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Música O som da parede ”Música sempre foi
uma coisa presente na minha vida”, diz Pedro Luís, uma das vozes da nova
geração de cantores e compositores cariocas
Ele
é a favor da Pena de Vida (“... se o sujeito cagou/ Pisou na Bola/ Tem
que resolver aqui, não pode cair fora...”) e também assinou com seus amigos
de A Parede (Sidon Silva, C.A. Ferrari, Celso Alvim e Mário Moura), Caio
no Suinge (“Eu caio no suingue é pra me consolar/ É que essa vida não tá
mole, eu faço assim pra me segurar...”). Pedro Luís - carioca da Tijuca - é o
vocalista e principal compositor do Plap (Pedro Luís e A Parede), grupo
formado em 1996 e uma das maiores novidades da nova música carioca, na época.
Do Plap, surgiu o Monobloco, um dos maiores blocos do Rio – do qual Pedro é o
puxador - que, mesmo desfilando depois do carnaval, arrasta dezenas de
milhares de pessoas pela orla carioca ao som de um repertório que vai de
sambas consagrados ao mais puro funk, passeando por sucessos do rock e do
pop, tudo arranjado especialmente para o bloco, cuja bateria é formada, em
sua maioria, por alunos das oficinas de percussão ministradas pelo Plap ao
longo do ano no Rio. Conheça um pouco mais desse “garoto” de 46 anos que,
pelo jeito, ainda acha que Tudo vale a pena (“Rio da leveza desse
povo/ Carregado de calor e de luta/ Povo Bamba/ Cai no samba, dança o funk/
Tem suingue até no jeito de olhar”). *** BN - Quem inventou o Monobloco?
Pedro Luís - O Monobloco foi uma criação
coletiva e não uma coisa que tenha partido só de mim. Inclusive, o pessoal da
Parede cuida muito mais do Monobloco do que eu atualmente, pois eles ficam o
ano todo fazendo a oficina, que gera a bateria. Hoje, sou o cantor e ajudo a
coordenar a coisa toda. BN -
Como apareceu a música na sua vida? P.L. - Música sempre foi uma coisa
presente na minha família. Minhas irmãs mais velhas cantavam em festivais
estudantis na época da ditadura e meu pai dava força. Lembro que ele comprou
um violão pra elas que foi batizado de “Lobuarque”, uma mistura de Edu Lobo
com Chico Buarque... Eu comecei nesse bolo. Na minha rua (Carvalho Alvim), na
Tijuca, também tinha muita gente que tocava. No início, minha mãe dizia que eu
tinha som de lata velha. Continuo tendo, mas acho que ela se acostumou e
passou a gostar (risos). BN -
E o lado compositor, como surgiu? P.L. - Me arrisquei a compor antes
de 10 anos de idade. Lá em casa, cultivava-se o gosto pela poesia. Meu pai
era juiz de direito e escrevia “bilaquianamente”, com rimas, quadras e
estruturas bem definidas... mas não fazia isso profissionalmente. BN -
De onde vem o engajamento tão presente em suas letras? P.L. - Acho que vem de família.
Minhas irmãs chegaram a participar de grêmios na época da ditadura e se
engajavam no movimento estudantil. Meu pai tinha sido comunista, na Era
Vargas. Foi preso, fugiu, mudou de nome... isso, na década de 40. Sempre
discuti política em casa. BN -
Sempre foi “Pedro Luís e A Parede” ou tinha “o Pedro Luís” e “A Parede”? P.L. - Pedro Luís e A Parede foi uma
coisa que veio junta. Em 92, fui chamado para dirigir a cantora Arícia Mess,
que até hoje faz algumas coisas comigo. Quase toda A Parede passou por esse
trabalho. O Mário, o C.A. e o Sidon já estavam e ficavam botando pilha: “Por
que você não faz um trabalho só com suas músicas?”. Até que fui convidado pra
um evento e decidi começar um trabalho próprio. Chamei os caras e mais o
Celso e começamos a ensaiar, pensando em fazer um negócio dançante e
portátil. A idéia era, de vez em quando, nos alinharmos como uma parede
sonora. No dia do show, o Michel Melamed, que produzia o evento, perguntou:
“Como é que eu anuncio vocês ?”. Eu falei: “Ah, não sei, fala que é Pedro
Luís e A Parede”. BN -
Como surgiu o Monobloco? P.L. - Estávamos na final da turnê
de É tudo 1 real (2º disco do Plap), no fim de 1999, e não queríamos
nos dispersar até o próximo disco. Então, montamos uma oficina no Sesc Vila
Mariana, em São Paulo, onde outros grupos costumavam dar oficinas e fazer um
show no final. Deu super certo. Quando voltamos ao Rio, procuramos a
prefeitura, sugerimos realizar uma oficina permanente e o projeto foi
aprovado. O nome Monobloco, nós já tínhamos usado no É tudo 1 real..
Se você olhar o encarte, vai ver escrito lá. BN -
O bloco surgiu junto com a oficina? P.L. - A idéia veio quase em
paralelo. No início, tínhamos uns 80, 90 alunos, o que já dava pra formar o
bloco. Aí, começamos a pensar: “Vamos fazer o quê? Já que não tocamos só
samba, apesar de usarmos os instrumentos de bateria de escola de samba, vamos
fazer uma espécie de baile, chamar alguém pra cantar, botar um
cavaquinho....” e começamos a desenhar uma festa. BN -
Como você explica tanto sucesso? P.L. - No início, já havia um boca a
boca sobre a criação do Monobloco. Chamamos alguns amigos que já eram famosos
pra participar das primeiras festas, como o Herbert Vianna e a Fernanda
Abreu. Na primeira sexta-feira, muita gente foi por causa da presença do
Herbert, achando que era show do Paralamas (risos)! Já na semana seguinte,
lotou tanto que tivemos que fechar a porta. O primeiro desfile ocorreu do
Planetário até a Praça do Jóquei e juntou 10 mil pessoas. Fomos administrando
e ampliamos a oficina até ela ir pra Fundição Progresso, onde está há cinco
anos. BN -
Hoje, quantas pessoas saem no Monobloco? P.L. - Acho que umas 80 mil pessoas. BN -
Esse número te assusta? P.L. - Assusta um pouco porque temos
a responsabilidade de manter o evento num clima de paz. Mas o público do Monobloco
já tem o espírito de brincar nesse clima. Até aquele playboy que iria
pra arrumar confusão fica constrangido quando percebe que o espírito da coisa
não é esse. BN -
Você acha que o Monobloco superou o Plap em termos de sucesso? Vocês são
concorrentes de vocês mesmos? P.L. - O Monobloco é um fenômeno
pop. Os dois são muito diferentes. Tem gente que conhece o Monobloco e nem
sabe que Pedro Luís e A Parede existe. BN -
Muita gente te chama de Pedro Luís e A Parede? P.L. - Toda hora! Tem gente que me
chama de Pedro Luís Parede e pergunta de onde veio esse “sobrenome”
(risos).... BN -
Este ano, quando é o defile do Monobloco? P.L. - No Rio, nós tocamos todas as
sextas de fevereiro e desfilamos no dia 25, depois do Carnaval, na Praia de
Copacabana. BN - Por que o carnaval de rua
carioca está se revitalizando ? P.L. -
No final dos anos 70, alguns blocos da Zona Sul já vinham criando uma nova
forma de brincar na rua. O Cordão do Boitatá, no final dos anos 90, começou a
recriar aquela coisa dos cordões. Depois, veio o Flor do Sereno, aparece o
Monobloco, Bangalafumenga... as pessoas começaram a perceber que não
precisavam mais sair do Rio pra brincar o carnaval. Hoje, só falta a
prefeitura e a iniciativa privada entenderem que isso é uma coisa bacana e investir.
Nosso desfile é um sucesso, mas também é uma loucura, um monstro que a gente
criou e que custa uma grana preta! BN - Quanto? P.L. -
Em torno de R$ 80 mil. BN - Não tem patrocínio? P.L. -
Não. A gente consegue alguns patrocinadores para as festas ao logo do ano.
Aí, desviamos o dinheiro para investir no desfile do bloco. BN - As oficinas do Monobloco
poderiam ser usadas como projeto de inclusão social? P.L. -
A Parede já deu aula na Rocinha e tem projetos que precisam de parceiros. BN - Pedro Luís, com todo seu
engajamento, se fosse secretário de cultura do Rio, faria o quê? P.L. -
Não faria nada, seria uma tragédia! O que eu tenho que fazer é tocar e compor
alguma coisa que preste. *Repórter do jornal O Fluminense,
de Niterói/RJ
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