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Amigos
Por Margarida Ribeiro*
Existem
as amizades datadas e as amizades profundas.
Algumas
sobrevivem apenas pelo tempo em que existem as circunstâncias que as
enformam.
Não
que sejam amizades piores, ou sequer menos boas. São mais superficiais,
isso sim.
E
- a não ser que sejam
mentirosas, que se mascarem de amizades sendo apenas interesses, ou a não
ser que terminem em deslealdade - não é inquietante que passem e se
tornem apenas uma recordação. Lembrá-las faz sempre bem. Eram
circunstanciais e tiveram o seu tempo, é tudo.
Nós
mudamos... Pessoas que couberam certinho nos côncavos de nós, agora já
não caberiam, porque os nossos côncavos e convexos foram mudando com a
vida, e os dessas pessoas também. Mas isso não nos rouba a boa recordação
da época em que nos completaram. Os nossos companheiros de brincadeiras
infantis tornaram-se talvez num homem e numa mulher que já não têm nada
a ver connosco, mas aquele menino e aquela menina com quem brincámos a
saltar à corda e com quem trocámos os imensos segredos da infância, hão-de
viver para sempre a aquecer-nos o coração.
Há
depois outras amizades tão profundas que ficam para sempre dentro de nós,
não apenas coladas a nós, mas feitas parte da nossa estrutura. As
pessoas que abrigámos dessa maneira na alma podem ir e vir, afastar-se ou
aproximar-se, falar-nos todos os dias ou estar em silêncio durante anos.
Quando aparecem de novo numa esquina da vida, reencontramo-las no
ponto exacto onde as deixámos. E o nosso coração alegra-se.
Queremos-lhe tão bem, e por elas somos tão queridos, que até a ausência
aceitamos e o renovar da presença não surpreende, nem contém recriminação.
Compreender
isto é ter chegado à maturidade das afeições.
*Professora
portuguesa, reside em Castelo Branco, Portugal
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