Webjornal - Mensal  - Edição 100 - Aracaju, 08 de abril a 06 de maio de 2007
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Ciência

Fazer o bem faz bem

Cientista brasileiro comprova que prática do altruísmo estimula determinadas partes do cérebro e também favorece o autor das ações

Por Paulo Marcio Vaz*

Uma pesquisa realizada nos Estados Unidos pelo neurocientista brasileiro Jorge Moll - atual Coordenador do Núcleo de Neurociência da Rede Labs-D'Or - acaba de comprovar, cientificamente, o que muitas pessoas já sabiam, ao menos, de forma intuitiva: fazer o bem faz bem - não só para quem recebe, mas também para quem realiza a ação. Além disso, a pesquisa revelou uma relação estreita entre atitudes consideradas altruístas (de fazer o bem ao próximo) e áreas cerebrais ligadas diretamente ao afeto e ao sentimento de pertencer a um grupo.

 

As conclusões são baseadas em experimentos feitos pelo cientista e sua equipe entre 2004 e 2006, utilizando cidadãos norte-americanos voluntários e considerados normais em termos de saúde mental, que participaram anonimamente.

 

Durante os testes, enquanto os participantes tomavam decisões relacionadas a ações de altruísmo, exames de ressonância magnética funcional registravam suas reações. Estas áreas do cérebro iam sendo mapeadas quando eram estimuladas em conseqüência de suas escolhas, que poderiam ser favoráveis ou não, em relação a várias formas de doação em dinheiro para diversas instituições (detalhes do teste no quadro ao lado).

 

O que mais impressionou os cientistas foi a região cerebral conhecida por “área tegmental ventral”, que era estimulada toda vez que algum indivíduo se decidia por ajudar financeiramente alguma causa. Essa parte do cérebro é responsável pelo que os médicos chamam de “sistema de recompensas”, que também é ativado quando um indivíduo realiza ações diretamente ligadas a seu próprio prazer, como, por exemplo, manter relações sexuais, comer ou ganhar dinheiro.

 

 “É importante dizer que essa região também foi estimulada quando os voluntários se decidiam por não doar dinheiro, quando isso resultava num ganho monetário para eles próprios, de acordo com critérios que adotamos nos testes”, diz Jorge Moll.

 

O estudo mostrou ainda que uma outra região cerebral - conhecida como área subgenual -, ao contrário da primeira, era estimulada somente no momento em que os participantes decidiam realizar atos de doação.

 

“A área subgenual é a região cerebral ligada ao afeto e ao sentimento de pertencimento a um grupo. Em testes anteriores, ela era estimulada, por exemplo, no momento em que mães observavam seus próprios bebês”, diz o cientista.

 

Mesmo com os resultados animadores da pesquisa, Jorge Moll alerta que a reação positiva do cérebro em favor de quem doa não é suficiente para convencer alguém a ser altruísta. Segundo ele, a cultura é um fator essencial que influencia diretamente as decisões de cada um.

 

“A vinculação do altruísmo ao sentimento de pertencimento a um grupo não quer dizer que basta você fazer parte dele para ser altruísta. Se esse grupo tiver uma cultura segregadora, por exemplo, você até será altruísta, mas somente entre os membros do grupo”, diz.

 

Outro aspecto que impressionou os pesquisadores foi a relação entre a intensidade dos estímulos das áreas cerebrais e a quantidade de ações de beneficência praticadas na vida real pelos voluntários do teste. Aqueles que afirmaram já praticar atividades altruístas no dia a dia tiveram mais estímulos cerebrais que os que não tinham esse costume. Isso leva a crer que o cérebro poder ser alimentado cada vez mais naquelas áreas, de acordo com o volume de ações praticadas visando o bem do próximo.

 

Mesmo sem querer se envolver em questões relacionadas à política, Moll espera que os resultados de sua pesquisa sirvam de referência para orientar projetos sociais e educacionais.

 

“A política social pode se informar cientificamente, da mesma forma que a Justiça se informa sobre a presença de doenças mentais na hora de imputar ou não uma culpa a alguém. Assim, de acordo com nossas conclusões, apesar das pessoas, em geral, terem hoje um comportamento, de certa forma, egoísta, todas elas têm a capacidade de fazer o bem e se sentirem bem com isso. Se dermos a elas condições e instrumentos apropriados, poderemos gerar uma sociedade cada vez mais altruísta”, finaliza.

 

 

Psicólogo, altruísta e feliz

 

De alguma forma, o psicólogo niteroiense Luiz Felipe Cardoso Santos já sente, há algum tempo, as sensações de prazer descritas nos estudos desenvolvidos por Jorge Moll e sua equipe.

 

Luiz Felipe é um dos coordenadores da ONG (organização não-governamental) Jornal Vivo – Interação e Cidadania, de Niterói, que reúne, entre outros profissionais, um grupo de sete psicólogos que dedicam parte do seu tempo a atender, gratuitamente, indivíduos vítimas de dependência de drogas e outros casos que necessitem de acompanhamento.

 

“O resultado desses estudos só vêm comprovar algo que nós, altruístas já sabíamos, é claro que de forma inconsciente. A comprovação científica de que fazer o bem faz bem é um grande passo para que, cada vez mais, as pessoas se conscientizem de que o altruísmo é uma via de mão dupla que beneficia ambos os lados”, diz o psicólogo e um dos fundadores da ONG.

 

A atual presidente da Jornal Vivo, Lea Lopes de Oliveira, ao saber das conclusões da pesquisa de Jorge Moll – sobre a sensação de prazer desencadeada no cérebro de altruístas - chega a uma conclusão própria. “Deve ser por isso, então, que é praticamente impossível vermos o Luiz Felipe infeliz. Ele é a alegria em pessoa”.

 

A pesquisa

 

Os voluntários que participaram dos testes foram apresentados a 64 instituições diferentes, que iam desde aquelas que defendem causas ligadas ao bem-estar de crianças ou realizam pesquisas buscando a cura de doenças, até as que pregam o aborto ou o armamento da população.

 

Numa primeira fase, todos relataram suas preferências em relação às instituições. Em seguida, as preferências foram catalogadas.

 

Na fase final dos testes, cada uma das pessoas tinha direito a um total de U$ 128 (cerca de R$ 265) que poderiam ser doados ou não às instituições apresentadas, através de cinco opções oferecidas: doação à instituição com ou sem custo para o voluntário, oposição à instituição - também com ou sem custo - e, finalmente, ganho simples de dinheiro pelo voluntário

 

A cada pergunta apresentada, como “você doaria U$ 2 para o Clube do Rifle?”, o voluntário apertava um botão (sim ou não). No momento da escolha, um aparelho de ressonância magnética registrava as partes do cérebro que eram estimuladas, de acordo com a opção de cada pessoa.

 

*Repórter do jornal O Fluminense, de Niterói/RJ

 

                            

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