Webjornal - Quinzenal - Edição 46 - Aracaju,  4  a  11   de janeiro  de 2004
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Portugal Online

Anos novos

Por Margarida Ribeiro*

A chegada de um novo ano - coisa de calendário, coisa tão pouca que na verdade é - acorda em toda a gente um ímpeto de renovação e um refazer de esperanças. Mas quem já viveu muitas destas noites de deitar fora o tempo velho, ou quem muito caminha nas histórias da História, não pode deixar de descobrir a profunda novidade das expectativas do nosso tempo. 

Durante centenas de anos vivia-se e morria-se sem que quase nada mudasse no mundo de cada um. Os gestos e os objectos, os saberes e as artes de fazer coisas, vinham dos avós como se ensinavam aos filhos, intactos e imutáveis, tanto mais perfeitos quanto a experiência de uma repetição infinita os fazia subtilmente exactos. O que se podia esperar de um ano novo era um melhor tempo para a agricultura, menos doenças ou acidentes, bons ganhos em algum negócio, um casamento a preceito, um nascimento feliz… No fundo era esperar ter sorte.

Mas a certa altura as mudanças começaram a nascer mais lestas. Depois de milénios durante os quais o Homem desejou voar, apenas 60 anos bastaram para o levar de um pequeno voo sobre o solo até pousar na Lua. As vacinas sucederam-se a impedir doenças graves. O primeiro transplante de coração pareceu um milagre há tão pouco tempo… Os não tão antigo discos de vinil tornaram-se velharias de colecção perante s DVD que, se não os temos, já todos desejamos. De telefones com ligações manuais, que já por si eram um espanto para muita gente a meio do séc. XX, saltou-se para este rodopio de meios de comunicação que desfez distâncias. E com mais contamos, em breve…

A mudança é hoje uma vertigem.

Do futuro esperamos tudo, já nada nos parece fantasia. De momento é a nanotecnologia que se perfila no lugar da maravilha, prometendo-nos, entre outras admiráveis coisas minúsculas, nanorrobôs capazes de reconstruir estruturas no interior do corpo humano, revitalizar células e impedir o envelhecimento.

De cada ano esperamos mais, mais, mais… E o mais provável é que o tenhamos.

Desgraças… sim, também, é claro. Sempre as houve. Mau uso das descobertas, não há que estranhar que se venha a fazer.

Mas vale a pena, entretanto, gozar esta montanha russa de assombros que cada ano que chega nos traz de presente.

 

*Professora portuguesa,  reside em Castelo Branco,  Portugal


 

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