o olhar, os pormenores de cores e formas. Estimula o repórter a conferir a textura de uma samambaia de folhas prateadas. “Um espetáculo!”, exclama.
É um lugar repleto de beleza. Num passo ágil, Marcel percorre as trilhas explorando e explicando cada detalhe, como se todas as informações estivessem armazenadas numa planilha ao alcance de um click. “Quantos tipos de palmeira você tem aqui?”, pergunto. Click. “Uns duzentos”, responde. Ele aponta para uma do tipo gigante. Click. “É um buriti, origem brasileira, 30 metros de altura”. Muitas espécies têm uma placa de metal que as identificam pelo nome científico. Há uma preocupação pedagógica nesse trabalho de conservação. Na verdade, é um espaço privilegiado para o estudo in loco da botânica. Estudantes universitários já visitaram a área. Estou tomando nota quando Marcel chama a minha atenção para mais um detalhe. Ele aponta para uma palmeira e explica, click: “É uma Carpentaria acuminata, a primeira em Sergipe”. Mal escrevi o nome científico, e ele já dispara na direção de outra árvore. “É uma pupunha da mata, também uma das primeiras do sítio”. O interesse pelos ambientes naturais vem da infância. Em Zurique, onde nasceu, Marcel Nauer costumava frequentar jardins botânicos, às vezes em companhia do avô, que era desenhista. Lá estudou em escola de arte e trabalhou em gráfica fazendo retoques artísticos, numa época em que recursos como o Photoshop não passavam de um futuro distante. Até o processo de seleção de cores era manual. Um dia ele comprou uma câmera e começou a fotografar mais pela beleza artística do que por interesse profissional, uma habilidade que tinha bases na família: o pai era fotógrafo. Mas a fotografia acabou se transformando em profissão. E a especialidade não poderia ser outra: o ambiente natural. Além disso, ele faz trabalhos em tapeçaria. Na verdade, uma série de habilidades e interesses que pode ser incorporada numa só palavra. Arte. O olho clínico para a superfície de uma folha, o brilho de uma cor ou as curvas de um tronco são apenas derivações de um mesmo interesse: a beleza artística.
Enveredamos por mais uma das inúmeras trilhas. “A natureza é sempre perfeita”, se detém Marcel, como se atingido por uma epifania. No sítio convivem palmeiras com idades diferentes. Muitas exigiram bastante esforço. É o caso de uma banana d´água de Madagascar, cujas sementes levaram um bom tempo para serem obtidas. De repente, na saída de uma trilha, abre-se a visão de um pequeno lago com a superfície coberta por plantas aquáticas. Contornamos suas margens. Seguimos em frente. Uma palmeira diminuta, que eu não tinha visto, surge pelo caminho e rende uma informação curiosa. Com a economia de um verbete de enciclopédia, Marcel explica: “Esta aqui é a fase inicial, veja os espinhos”. Depois, apontando para uma árvore maior ao lado, diz: “E aqui, a mesma árvore em sua fase adulta, já sem os espinhos”. Elen Verônica, de 18 anos, afilhada de Marcel, chega quando a manhã já está alta. Ela costuma vir com frequência ao sítio. Quero saber qual a opinião dela a respeito do trabalho de Marcel. “Ele ama isso aqui”, diz. “Ele gosta do clima, e na Suíça não tem isso”. Elen é estudante, e eu indago que profissão ela quer seguir. Sempre com um sorriso, responde: “Bióloga”. Pergunto se a escolha é influência de Marcel. “Também”. Em casa, ela o ajuda com suas pesquisas na internet – por enquanto, ele mantém distância de computadores. Juntos, vasculham na rede informações sobre espécies, e chegam a imprimir as imagens de plantas para acompanhar seu desenvolvimento. Foi navegando que eles procuraram dicas de jardins de pedra, os rock gardens. Com base nos estilos que encontrou, Marcel projetou e construiu o seu próprio jardim. “Há muitos bonitos, mas nunca vi igual ao nosso”, diz Elen.
O rock garden construído no sítio é como um país liliputiano. Há uma variedade de plantinhas diminutas, muitas delas lembrando bonsais super trabalhados. As plantas maiores não ficam atrás em exotismo. Duas plantas suculentas de origem africana – adenium -, de troncos robustos e galhos abertos como se fossem braços, uma ao lado da outra, parecem figuras femininas. Iluminadas pela luz do sol quase a pino, as pedras brancas espalhadas pelo jardim produzem um brilho ofuscante. Abrigados em suas reentrâncias, cactus minúsculos se assemelham a pequenos seres submarinos. É um paraíso, mas que abriga suas ameaças. Espinhos também existem no reino das palmeiras, e em profusão. Enquanto andávamos, Marcel me advertiu para o perigo. Muitas vezes eles estão lá, bem visíveis, como pequenos soldados cuidando da defesa dos seus domínios. Desses, é fácil se desviar. Em outras situações, porém, são muito pequenos e aí, zás!, podem acertar você. Foi o que aconteceu com Marcel. Um espinho ingrato espetou sua mão esquerda, num incidente aparentemente banal, ao qual ele deu pouca importância. No entanto, o ferimento se agravou, e por pouco não lhe custou a mão. Ele precisou se submeter a uma cirurgia, que lhe deixou uma cicatriz à altura do polegar esquerdo. O cuidado com a conservação da área é visível nos pormenores. Em algumas palmeiras foram fixadas armadilhas para capturar insetos. Eles transmitem fungos letais às espécies. Apesar da variedade de plantas coexistindo num pequeno ecossistema, a impressão é de que prevalece ali uma harmonia natural, como se tudo fosse fruto de um crescimento espontâneo. A topografia ondulada contribuiu para a criação de ambientes diferenciados. A área é pequena, porém cada espaço é ocupado com muita criatividade. Tudo é valorizado. Parte da área mantém sua vegetação nativa, com espécies da mata atlântica. O deslocamento pelas trilhas proporciona sempre uma nova descoberta. “Esse aqui é um baobá”, disse Marcel apontando para uma pequena árvore cuja origem é o continente africano. Um baobá - Adansonia digitata - pode alcançar até 30 metros de altura. Aquele eu mal teria notado, de tão minúsculo que era, mas a menção ao seu nome me conectou a uma recordação literária. “Os baobás, antes de crescer, são pequenos”, disse o principezinho de O pequeno príncipe, o conhecido romance de Saint Exupéry. Fiquei imaginando o gigante no qual aquela árvore se transformará daqui a alguns anos. Em meio a esse mapa múndi, o Brasil está muito bem representado, com uma diversidade de plantas espalhadas em diferentes ecossistemas. Segundo Marcel, este é um sítio antigo, que abriga espécies de até 70 anos. Observar os frondosos cajueiros e as imponentes mangueiras que pontuam aqui e ali é como mirar o passado. Um coqueiro-buriti, também conhecido como buritizeiro, se projeta acima de coloridas bromélias. Vejo algumas dessas bromélias enroscadas em jaqueiras e mangueiras, num curioso processo de simbiose. Carnaubeiras compridas e magricelas convivem ao lado de pequenas mangabeiras, considerada a árvore-símbolo de Sergipe. Craibeiras, tipos de ipês comuns na Caatinga, também podem ser vistas, juntamente com plantas da Bacia Amazônica.
No sítio, as plantas têm uma história. Marcel Nauer sabe exatamente quando cada uma foi plantada, e em que circunstâncias, além de conhecer suas características botânicas. Sabe, inclusive, como as mudanças da luz natural ao longo do dia podem alterar as tonalidades de folhas e flores. Toda essa atividade é destituída de interesse econômico. “Retorno não tem”, explica ele. Uma vez ou outra pode ser que alguma planta seja vendida. O destino: floriculturas. Mas o preço é sempre reduzido. “Pagam muito mal”, diz. Ocasionalmente surge algum convite para que ele dê dicas, ou auxilie em atividades de paisagismo, coisas que faz mais por amizade, sem intuito profissional. Na labuta no seu Éden particular, Marcel conta com o auxílio de Domingos, um agricultor de 62 anos, morador da região, que passa o dia no sítio e depois retorna para casa. “Ele é minha mão direita”, se apressa em dizer Marcel. Domingos já trabalha há tanto tempo ali que nem mesmo se lembra quando começou. Ao subirmos uma trilha, cruzamos com uma planta curiosa. É uma Nolina beaucarnea. Seu caule é fino como um caniço, porém robustecido na base. No topo, uma vasta cobertura formada por tiras de folhas verdes, como um penteado pimpão que mal consegue se equilibrar sobre a cabeça. “Parece uma peruca”, comparo. “É uma fantasia de Maracatu”, sorri Marcel, dando corda à imaginação. “Vamos, vamos”, ele tenta acelerar meu passo, para que nada fique sem ser visto. No dia seguinte à minha visita, Marcel foi checar o replantio da palmeira que havia sido retirada do sítio no domingo, como um pai que tenta acompanhar os passos de um filho. Concluiu que ela estava desalinhada. *** Reportagem originalmente publicada na edição 14 da Revista Plurale. Confira um slideshow com fotos desta reportagem no endereço: http://www.youtube.com/user/Balaiodenoticias#p/u/0/6oXanPVvb_w |