Edição 111 - Aracaju, 16 de março a 13 de abril de 2008
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  geografia
Mundo em desordem
A difícil tarefa de atualizar atlas

Por Paulo Marcio Vaz*
Ilustração Onewayviajes
 

Djibuti, Kiribati, Lesoto, Nauru e Palau podem ser nomes estranhos para muita gente, mas não para os geógrafos e cartógrafos. Saber das particularidades de países pouquíssimos conhecidos como esses é apenas parte do desafio dos profissionais que precisam manter o mapa-mundi sempre atualizado em tempos de mudanças climáticas bruscas, avanços tecnológicos frenéticos e recentes declarações de independência de ex-colônias como Timor Leste e territórios como Kosovo. Manter atualizado o bom e velho atlas geográfico que, apesar da internet, ainda faz parte das listas de material escolar, é um duro desafio a ser vencido dia a dia.

O historiador e geógrafo brasileiro Douglas Michalany é um bom exemplo de profissional experiente que luta para superar as dificuldades impostas pelas constantes mudanças no cenário sócio-político e geográfico atual. Dono da Editora Michalany, ele já publicou 55 edições de seu Atlas Geográfico Mundial e prepara-se para lançar a 56ª no fim deste mês. Quando o trabalho de produção da nova edição já estava terminado, ele foi pego de surpresa com a declaração de independência do Kosovo.

- Infelizmente, não deu para mandar parar as máquinas e refazer a impressão - lamenta.

Mas deu, por exemplo, para excluir Júpiter da lista de planetas. Portanto, mesmo sem a nova situação política do Kosovo, Michalany aconselha a compra de seu novo atlas para quem não quiser, por exemplo, se confundir na prova de Ciências.

- De todos os livros escolares, o atlas talvez seja o que mais freqüentemente precise ser atualizado. Se você tem um atlas com mais de dois anos de uso, pode ter certeza que ele já está velho - adverte.

Para manter, dentro do possível, suas edições atualizadas, o historiador está em contato permanente com fontes de informações como IBGE, Nasa, OEA e ONU. Mesmo assim, quando todos os dados estão checados e confirmados, ainda há problemas, principalmente relacionados à falta de consenso em questões políticas.

- Em meu atlas, considero a Palestina, por exemplo, como se fosse um país. Apenas coloco um adendo informando que a região ainda não é reconhecida oficialmente como tal. Já em outros atlas, pode ser que não seja adotado esse critério - lembra Micheliny.

O doutor em geografia e professor do Insituto de Geografia da Uerj Rafael Straforini concorda que a tarefa de se manter um atlas atualizado não é das mais fáceis.

- É um exercício infindável e que, às vezes, envolve avaliações muito difíceis. Para elaborar um atlas, o profissional precisa estar muito antenado às transformações físicas, sociais e políticas - observa.

Straforini reclama da pouca variedade de atlas escolares brasileiros disponíveis hoje e lembra que o risco de alguém comprar uma edição desatualizada aumenta devido ao período de avaliação de livros escolares adotado pelo MEC:

- O MEC faz revisões na lista de livros escolares, em  média, a cada três anos. Um atlas não resiste a tanto tempo - opina.

Reflexo de ideologias

No Canadá, alguns mapas escolares não consideram a América Central um continente, incorporando-a à América do Sul. Já nos Estados Unidos, o México às vezes é excluído da América do Norte, que fica apenas com o EUA e Canadá, países desenvolvidos e de origem anglo-saxã. Por essas e outras, o geógrafo Rafael Straforini não considera o atlas um mero conjunto de mapas e informações geográficas, mas um livro que, como muitos outros, reflete a ideologia de quem o concebeu.

- Nos atlas há uma linguagem carregada de conteúdos simbólicos políticos e ideológicos. Não existe atlas neutro nem universal - opina.

Straforini mostra o exemplo da situação do Kosovo, que recentemente se declarou independente, apesar de não ser reconhecido por países como Sérvia, Rússia e Espanha. Segundo o geógrafo, a opção de se colocar ou não o Kosovo no mapa depende de ideologia. Provavelmente, um atlas sérvio não irá considerar a separação do Kosovo, enquanto um atlas americano o fará.

- Se eu tivesse que fazer um atlas brasileiro hoje, recomendaria que fosse incluído a separação do Kosovo, mas seria necessário explicar a situação claramente. Para facilitar, um grande mapa da antiga Iugoslávia poderia ser incluído em uma página especial, contando toda a história de declaração de independência dos países que faziam parte daquela região - aconselha.

A influência do Google

Ferramentas tecnológicas como o Google Earth, que possibilita o acesso pela internet a imagens de satélite de praticamente qualquer ponto do planeta, têm criado alguma confusão em relação à comparação desse tipo de ferramenta com os tradicionais atlas escolares. Prova disso é a queda nas vendas de atlas desde quando a internet assumiu o papel principal na hora de se consultar onde fica determinado lugar do planeta.

- De uns anos para cá, as vendas de atlas escolares vêm caindo, apesar de eles sempre constarem da lista de material divulgada pelas escolas - analisa Cláudia Rodrigues, que trabalha há 15 vendendo material escolar como gerente da Papelaria e Livraria Ideal, em Niterói.

O professor de geografia Rafael Straforini faz questão de lembrar que o Google Earth e seus similares não têm como substituir o atlas, mas podem servir como ferramenta auxiliar no ensino de geografia.

- O Google Earth nos mostra apenas imagens do mundo real. O que o atlas apresenta é uma leitura dessas imagens. São coisas diferentes - observa.

Straforini diz que, em sala de aula, o professor deve fazer uso das imagens de satélite como feramentas auxiliares, pois "só o atlas pode fornecer as informações relativas às características específicas de cada região". O historiador e editor Douglas Michalany concorda:

- A internet é uma faca de dois gumes que, às vezes, não dá uma explicação completa. É tudo muito superficial. É preciso muito conhecimento para saber onde estão as fontes que, em geral, ficam muito espalhadas na rede. O atlas ainda é a melhor opção, pois as informações estão todas juntas.

*Repórter do Jornal do Brasil.  E-mail: paulomarciovaz@gmail.com