Webjornal - Quinzenal - Edição 42 - Aracaju,  9 a 16  de novembro  de 2003
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Portugal Online

Amigos

Por Margarida Ribeiro*

Existem as amizades datadas e as amizades profundas.

Algumas sobrevivem apenas pelo tempo em que existem as circunstâncias que as enformam.

Não que sejam amizades piores, ou sequer menos boas. São mais superficiais, isso sim. 

E -  a não ser que sejam mentirosas, que se mascarem de amizades sendo apenas interesses, ou a não ser que terminem em deslealdade - não é inquietante que passem e se tornem apenas uma recordação. Lembrá-las faz sempre bem. Eram circunstanciais e tiveram o seu tempo, é tudo.

Nós mudamos... Pessoas que couberam certinho nos côncavos de nós, agora já não caberiam, porque os nossos côncavos e convexos foram mudando com a vida, e os dessas pessoas também. Mas isso não nos rouba a boa recordação da época em que nos completaram. Os nossos companheiros de brincadeiras infantis tornaram-se talvez num homem e numa mulher que já não têm nada a ver connosco, mas aquele menino e aquela menina com quem brincámos a saltar à corda e com quem trocámos os imensos segredos da infância, hão-de viver para sempre a aquecer-nos o coração.

Há depois outras amizades tão profundas que ficam para sempre dentro de nós, não apenas coladas a nós, mas feitas parte da nossa estrutura. As pessoas que abrigámos dessa maneira na alma podem ir e vir, afastar-se ou aproximar-se, falar-nos todos os dias ou estar em silêncio durante anos. Quando aparecem de novo numa esquina da vida,  reencontramo-las no ponto exacto onde as deixámos. E o nosso coração alegra-se. Queremos-lhe tão bem, e por elas somos tão queridos, que até a ausência aceitamos e o renovar da presença não surpreende, nem contém recriminação.

Compreender isto é ter chegado à maturidade das afeições. 


*Professora portuguesa,  reside em Castelo Branco,  Portugal


 

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