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Portugal
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Estilhaços
Por Margarida Ribeiro*
Nos
tempos antigos, era possível viver toda uma vida sem nunca participar dos
acontecimentos que mudavam o mundo.
Durante séculos, a maior parte da
população vivia num lugar cercado pelo silêncio das distâncias. Iam e
vinham revoluções sem que nada mudasse no dia a dia de cada um, e só a
chegada de um almocreve trazia, vez por vez, um eco vago de novas modas e
de novos poderes. Os curiosos do saber não tinham mais alimento do que
meia dúzia de livros antigos e as suas próprias meditações. Os amantes
da arte conheciam apenas, com sorte, a reprodução atamancada das obras
dos grandes mestres. E até as guerras, se longínquas, para muitos
passavam ignoradas ou esbatidas pelo linguajar da lenda.
Foi apenas no séc. XIX que o comboio
se tornou um primeiro meio de entrelaçar caminhos. Mesmo assim muito
caro, privilégio de alguns. Transportava livros, é certo, mas as suas páginas
atingiam um círculo restrito de uma elite que se fechava sobre si mesma.
Hoje em dia, perante as convulsões
sociais, económicas ou políticas, a televisão, a rádio, as revistas,
os jornais e a internet não permitem essa paz antiga de uma ignorância não
procurada. A nossa mente é bombardeada com uma quantidade de informação
que ultrapassa em muito a nossa capacidade de a processar.
Mas não se trata apenas de haver
muitos canais de comunicação. Alguns deles começam a pedir-nos um duplo
esforço de percepção. Ultimamente, durante os telejornais, enquanto os
jornalistas falam e as imagens correm, passam legendas em rodapé a
respeito de outras diferentes notícias. Inconscientemente, quase
compulsivamente, damos conosco a fazer um esforço violento para, sem
perder a história que o jornalista nos conta, irmos apanhando a segunda
informação que nos é dada por escrito.
O ser humano não teve tempo de evolução
para se adaptar, em poucos anos, a uma tal habilidade. Metade do que se
ouve ou se lê entra nas mentes já deturpado pelo fraccionamento da atenção.
Talvez por este motivo se sinta que,
sabendo tanto, a maior parte das pessoas sabe tão pouco. Muitos estilhaços
de verdades não fazem um saber.
*Professora
portuguesa, reside em Castelo Branco, Portugal
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