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Ciência Fazer o bem faz bem Por
Paulo Marcio Vaz* Uma pesquisa
realizada nos Estados Unidos pelo neurocientista brasileiro
Jorge Moll - atual Coordenador do Núcleo de
Neurociência da Rede Labs-D'Or - acaba de
comprovar, cientificamente, o que muitas pessoas já sabiam, ao menos, de
forma intuitiva: fazer o bem faz bem - não só para quem recebe, mas também
para quem realiza a ação. Além disso, a pesquisa revelou uma relação estreita
entre atitudes consideradas altruístas (de fazer o bem ao próximo) e áreas
cerebrais ligadas diretamente ao afeto e ao sentimento de pertencer a um
grupo.
As
conclusões são baseadas em experimentos feitos pelo cientista e sua equipe
entre 2004 e 2006, utilizando cidadãos norte-americanos voluntários e
considerados normais em termos de saúde mental, que participaram
anonimamente.
Durante os
testes, enquanto os participantes tomavam decisões relacionadas a ações de
altruísmo, exames de ressonância magnética funcional registravam suas
reações. Estas áreas do cérebro iam sendo mapeadas quando eram estimuladas em
conseqüência de suas escolhas, que poderiam ser favoráveis ou não, em relação
a várias formas de doação em dinheiro para diversas instituições (detalhes do
teste no quadro ao lado).
O que mais
impressionou os cientistas foi a região cerebral
conhecida por “área tegmental ventral”, que era
estimulada toda vez que algum indivíduo se decidia por ajudar financeiramente
alguma causa. Essa parte do cérebro é responsável pelo que os médicos chamam
de “sistema de recompensas”, que também é ativado quando um indivíduo realiza
ações diretamente ligadas a seu próprio prazer, como, por exemplo, manter
relações sexuais, comer ou ganhar dinheiro.
“É importante dizer que essa região também
foi estimulada quando os voluntários se decidiam por não doar dinheiro,
quando isso resultava num ganho monetário para eles próprios, de acordo com
critérios que adotamos nos testes”, diz Jorge Moll.
O estudo
mostrou ainda que uma outra região cerebral - conhecida como área subgenual -, ao contrário da primeira, era estimulada
somente no momento em que os participantes decidiam realizar atos de doação.
“A área subgenual é a região cerebral ligada ao afeto e ao
sentimento de pertencimento a um grupo. Em testes anteriores, ela era
estimulada, por exemplo, no momento em que mães observavam seus próprios
bebês”, diz o cientista.
Mesmo com
os resultados animadores da pesquisa, Jorge Moll
alerta que a reação positiva do cérebro em favor de quem doa não é suficiente
para convencer alguém a ser altruísta. Segundo ele, a cultura é um fator
essencial que influencia diretamente as decisões de cada um.
“A
vinculação do altruísmo ao sentimento de pertencimento a um grupo não quer
dizer que basta você fazer parte dele para ser altruísta. Se esse grupo tiver
uma cultura segregadora, por exemplo, você até será
altruísta, mas somente entre os membros do grupo”, diz.
Outro
aspecto que impressionou os pesquisadores foi a
relação entre a intensidade dos estímulos das áreas cerebrais e a quantidade
de ações de beneficência praticadas na vida real pelos voluntários do teste.
Aqueles que afirmaram já praticar atividades altruístas no dia a dia tiveram
mais estímulos cerebrais que os que não tinham esse costume. Isso leva a crer
que o cérebro poder ser alimentado cada vez mais naquelas áreas, de acordo
com o volume de ações praticadas visando o bem do próximo.
Mesmo sem
querer se envolver em questões relacionadas à política, Moll
espera que os resultados de sua pesquisa sirvam de referência para orientar
projetos sociais e educacionais.
“A política
social pode se informar cientificamente, da mesma forma que a Justiça se
informa sobre a presença de doenças mentais na hora de imputar ou não uma
culpa a alguém. Assim, de acordo com nossas conclusões, apesar das pessoas,
em geral, terem hoje um comportamento, de certa forma, egoísta, todas elas
têm a capacidade de fazer o bem e se sentirem bem com isso. Se dermos a elas
condições e instrumentos apropriados, poderemos gerar uma sociedade cada vez
mais altruísta”, finaliza.
Psicólogo, altruísta e feliz
De alguma
forma, o psicólogo niteroiense Luiz Felipe Cardoso Santos já sente, há algum
tempo, as sensações de prazer descritas nos estudos desenvolvidos por Jorge Moll e sua equipe.
Luiz Felipe
é um dos coordenadores da ONG (organização não-governamental) Jornal Vivo –
Interação e Cidadania, de Niterói, que reúne, entre outros profissionais, um
grupo de sete psicólogos que dedicam parte do seu tempo a atender,
gratuitamente, indivíduos vítimas de dependência de drogas e outros casos que
necessitem de acompanhamento.
“O
resultado desses estudos só vêm comprovar algo que nós, altruístas já
sabíamos, é claro que de forma inconsciente. A comprovação científica de que
fazer o bem faz bem é um grande passo para que, cada vez mais, as pessoas se
conscientizem de que o altruísmo é uma via de mão dupla que beneficia ambos
os lados”, diz o psicólogo e um dos fundadores da ONG.
A atual
presidente da Jornal Vivo, Lea Lopes de Oliveira, ao
saber das conclusões da pesquisa de Jorge Moll –
sobre a sensação de prazer desencadeada no cérebro de altruístas - chega a
uma conclusão própria. “Deve ser por isso, então, que é praticamente
impossível vermos o Luiz Felipe infeliz. Ele é a alegria em pessoa”.
A pesquisa Os voluntários que participaram dos
testes foram apresentados a 64 instituições diferentes, que iam desde aquelas
que defendem causas ligadas ao bem-estar de crianças ou realizam pesquisas
buscando a cura de doenças, até as que pregam o aborto ou o armamento da
população. Numa primeira fase, todos relataram
suas preferências em relação às instituições. Em seguida, as preferências
foram catalogadas. Na fase final dos testes, cada uma das pessoas tinha direito a um total de U$ 128
(cerca de R$ 265) que poderiam ser doados ou não às instituições
apresentadas, através de cinco opções oferecidas: doação à instituição com ou
sem custo para o voluntário, oposição à instituição - também com ou sem custo
- e, finalmente, ganho simples de dinheiro pelo voluntário A cada pergunta apresentada, como “você
doaria U$ 2 para o Clube do Rifle?”, o voluntário
apertava um botão (sim ou não). No momento da escolha, um aparelho de
ressonância magnética registrava as partes do cérebro que eram estimuladas,
de acordo com a opção de cada pessoa. *Repórter do jornal O Fluminense,
de Niterói/RJ |
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