Edição 119 - Aracaju, 02 de novembro a 07 de dezembro de 2008
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  literatura
Kafka, sempre Kafka
Coletânea de breves histórias revelam Kafka como um escritor eclético e sombrio

Por Pedro Maciel*

"Contos, Fábulas e Aforismos", Franz Kafka, tradução de Ênio Silveira, Ed. Civilização Brasileira

Instruções para descer ao inferno

Franz Kafka viveu sob a influência do imaginário de três culturas: a alemã, a tcheca e a judaica. Nasceu em 3 de julho de 1883 no centro histórico de Praga e morreu de tuberculose no sanatório de Kierling, perto de Viena, no dia 3 de Junho de 1924. No livro Carta ao Pai, Franz, filho de Herman Kafka, negociante prepotente e patriarcal, afirma que este “assumia o que há de enigmático em todos os tiranos, cujo direito está fundado não no pensamento, mas na própria pessoa”.

Em toda a obra de Kafka, nota-se uma profunda semelhança entre a realidade cotidiana do autor e seus personagens autoritários e inatingíveis que atormentam a vida do anti-herói Joseph K. de O Processo e do agrimensor em O Castelo. Os conflitos familiares, os amores contrariados, a doença, a opressão da guerra, incentivaram-no a criar uma obra marcada por situações de subordinação, desprezo e desilusão; situações intoleráveis.

Segundo Camus, “sua obra é universal (uma obra realmente absurda não é universal) na medida em que nela aparece o rosto comovente do homem fugindo da humanidade, extraindo de suas contradições razões para acreditar e de seus desesperos fecundas razões para esperar, e chamando de vida sua apavorante aprendizagem da morte. É universal porque sua inspiração é religiosa. Como em todas as religiões, o homem ali se libertou do peso de sua própria vida”.

Uma das passagens mais curiosas da biografia de Kafka diz respeito às duas notas que ordenam à Max Brod, amigo e testamenteiro, a destruir os manuscritos das obras O Processo e O Castelo. Brod desobedeceu às ordens do temperamental Kafka, e legou à humanidade uma das obras mais complexas e realistas deste mundo degradado e alienado.

Borges anota no prólogo “Kafka: A Metamorfose”, que a obra deste não dispõe de muitos recursos psicológicos e nem se desenvolve pela lógica da fábula. O essencial no autor da famosa narrativa A Metamorfose é o ambiente e o argumento.

“Contos, Fábulas e Aforismos”, de Kafka, textos selecionados dos livros Contos e textos breves, Ao pé da muralha da China e Um médico de aldeia, prova que, talvez, o genial Borges, não esteja totalmente certo. Esta coletânea de textos breves prova a autoridade de um escritor singular, que domina a técnica de vários gêneros literários, de um escritor capaz de inventar o inferno nas horas mais inesperadas, nas horas de sombra e sofrimento, nas horas do vento sob o céu aberto, da terra fechada queimando anjos.

Apesar dos ventos contrários, apesar da inglória e da solidão, Kafka sonhou com o paraíso. O paraíso perdido. Para Kafka, “há dois pecados capitais, de que derivam todos os outros: a impaciência e a preguiça. Devido à impaciência fomos expulsos do Paraíso; devido à preguiça não conseguiremos retornar a ele. Pensando bem, talvez a impaciência seja o mais capital dos pecados: foi por ela que o perdemos, é por ela que não o temos de volta”. O paraíso de Kafka também se encontra debaixo de nossos olhos, ao alcance do nosso desejo. Para ele, o paraíso é como “uma estrada, no outono: basta varrê-la para que de novo se cubra de folhas mortas”.

Kafka é mais conhecido como autor de extensas narrativas, obras-primas da prosa universal, como O Castelo, O Processo e Na Colônia Penal. Mas os textos monolíticos merecem ser lidos com olhos atentos, afinal, foram escritos sob a forma paródica das lendas, parábolas e fábulas. Segundo Walter Benjamim, estes textos são verdadeiros “contos de fadas para dialéticos”, devido à forma original em que Kafka reinventa as histórias. A forma e a matéria dos contos são condensadas, às vezes, em um ou dois parágrafos, revelando-se outras histórias, ou melhor, histórias novas que caracterizam os verdadeiros narradores. As histórias apresentam argumentos distintos, mas repetem-se na essência. Toda literatura é uma reescritura.

“Uma fabulazinha”, que poderia ter sido traduzida como o título de “Pequena Fábula”, é uma narrativa exemplar da velha história do gato que devora o rato. Outros textos, como “A Respeito de Parábolas”, ou “O Abutre”, excluído dessa coletânea, permitem-nos considerá-lo como um dos mais geniais escritores do século XX. Na verdade uma grande parte da obra de Kafka, o que também pode-se dizer de Borges, é uma reescritura de episódios históricos, fábulas e contos populares. Kafka está inserido no movimento dos escritores expressionistas, mas os relatos kafkanianos é a história que sonha a civilização contemporânea.

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Aforismos de Kafka

“A partir de certo ponto não há mais qualquer possibilidade de retorno. É exatamente esse o ponto que devemos alcançar.”

“O momento decisivo no desenvolvimento humano é um todo contínuo. É por isso que estão certos os movimentos revolucionários, que declaram nulo ou inútil tudo o que ocorreu antes deles, pois nada aconteceu ainda.”

“Um homem se espantou com a destreza com que alcançou a eternidade. Não percebeu que retrocedera até lá.”

“Não precisa sair de teu quarto. Permanece sentado à tua mesa e escuta. Não, nem mesmo escutes, simplesmente espera. Não, nem mesmo espera. Fica imóvel e solitário. O mundo simplesmente se oferecerá a ti, para ser desmascarado. Ele não tem escolha, e acabará rolando em êxtase a teus pés.”

(“De aforismos, reflexões sobre o pecado, a dor, a esperança, e o caminho certo de Franz Kafka”; do livro Contos, fábulas e aforismos, tradução de Ênio Silveira; Ed. Civilização Brasileira.).

Originalmente publicado no caderno Prosa & Verso do jornal O Globo

*Escritor, autor do romance A Hora dos Náufragos, Ed. Bertrand Brasil. E-mail: pedro_maciel@uol.com.br