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Portugal
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A diferença da televisão
Por Margarida Ribeiro*
No último
domingo de Janeiro, a televisão portuguesa inventou um profundo e
violento luto nacional.
Tudo começou com um facto
inesperado. O húngaro Miklos Fehér, jogador de futebol do Benfica,
sofreu morte súbita durante o jogo contra a equipa do Guimarães que
estava a ser transmitido desta ultima cidade pela televisão. Fehér não
era um jogador muito falado, daqueles que são conhecidos até por quem não
se interessa pelo desporto-rei. No entanto, o simples facto de a sua morte
ter sido vista em directo foi razão suficiente para tocar as emoções de
quem assistia ao espectáculo.
Mas a SportTV , que transmitia o
jogo, é um canal codificado, por isso mesmo não acessível à população
em geral. Considerando que só os amantes de futebol estavam atentos, se
tudo tivesse ficado por aqui teria sido muito limitado o número de
pessoas atingidas pelo choque. A reacção do país teria sido semelhante
à que aparece noutros momentos similares. Alguns comentários breves e
levemente pesarosos nas conversas de café.
Porém, os canais generalistas de
televisão, SIC, TVI e RTP, entenderam num ápice o furo jornalístico do
aproveitamento do gosto pela tragédia de uma população, o mesmo
perverso prazer que faz os condutores abrandarem na estrada para observar
os pormenores de um sangrento acidente. As
imagens dos últimos momentos do jogador, da sua queda desamparada na
relva, das atitudes naturalmente angustiadas dos colegas que o rodeavam,
começaram a ser passadas numa contínua repetição perante os olhos de
todos os espectadores do país. Em cada casa, quem não tinha visto antes
podia agora ver uma morte em câmara lenta, não apenas uma vez, mas
muitas vezes, até se impregnar na aflição de gestos que, de previstos e
já conhecidos na sua sucessão, adquiriam em cada fotograma uma qualidade
opressiva e torturante.
E o país reagiu em bloco como se
aquele homem, até há poucos minutos indiferente ou completamente
desconhecido, fosse filho, irmão, pai de toda a gente. Houve insónias, lágrimas,
crianças perturbadas, conversas plenas de ansiedade e um profundo luto
geral.
A história não ficou por aqui.
Quanto mais era suscitado o interesse das audiências, mais à frente era
preciso caminhar para o satisfazer. Numa lógica de bola de neve, quanto
mais aflições eram suscitadas, mais aflição estas se preparavam para
provocar. As câmaras, gulosas, aguçavam-se em busca de rostos
contorcidos por lágrimas. Os microfones postavam-se, inquiridores, a
sugar as palavras de lamento deste e daquele. Durante as 48 horas que se
seguiram ao acidente, bastava carregar num botão para se ter em casa
aquela onda irreprimível de depressão pública. A pouco e pouco, velhos
e novos, interessados ou não em futebol, todos foram sendo tocados por um
desgosto que lhes estava ser imposto em imagens intercaladas noutros
programas propositadamente interrompidos, aparecendo subitamente perante
os olhos de quem as não procurava.
Ao local de Lisboa onde o corpo do
jogador estava a ser velado, em breve acorria uma multidão silenciosa,
por sua vez filmada, inquirida, levada a exprimir os seus sentimentos fúnebres,
atraindo mais e mais pessoas que de outro modo nem se teriam lembrado de
fazer aquela visita a um velório.
Emissoras de rádios e redacções de
jornais seguiam a televisão nos passos do interesse pela mesma notícia.
Perante tal movimento público, os políticos e os governantes sentiram-se
obrigados a nele participar sob pena de serem apupados por um povo
indignado. A sua presença nas imagens transmitidas arredondou a importância
do acontecimento, deu-lhe um carácter nacional. A própria Assembleia da
República se sentiu obrigada à expressão de condolências oficiais.
O luto já não era o normal em
circunstâncias semelhantes. Foi um luto da Pátria por um estrangeiro,
digno de compaixão, é certo, mas que nada de especial por ela fizera.
Foi um luto histérico, excessivo,
que ultrapassou em muito o que em Portugal foi feito por outras figuras públicas
desaparecidas, essas sim, responsáveis por importantes contributos em
diversas áreas.
A diferença entre esta morte e a de
um caboverdiano num acidente de trabalho ao construir uma ponte portuguesa
é a que existe entre um país inteiro mergulhado em lamentos e uma breve
referência de duas linhas num noticiário.
E foi a televisão que inventou a
diferença.
*Professora
portuguesa, reside em Castelo Branco, Portugal
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