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Portugal
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Terra
queimada
Por Margarida Ribeiro*
Portugal
anda confuso entre assombros, decepções,
desconfianças, terras queimadas pelo fogo e pelo desassossego.
A revolução de há 29 anos fez-se
sob uma exultação que inventou uma idéia redonda e brilhante da
definitiva pureza nas pessoas e nas instituições democráticas. Mesmo
quando se bramiam acusações contra partidos políticos alheios, mesmo
quando se sentia decepção pelos companheiros do próprio partido, cada
erro vislumbrado surgia como uma excepção, como um quisto estranho num
corpo perfeito, alguma coisa possível de extirpar e pronta a ser
ressalvada.
Como na história de “o rei vai
nu”, ninguém era bem visto se por um segundo mostrasse duvidar da excelência
do sistema como um todo. E o sistema mantinha-se incólume e cintilante,
preso à certeza da perfeição de algumas personagens, por vezes
criticadas, mas sempre respeitadas.
Subitamente, porém, começando por
vozes soltas que não podiam deixar de ser ouvidas, um fio de desconfiança
começou a desenrolar-se da teia de fantasia urdida através do tempo.
Cada vez mais depressa, cada vez mais irremediavelmente, a malha das
certezas começou a desfiar-se num emaranhado de consternação. E a
suspeita alastrou, sorrateira, invasiva. Devastadora. Colou-se, peganhenta,
a cada instituição antes sagrada, a cada personagem até há pouco intocável.
Portugal entristeceu nas cinzas da
ilusão perdida.
Na terra queimada pelos fogos do verão,
as chuvas e os frios do Outono começam a fazer nascer, ainda tímidas,
hastes verdes. Fica-nos a esperança presa a um outro Outono que ainda
esteja para chegar.
*Professora
portuguesa, reside em Castelo Branco, Portugal
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