Webjornal - Mensal  - Edição 99 - Aracaju, 04 de março a 01 de abril de 2007
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Música

O som da parede

”Música sempre foi uma coisa presente na minha vida”, diz Pedro Luís, uma das vozes da nova geração de cantores e compositores cariocas

Por Paulo Marcio Vaz*
Foto Vanessa Fernandes/O Fluminense

Ele é a favor da Pena de Vida (“... se o sujeito cagou/ Pisou na Bola/ Tem que resolver aqui, não pode cair fora...”) e também assinou com seus amigos de A Parede (Sidon Silva, C.A. Ferrari, Celso Alvim e Mário Moura), Caio no Suinge (“Eu caio no suingue é pra me consolar/ É que essa vida não tá mole, eu faço assim pra me segurar...”). Pedro Luís - carioca da Tijuca - é o vocalista e principal compositor do Plap (Pedro Luís e A Parede), grupo formado em 1996 e uma das maiores novidades da nova música carioca, na época. Do Plap, surgiu o Monobloco, um dos maiores blocos do Rio – do qual Pedro é o puxador - que, mesmo desfilando depois do carnaval, arrasta dezenas de milhares de pessoas pela orla carioca ao som de um repertório que vai de sambas consagrados ao mais puro funk, passeando por sucessos do rock e do pop, tudo arranjado especialmente para o bloco, cuja bateria é formada, em sua maioria, por alunos das oficinas de percussão ministradas pelo Plap ao longo do ano no Rio. Conheça um pouco mais desse “garoto” de 46 anos que, pelo jeito, ainda acha que Tudo vale a pena (“Rio da leveza desse povo/ Carregado de calor e de luta/ Povo Bamba/ Cai no samba, dança o funk/ Tem suingue até no jeito de olhar”).

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BN - Quem inventou o Monobloco?

Pedro Luís - O Monobloco foi uma criação coletiva e não uma coisa que tenha partido só de mim. Inclusive, o pessoal da Parede cuida muito mais do Monobloco do que eu atualmente, pois eles ficam o ano todo fazendo a oficina, que gera a bateria. Hoje, sou o cantor e ajudo a coordenar a coisa toda.

 

BN - Como apareceu a música na sua vida?

P.L. - Música sempre foi uma coisa presente na minha família. Minhas irmãs mais velhas cantavam em festivais estudantis na época da ditadura e meu pai dava força. Lembro que ele comprou um violão pra elas que foi batizado de “Lobuarque”, uma mistura de Edu Lobo com Chico Buarque... Eu comecei nesse bolo. Na minha rua (Carvalho Alvim), na Tijuca, também tinha muita gente que tocava. No início, minha mãe dizia que eu tinha som de lata velha. Continuo tendo, mas acho que ela se acostumou e passou a gostar (risos).

 

BN - E o lado compositor, como surgiu?

P.L. - Me arrisquei a compor antes de 10 anos de idade. Lá em casa, cultivava-se o gosto pela poesia. Meu pai era juiz de direito e escrevia “bilaquianamente”, com rimas, quadras e estruturas bem definidas... mas não fazia isso profissionalmente.

 

 

BN - De onde vem o engajamento tão presente em suas letras?

P.L. - Acho que vem de família. Minhas irmãs chegaram a participar de grêmios na época da ditadura e se engajavam no movimento estudantil. Meu pai tinha sido comunista, na Era Vargas. Foi preso, fugiu, mudou de nome... isso, na década de 40. Sempre discuti política em casa.

 

BN - Sempre foi “Pedro Luís e A Parede” ou tinha “o Pedro Luís” e “A Parede”?

P.L. - Pedro Luís e A Parede foi uma coisa que veio junta. Em 92, fui chamado para dirigir a cantora Arícia Mess, que até hoje faz algumas coisas comigo. Quase toda A Parede passou por esse trabalho. O Mário, o C.A. e o Sidon já estavam e ficavam botando pilha: “Por que você não faz um trabalho só com suas músicas?”. Até que fui convidado pra um evento e decidi começar um trabalho próprio. Chamei os caras e mais o Celso e começamos a ensaiar, pensando em fazer um negócio dançante e portátil. A idéia era, de vez em quando, nos alinharmos como uma parede sonora. No dia do show, o Michel Melamed, que produzia o evento, perguntou: “Como é que eu anuncio vocês ?”. Eu falei: “Ah, não sei, fala que é Pedro Luís e A Parede”.

 

BN - Como surgiu o Monobloco?

P.L. - Estávamos na final da turnê de É tudo 1 real (2º disco do Plap), no fim de 1999, e não queríamos nos dispersar até o próximo disco. Então, montamos uma oficina no Sesc Vila Mariana, em São Paulo, onde outros grupos costumavam dar oficinas e fazer um show no final. Deu super certo. Quando voltamos ao Rio, procuramos a prefeitura, sugerimos realizar uma oficina permanente e o projeto foi aprovado. O nome Monobloco, nós já tínhamos usado no É tudo 1 real.. Se você olhar o encarte, vai ver escrito lá.

 

BN - O bloco surgiu junto com a oficina?

P.L. - A idéia veio quase em paralelo. No início, tínhamos uns 80, 90 alunos, o que já dava pra formar o bloco. Aí, começamos a pensar: “Vamos fazer o quê? Já que não tocamos só samba, apesar de usarmos os instrumentos de bateria de escola de samba, vamos fazer uma espécie de baile, chamar alguém pra cantar, botar um cavaquinho....” e começamos a desenhar uma festa.

 

BN - Como você explica tanto sucesso?

P.L. - No início, já havia um boca a boca sobre a criação do Monobloco. Chamamos alguns amigos que já eram famosos pra participar das primeiras festas, como o Herbert Vianna e a Fernanda Abreu. Na primeira sexta-feira, muita gente foi por causa da presença do Herbert, achando que era show do Paralamas (risos)! Já na semana seguinte, lotou tanto que tivemos que fechar a porta. O primeiro desfile ocorreu do Planetário até a Praça do Jóquei e juntou 10 mil pessoas. Fomos administrando e ampliamos a oficina até ela ir pra Fundição Progresso, onde está há cinco anos.

 

BN - Hoje, quantas pessoas saem no Monobloco?

P.L. - Acho que umas 80 mil pessoas.

 

BN - Esse número te assusta?

P.L. - Assusta um pouco porque temos a responsabilidade de manter o evento num clima de paz. Mas o público do Monobloco já tem o espírito de brincar nesse clima. Até aquele playboy que iria pra arrumar confusão fica constrangido quando percebe que o espírito da coisa não é esse.

 

BN - Você acha que o Monobloco superou o Plap em termos de sucesso? Vocês são concorrentes de vocês mesmos?

P.L. - O Monobloco é um fenômeno pop. Os dois são muito diferentes. Tem gente que conhece o Monobloco e nem sabe que Pedro Luís e A Parede existe.

 

BN - Muita gente te chama de Pedro Luís e A Parede?

P.L. - Toda hora! Tem gente que me chama de Pedro Luís Parede e pergunta de onde veio esse “sobrenome” (risos)....

 

BN - Este ano, quando é o defile do Monobloco?

P.L. - No Rio, nós tocamos todas as sextas de fevereiro e desfilamos no dia 25, depois do Carnaval, na Praia de Copacabana.

 

BN - Por que o carnaval de rua carioca está se revitalizando ?

P.L. - No final dos anos 70, alguns blocos da Zona Sul já vinham criando uma nova forma de brincar na rua. O Cordão do Boitatá, no final dos anos 90, começou a recriar aquela coisa dos cordões. Depois, veio o Flor do Sereno, aparece o Monobloco, Bangalafumenga... as pessoas começaram a perceber que não precisavam mais sair do Rio pra brincar o carnaval. Hoje, só falta a prefeitura e a iniciativa privada entenderem que isso é uma coisa bacana e investir. Nosso desfile é um sucesso, mas também é uma loucura, um monstro que a gente criou e que custa uma grana preta!

 

BN - Quanto?

P.L. - Em torno de R$ 80 mil.

 

BN - Não tem patrocínio?

P.L. - Não. A gente consegue alguns patrocinadores para as festas ao logo do ano. Aí, desviamos o dinheiro para investir no desfile do bloco.

 

BN - As oficinas do Monobloco poderiam ser usadas como projeto de inclusão social?

P.L. - A Parede já deu aula na Rocinha e tem projetos que precisam de parceiros.

 

BN - Pedro Luís, com todo seu engajamento, se fosse secretário de cultura do Rio, faria o quê?

P.L. - Não faria nada, seria uma tragédia! O que eu tenho que fazer é tocar e compor alguma coisa que preste.

 

*Repórter do jornal O Fluminense, de Niterói/RJ

                                                                                                                                                  

  

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