Edição 113 - Aracaju, 11 de maio  08 de junho de 2008
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  cidade
Porto Alegre tri-legal
Andanças de um fluminense nos pampas

Por Paulo Marcio Vaz*

Só pra explicar: cariocas são todos fluminenses, mas nem todo fluminense é carioca. Esse é meu caso, já que sou de Niterói. Aliás, que fique claro: fluminense de nascimento, mas flamenguista desde então. Espero que tenham entendido.

Já tinha ido a Porto Alegre umas duas vezes, sempre a trabalho. Dessa vez, não foi diferente. Aliás, foi. De novo na terra de Falcão e Renato, o Gaúcho, fui cobrir um evento relacionado a uma empresa de tecnologia. Mas, dessa vez, ao menos deu pra passar metade de uma tarde conhecendo a cidade. 

É claro que, além dos gaúchos, quem já foi a Porto e teve, ao menos, meia-tarde pra conhecer a cidade não vai se impressionar com esta crônica. Mas espero que seja útil pra quem ainda não foi, ou foi a trabalho e só conheceu o hotel, o aeroporto e o escritório do cliente. 

Uma das coisas que me impressionou foi a quantidade e, principalmente, o tamanho das praças públicas. Espaço de sobra e árvores em abundância. Numa delas, o Parque Farroupilha, a popular Redenção, mesmo um campo de futebol em tamanho oficial e um parque de diversões não são suficientes para ocupar todo o espaço. Em outra, o Parque da Harmonia, ao lado do Tribunal Regional Federal, um grande descampado, onde carros podem entrar livremente. Aliás, apesar da proximidade da Lei, o lugar costuma ser o ideal para o “crime perfeito”: em, carioquês, a velha “volta na dona encrenca”, ou seja, adultério. Eu não cometi, mas vi muita gente cometendo. Enfim, deixa quieto. Em meia-tarde, não deu pra conhecer outras praças, mas elas existem e, pelo que me disseram, são perfeitas para qualquer diversão, até mesmo, a tal da “volta”. 

Há também o conserto de gaitas. Nesse caso, seria cômico, se não fosse trágico. A gaita, no Rio Grande do Sul, é a nossa boa e velha sanfona. Mas não só isso. Antigamente, podia-se ver até nas áreas nobres de Porto Alegre, anúncios espalhados com os dizeres: “Consertam-se gaitas”. Hoje, é mais difícil se encontrar esse tipo de publicidade em bairros como o Bonfim, mas meu cunhado, Gaúcho, me garantiu que ainda se consertam gaitas, com direito a anúncios no Centro e na periferia. Os leitores devem estar pensando: mas que mal há em se consertar gaitas? O assunto requer mais de um parágrafo. Respire fundo e vá em frente. 

Há tempos, ao menos em Porto Alegre, gaita não é mais somente sinônimo de instrumento musical. Também quer dizer barriga. Mais precisamente, barriga de grávida. A associação com a gaita é no sentido de fole da sanfona, que estica e depois se retrai, como a barriga de quem espera um bebê. Os mais espertos já devem ter percebido o sentido de “Consertam-se gaitas”. O instrumento é realmente popular no Sul, mas não ao ponto de haver “consertadores” por todo o lado. Para quem não entendeu ainda, lá vai: “Conserta-se gaita” quer dizer “Faz-se abortos”. 

Para não terminar em clima pesado, vamos a uma história que eu, particularmente, desconhecia. Em Porto, “tri” é uma gíria já consagrada para designar algo grandioso. “trilegal” é “bom demais”. “trigrande” é “imenso”. Enfim, tudo que é “tri”, é fora do padrão, num sentido de grandiosidade. Isso eu já sabia. Mas desconhecia a origem e me surpreendi ao saber que o hábito é relativamente novo. Para equilibrar com a história da “gaita”, vamos também dedicar dois parágrafos. 

O “tri” como gíria foi adotado graças ao tricampeonato brasileiro de 1979, conquistado pelo Internacional, arqui-rival do Grêmio. A partir daí, tudo era “tri” para a torcida colorada. Com o tempo, o tri virou gíria e nem os gremistas foram capazes de fugir do hábito. Aliás, diga-se de passagem, quem me contou a história foi meu cunhado tricolor. Daqui a pouco, estou voltando para Niterói. Foi bom passar meia-tarde curtindo Porto Alegre. Tribom, com exceção das gaitas.

*Jornalista. E-mail: paulomarciovaz@gmail.com