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poesia Emily Dickinson e a voz da imortalidade Poeta inaugura a fase moderna da poesia norte-americana
Por Pedro Maciel*
Quanto mais nobre o gênio menos nobre o destino Emily Dickinson (1830/1886) inaugura a fase moderna da poesia norte-americana. Coube a ela, com suas imagens e visões, criar uma nova estética. Emily tratou de temas universais, como a vida e a renúncia, o amor e a dor, a fé e Deus e, sobretudo, a imortalidade. Emily, com seu espírito atormentado, e desesperançado abordou ao mesmo tempo a morte e a imortalidade. Aflorou suas agonias e êxtases para transcender desse mundo rotineiro e banal: “Viver é assombroso, nem deixa lugar para qualquer outra ocupação”. Ela viveu reclusa quase a vida toda na cidade onde morava, Amherst, em Massachusetts. Emily não publicou nenhum livro em vida. Em 1862 o crítico Thomas Higginson recebia uma carta da poeta pedindo sua opinião sobre quatro poemas. O crítico ficou perplexo com as inovações estéticas e escreveu-lhe pedindo para adiar a publicação dos poemas. Emily respondeu: “Sorrio quando você sugere que eu protele a “publicação” _ o que está longe de meus projetos, como o firmamento dos dedos _ se eu conhecesse a fama, eu não poderia fugir a ela _ se não a conhecesse, ela me perseguiria o dia inteiro _ e eu perderia a aprovação de meu cachorro _ minha condição de mendigo é melhor.” Os poemas de Emily foram publicados em 1890, quatro anos após a sua morte, numa edição de 480 exemplares, custeados pela sua irmã mais nova. Só em 1954 toda a sua obra (1.775 poemas), ganha uma edição completa e definitiva. Os editores e críticos alegavam que “os poemas são bizarros e as rimas enviesadas”. Poeta “inspirada”, incompreendida em sua época, seus versos revelam a ruptura do ritmo cadenciado dos românticos, a sintaxe telegráfica, a condensação do pensamento e mostram a livre pontuação com travessões, substituindo os pontos e vírgulas e criando poemas fragmentados, já totalmente modernos. “50 Poemas”, de Emily Dickinson (Ed. Imago), traduzidos por Isa Marà Lando, infelizmente, é um equívoco de interpretação. Os poemas se perdem na busca do ritmo e das idéias que jogam com a analogia, essência do método dickinsoniano de poetar. Talvez o poeta devesse ser traduzido apenas por um outro poeta. Afinal, nem todos dominam a melodia “controlada por palavras-chave, cada parte expressando o todo”, e nem a alteração da batida métrica que “retarda ou acelera o próprio tempo” _ dimensões que nem sempre são apreendidas pelos tradutores ou críticos. No Brasil, Augusto de Campos, em “O anticrítico” (Cia das Letras) e Ana Cristina César, tradutora de alguns poemas publicados em suplementos, conseguiram transcriar a densidade de Dickinson. “Emily é intraduzível, e em português mais do que qualquer outra língua. Tínhamos alguma suspeita disso. Terrível Emily! Realiza o máximo de magia com o mínimo de sons...”, anotou o crítico Paulo Rónai na introdução de “Uma centena de poemas”, tradução de Aíla de Oliveira Gomes (Queiroz Editor). Para concluir esta breve notícia sobre a poesia de Emily Dickinson, é bom ressaltar que, ela e Walt Whitman (os dois principais nomes da poesia norte-americana do século 19), não falam a mesma língua poética. Emily filia-se à tradição apolínea, ao contrário de Walt Whitman, autor do épico Leaves of Grass, poeta dionisíaco, peregrino, uma espécie de avô dos beats, cantador que mapeou a nova terra americana. Enquanto Emily é poeta dos monossílabos, da linguagem sintética, das verdades nas entrelinhas: “Dizer toda a verdade, mas obliquamente”. Na poesia de Emily os versos falam baixo, fazem um silêncio quase religioso. Não há lamento, choradeira ou autopiedade, e sim a experiência sensível, pronta para resgatar o mundo metafísico e lúdico para o nível humano, demasiadamente humano. *** Duas versões para um mesmo poema
The Dying need but little, Dear
Quem está morrendo, amor, Quem morre,
Querido, de pouco precisa *Escritor, autor dos romances A hora dos náufragos (Editora Betrand Brasil) e Como deixei de ser Deus (Editora Topbooks). E-mail: pedro_maciel@uol.com.br Texto originalmente publicado no caderno Ideias/Livros do Jornal do Brasil. |