Webjornal - Quinzenal - Edição 49 - Aracaju,  15  a  22   de fevereiro  de 2004
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Portugal Online

Estilhaços

Por Margarida Ribeiro*

Nos tempos antigos, era possível viver toda uma vida sem nunca participar dos acontecimentos que mudavam o mundo.

Durante séculos, a maior parte da população vivia num lugar cercado pelo silêncio das distâncias. Iam e vinham revoluções sem que nada mudasse no dia a dia de cada um, e só a chegada de um almocreve trazia, vez por vez, um eco vago de novas modas e de novos poderes. Os curiosos do saber não tinham mais alimento do que meia dúzia de livros antigos e as suas próprias meditações. Os amantes da arte conheciam apenas, com sorte, a reprodução atamancada das obras dos grandes mestres. E até as guerras, se longínquas, para muitos passavam ignoradas ou esbatidas pelo linguajar da lenda.

Foi apenas no séc. XIX que o comboio se tornou um primeiro meio de entrelaçar caminhos. Mesmo assim muito caro, privilégio de alguns. Transportava livros, é certo, mas as suas páginas atingiam um círculo restrito de uma elite que se fechava sobre si mesma.

Hoje em dia, perante as convulsões sociais, económicas ou políticas, a televisão, a rádio, as revistas, os jornais e a internet não permitem essa paz antiga de uma ignorância não procurada. A nossa mente é bombardeada com uma quantidade de informação que ultrapassa em muito a nossa capacidade de a processar.

Mas não se trata apenas de haver muitos canais de comunicação. Alguns deles começam a pedir-nos um duplo esforço de percepção. Ultimamente, durante os telejornais, enquanto os jornalistas falam e as imagens correm, passam legendas em rodapé a respeito de outras diferentes notícias. Inconscientemente, quase compulsivamente, damos conosco a fazer um esforço violento para, sem perder a história que o jornalista nos conta, irmos apanhando a segunda informação que nos é dada por escrito.

O ser humano não teve tempo de evolução para se adaptar, em poucos anos, a uma tal habilidade. Metade do que se ouve ou se lê entra nas mentes já deturpado pelo fraccionamento da atenção.

Talvez por este motivo se sinta que, sabendo tanto, a maior parte das pessoas sabe tão pouco. Muitos estilhaços de verdades não fazem um saber.

*Professora portuguesa,  reside em Castelo Branco,  Portugal


 

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