Webjornal - Quinzenal - Edição 38 - Aracaju,  14 a 21  de setembro  de 2003
______________________________________________________________________________________________

Portugal Online

Segredos do tempo

Por Margarida Ribeiro*

Há um momento, uma idade, em que estamos no ponto perfeito para recolher os frutos do nosso passado. Como disse Byron,  "...the best is yet to be..."

A essa altura, a vida refinou-nos o olhar e aprendemos a distinguir falsas belezas. Afinou-nos o ouvido, e sabemos preferir as vozes que dizem, para além de falarem. Ensinou-nos o que é sofrimento, e mostrou-nos a insignificância de certos desapontamentos.

Ajustou-nos as medidas com que medimos as coisas e fez-nos descobrir a verdadeira importância das que antes, por pequenas, desprezávamos. Deu-nos calma e paciência para esperar. Fez-nos até ver o prazer que pode haver em esperar... 

Moldou em nós uma visão clara do que podemos e sabemos, não lutamos mais as lutas impossíveis. Criou-nos a certeza de que nada é definitivo, de modo que aprendemos a não temer desgraças perenes e já não desperdiçamos felicidades por serem efémeras. 

Mostrou-nos que a Felicidade Completa não existe e levou-nos a entender que a Felicidade Possível é feita de pequenas felicidades espalhadas no nosso caminho, quantas vezes tão disfarçadas que só um olhar atento as reconhece. E deu-nos olhos para as reconhecer. E mãos para as colhermos mesmo se incompletas, truncadas, com a maravilha de quem recolhe tesouros inteiros. 

Tentamos em cada dia, em cada gesto, passar aos nossos filhos estas descobertas. Mas inutilmente. Esta sabedoria é apenas direito de quem a arrancou ao tempo.


*Professora portuguesa,  reside em Castelo Branco,  Portugal


 

(c) Todos os Direitos Reservados