Webjornal - Quinzenal - Edição 37 - Aracaju,  31 de agosto a 07 de setembro  de 2003
______________________________________________________________________________________________

Portugal Online

Faz de conta

Por Margarida Ribeiro*

Percorrer uma loja de brinquedos dos nossos dias é uma ocupação fascinante para qualquer adulto. Além das cores, apelativas, quase hipnotizantes, e dos materiais macios e leves, doces ao tacto,  os brinquedos são a materialização de todas as fantasias que tivemos, as da nossa infância e as que reinventámos ao projectar-nos num filho que nos cresce nos braços.

Alguém se deu ao trabalho de visitar os desejos que tivemos no tempo em que as crianças brincavam ao faz-de-conta e transformou em realidade cada frase que então dissemos.

Faz de conta que esta caixa é um carro que anda sozinho, faz de conta que a minha boneca fala, faz de conta que estes pedaços de madeira empilhados são um castelo, que esta folha de planta é um prato, que este pauzinho é uma colher, que este pedaço de cortiça é um barco, que este fio de sementes é um colar, que este ramo é um avião que voa…

Ocupação fora de moda, esta de fazer de conta. As crianças de hoje não precisam de imaginar. Compramos-lhe ex-fantasias, realidades prontas a usar.

Um dia destes, porém, ouvi vários pais queixar-se do pouquíssimo tempo que cada um destes brinquedos consegue interessar os filhos. E lamentavam a disparidade entre os tamanhos da imensa despesa e da felicidade que se lhe seguia.

Acabou por ser da boca de uma criança que se ouviu a solução deste aparente absurdo. Diante das prateleiras vibrantes de um hiper-mercado, meio amuada pela escolha que lhe estava a ser oferecida, deu-nos a chave do enigma.

- Não, não quero destes, Pai!!! Estes já estão “brincados”…


*Professora portuguesa,  reside em Castelo Branco,  Portugal


 

(c) Todos os Direitos Reservados