|
Portugal
Online
Anos novos
Por Margarida Ribeiro*
A
chegada de um novo ano - coisa de calendário, coisa tão pouca que na
verdade é - acorda em toda a gente um ímpeto de renovação e um refazer
de esperanças. Mas quem já viveu muitas destas noites de deitar fora o
tempo velho, ou quem muito caminha nas histórias da História, não pode
deixar de descobrir a profunda novidade das expectativas do nosso tempo.
Durante centenas de anos vivia-se e
morria-se sem que quase nada mudasse no mundo de cada um. Os gestos e os
objectos, os saberes e as artes de fazer coisas, vinham dos avós como se
ensinavam aos filhos, intactos e imutáveis, tanto mais perfeitos quanto a
experiência de uma repetição infinita os fazia subtilmente exactos. O
que se podia esperar de um ano novo era um melhor tempo para a
agricultura, menos doenças ou acidentes, bons ganhos em algum negócio,
um casamento a preceito, um nascimento feliz… No fundo era esperar ter
sorte.
Mas a certa altura as mudanças começaram
a nascer mais lestas. Depois de milénios durante os quais o Homem desejou
voar, apenas 60 anos bastaram para o levar de um pequeno voo sobre o solo
até pousar na Lua. As vacinas sucederam-se a impedir doenças graves. O
primeiro transplante de coração pareceu um milagre há tão pouco
tempo… Os não tão antigo discos de vinil tornaram-se velharias de
colecção perante s DVD que, se não os temos, já todos desejamos. De
telefones com ligações manuais, que já por si eram um espanto para
muita gente a meio do séc. XX, saltou-se para este rodopio de meios de
comunicação que desfez distâncias. E com mais contamos, em breve…
A mudança é hoje uma vertigem.
Do futuro esperamos tudo, já nada
nos parece fantasia. De momento é a nanotecnologia
que se perfila no lugar da maravilha, prometendo-nos, entre outras admiráveis
coisas minúsculas, nanorrobôs capazes de reconstruir estruturas no
interior do corpo humano, revitalizar células e impedir o envelhecimento.
De cada ano
esperamos mais, mais, mais… E o mais provável é que o tenhamos.
Desgraças…
sim, também, é claro. Sempre as houve. Mau uso das descobertas, não há
que estranhar que se venha a fazer.
Mas vale a pena,
entretanto, gozar esta montanha russa de assombros que cada ano que chega
nos traz de presente.
*Professora
portuguesa, reside em Castelo Branco, Portugal
|