Webjornal - Quinzenal - Edição 36 - Aracaju,  17  e 24  de agosto  de 2003
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Portugal Online

O Peso do Passado

Por Margarida Ribeiro*

Agarramo-nos às coisas velhas. Limpamos ruínas, reconstruímos casas centenárias, encantamo-nos com a beleza das velhas aldeias recuperadas. E cada um de nós, em sua casa, guarda em algum canto ao menos um objecto já inútil, herdado do fundo dos tempos.

Uma vez, um americano disse-me que o impressionava mal a mania que nós aqui temos de guardar recordações. Que era como se não pudéssemos largar o passado e caminhar em frente libertos desse peso.

Eu olho para as minhas prateleiras e sorrio.

Lá estão os livros que na minha família têm sido deixados de geração em geração desde o séc. XVIII. Lembram-me o meu tio-avô poeta que os recebeu e guardou, que eu não conheci, mas cujo gosto pelas letras vejo reviver em mim.

Ao lado está um velho fuso de fiar linho. Rodou nas mãos de uma avó, no tempo em que cada noiva tecia o seu enxoval. Vê-lo dá uma espessura de vida à toalha antiga que às vezes ainda ponho na mesa, feita pelas mãos que me legaram o gosto de bordar.

O antigo ferro de engomar, para sempre negro do calor das brasas, grita-me censuras se me queixo do cansaço dos trabalhos caseiros e conta-me histórias dos linhos brancos e das sedas espessas que vejo nas velhas fotografias de família.

Sei muito bem que as coisas velhas não são um peso. É emocionante descobrir os traços do passado a partir destas linhas vagas, entrelaçadas como fios ralos de uma tapeçaria gasta, onde quem sabe lê as histórias que - antes de nós sermos - de nós fizeram o que somos. As coisas velhas são uma raiz.


*Professora portuguesa,  reside em Castelo Branco,  Portugal


 

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