Webjornal - Quinzenal - Edição 41 - Aracaju,  26  de outubro a 2 de novembro  de 2003
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Portugal Online

Terra queimada

Por Margarida Ribeiro*

Portugal anda confuso entre assombros, decepções, desconfianças, terras queimadas pelo fogo e pelo desassossego.

A revolução de há 29 anos fez-se sob uma exultação que inventou uma idéia redonda e brilhante da definitiva pureza nas pessoas e nas instituições democráticas. Mesmo quando se bramiam acusações contra partidos políticos alheios, mesmo quando se sentia decepção pelos companheiros do próprio partido, cada erro vislumbrado surgia como uma excepção, como um quisto estranho num corpo perfeito, alguma coisa possível de extirpar e pronta a ser ressalvada.

Como na história de “o rei vai nu”, ninguém era bem visto se por um segundo mostrasse duvidar da excelência do sistema como um todo. E o sistema mantinha-se incólume e cintilante, preso à certeza da perfeição de algumas personagens, por vezes criticadas, mas sempre respeitadas.

Subitamente, porém, começando por vozes soltas que não podiam deixar de ser ouvidas, um fio de desconfiança começou a desenrolar-se da teia de fantasia urdida através do tempo. Cada vez mais depressa, cada vez mais irremediavelmente, a malha das certezas começou a desfiar-se num emaranhado de consternação. E a suspeita alastrou, sorrateira, invasiva. Devastadora. Colou-se, peganhenta, a cada instituição antes sagrada, a cada personagem até há pouco intocável.

Portugal entristeceu nas cinzas da ilusão perdida.

Na terra queimada pelos fogos do verão, as chuvas e os frios do Outono começam a fazer nascer, ainda tímidas, hastes verdes. Fica-nos a esperança presa a um outro Outono que ainda esteja para chegar.


*Professora portuguesa,  reside em Castelo Branco,  Portugal


 

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