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Portugal
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O Peso
do Passado
Por Margarida Ribeiro*
Agarramo-nos
às coisas velhas. Limpamos ruínas, reconstruímos casas centenárias,
encantamo-nos com a beleza das velhas aldeias recuperadas. E cada um de nós,
em sua casa, guarda em algum canto ao menos um objecto já inútil,
herdado do fundo dos tempos.
Uma
vez, um americano disse-me que o impressionava mal a mania que nós aqui
temos de guardar recordações. Que era como se não pudéssemos largar o
passado e caminhar em frente libertos desse peso.
Eu olho
para as minhas prateleiras e sorrio.
Lá estão
os livros que na minha família têm sido deixados de geração em geração
desde o séc. XVIII. Lembram-me o meu tio-avô poeta que os recebeu e
guardou, que eu não conheci, mas cujo gosto pelas letras vejo reviver em
mim.
Ao lado
está um velho fuso de fiar linho. Rodou nas mãos de uma avó, no tempo
em que cada noiva tecia o seu enxoval. Vê-lo dá uma espessura de vida à
toalha antiga que às vezes ainda ponho na mesa, feita pelas mãos que me
legaram o gosto de bordar.
O
antigo ferro de engomar, para sempre negro do calor das brasas, grita-me
censuras se me queixo do cansaço dos trabalhos caseiros e conta-me histórias
dos linhos brancos e das sedas espessas que vejo nas velhas fotografias de
família.
Sei
muito bem que as coisas velhas não são um peso. É
emocionante descobrir os traços do passado a partir destas linhas vagas,
entrelaçadas como fios ralos de uma tapeçaria gasta, onde quem sabe lê
as histórias que - antes de nós sermos - de nós fizeram o que somos. As
coisas velhas são uma raiz.
*Professora
portuguesa, reside em Castelo Branco, Portugal
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