Webjornal - Mensal - Edição 100 - Aracaju,  08 de abril a 06 de maio 2007
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Portugal Online

Respostas mães de perguntas

Por Margarida Ribeiro*

 

“Não há escolha racional acertada sem emoções e intuição, defendeu um grupo de cientistas, entre os quais o português António Damásio, num artigo publicado na revista Nature. As emoções, concluíram, desempenham um papel fundamental no nosso juízo moral. Segundo os investigadores, somos capazes da escolha moral mais humana e menos utilitária por causa do nosso cérebro emocional e os indivíduos que optam pela segunda hipótese apresentam lesões cerebrais, na região do córtex prefrontral ventromedial, situado ao nível da testa. A estes indivíduos falta-lhes empatia e compaixão; têm geralmente menores reacções emocionais de dimensão social (compaixão, vergonha, culpabilidade) sem que a sua inteligência e a sua lógica sejam afectadas.


No jornal Diário de Notícias

 

 

Os estudos sobre a inteligência emocional têm prosseguido sem se tornarem tão conhecidos que dêem origem às polémicas que um dia hão-de criar. Prova-se cada vez mais que os seres humanos agem sob condições dos respectivos cérebros, cujas lesões podem ser comparadas, em termos de “culpa própria”, a outras lesões congénitas que levam a doenças, a invalidez ou à imbecilidade.

 

Sabendo nós que algumas pessoas nascem sem a possibilidade de sentir compaixão, vergonha, culpa – tal como algumas pessoas nascem sem possibilidade de compreender os mais simples conceitos – talvez se venha a chegar à conclusão de que são inimputáveis, mesmo que a sua inteligência pareça absolutamente normal e com ela tenham planeado e efectuado os mais horrorosos crimes.

 

Que sejam inimputáveis, só por si, exigirá medidas diferentes das penas agora sofridas, mas é apenas um alargamento de sistemas que já existem.

 

Outra questão surgirá quando se tornar simples e comum a verificação da existência de lesões no cérebro, tal como hoje é feita a um recém-nascido ou a pessoas de outras idades a respeito das suas funções vitais.

 

Perante um comum idiota, dos que simpaticamente nos incomodam com tentativas de conversas sem sentido, todos nós sabemos dar o desconto, quer a irrelevâncias, quer a frases desadequadas. Geralmente são mesmo acarinhados pelos vizinhos. Ninguém se inquieta por eles não compreenderem coisas óbvias. Sabemos que eles NÃO PODEM compreender devido a lesões cerebrais.

 

Mas ninguém se lembraria de lhes permitir a entrada em qualquer reunião onde fosse indispensável a contenção, a circunspecção e o estudo sério de uma qualquer questão. Seria sabido que seriam incapazes de deixar de perturbar os trabalhos porque as deficiências no seu cérebro a isso inevitavelmente o levariam.

 

O que deverá a sociedade fazer perante um ser humano inteligente e aparentemente normal que, comprovadamente, NÃO POSSA sentir culpa, vergonha, compaixão? Será certo que, perante a possibilidade de um qualquer lucro, seja ele material ou imaterial, ele não terá nenhuma das defesas naturais que nos impedem de, desejando fazer um mal, não o fazer.

 

É um criminoso potencial.

 

Será que se inventará uma cura para essa lesão cerebral e ela seja imposta pela sociedade?

 

Ou, na falta da cura, essas pessoas serão vigiadas por um “big brother” defensor da sociedade?

 

Tantas perguntas são projectadas pelas respostas que a ciência nos vai dando…

 

Professora portuguesa,  reside em Castelo Branco,  Portugal
Blog da autora: http://encostada.blogspot.com/

 

     

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