Webjornal - Quinzenal - Edição 50 - Aracaju,  29 de fevereiro  a  07  de março  de 2004
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Portugal Online

Dez estádios e um vestido branco

Por Margarida Ribeiro*

Faltam pouco mais de cem dias para que aconteça em Portugal o campeonato de futebol Euro 2004. Vai assim terminar o tempo de preparação para este acontecimento que se tornou um dos mais onerosos imperativos nacionais.

Numa celeridade não costumada neste país de calma e sossego, foram construídos dentro do prazo dez admiráveis e caríssimos estádios de futebol e os respectivos acessos rodoviários. Elementos da polícia e dos bombeiros foram submetidos a acções de formação para aprenderem a enfrentar multidões em fúria. Motoristas de táxi sentaram-se em salas de aula para decorar algumas frases em línguas desconhecidas. Foram recrutados centenas de voluntários para alargarem as equipas dos assistentes dos estádios. Médicos e enfermeiros, hospitais e ambulâncias preparam meios e procedimentos para prestar a assistência que venha a ser necessária. Hotéis abespinharam-se na luta por receber uma das equipas, ou ainda se adornam para encantar os turistas que, a reboque dos jogadores e da bola, vão receber.

Toda uma dispendiosa máquina de publicidade foi construída e começa a funcionar na sua fase obsessiva. Na que corre em Portugal, a população é incitada a receber os milhares de estrangeiros, desportistas de bancada, com requintes de cuidados e de amabilidade.

Espera-se, dizem os defensores do evento, que esta invasão localizada e temporária se desdobre em conseqüências lucrativas. Acredita-se que esta visita breve venha a ser uma descoberta turística para muitos europeus e fazem-se contas entusiasmadas aos resultados futuros de dar a conhecer à Europa as delícias deste seu extremo ocidental. 

Promover Portugal, afirmam, vale a imensa despesa.

Entretanto, aqui ao lado, a Espanha prepara para breve a festa nupcial de um príncipe com uma ex-locutora de televisão. E uma empresa de sondagens acaba de revelar um resultado avassalador. No que respeita à promoção do país, o casamento de Filipe e Letizia será muito mais eficaz a promover Espanha, do que o Euro 2004 a chamar a atenção para Portugal.

Dez estádios ficam bem mais caros do que um vestido de noiva. O negócio parece mau. Mas fica-nos uma consolação. Por muito que o futebol satisfaça sôfregos e inadiáveis ímpetos guerreiros, ainda se lhe prefere uma história de “Era uma vez uma princesa…”. Ainda há por aí um resíduo de criança nas pessoas crescidas. É uma esperança a acalentar.

*Professora portuguesa,  reside em Castelo Branco,  Portugal


 

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