Webjornal - Quinzenal - Edição 51 - Aracaju,  14 a 28  de março  de 2004
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Portugal Online

Hidra de sete cabeças

Por Margarida Ribeiro*

O grande terrorismo, tal como se esperava, chegou à Europa. Estamos a viver um turbilhão de sentimentos comuns que se desdobram numa espiral, entre um extremo de compaixão e outro de medo.

Esta é a guerra do terceiro milénio. Enfrentamos um inimigo feroz, implacável, sem rosto. Um inimigo que passa ao nosso lado na rua, invisível e silencioso. Um monstro cujas cabeças renascem mal são cortadas, como as da Hidra de Lerna.

Mais do que Espanha, o resto da Europa espera ansiosamente que se descubra quem preparou o atentado. Se foi a ETA, o movimento independentista basco, a questão é localizada, respira-se fundo num alívio envergonhado. Se foi a Al-Qaeda, como parece provável, há mais quem deva estar alerta. Ninguém está a salvo.

Percorre-se a História da frente para trás à procura de um terror igual. Mas não se acha. Todo o terror antigo teve um grito de guerra, um pendão, uma farda, um rosto, um peito a visar por quem se defendia.

A defesa nos tempos de hoje passa por destruir a liberdade de ir e vir, levar e trazer, dentro de um espaço aberto de confiança. Damos connosco a pensar se não será melhor evitar ir a certas cidades, fugir de certas manifestações públicas. Nos aeroportos, nos portos e nas estradas, as fronteiras dos países da Europa que já nos habituámos a ver abertas podem vir a ser fechadas na tentativa de vigiar movimentos e discernir planos terroristas. A livre circulação, tal como é previsto no Tratado de Shengen, pode ser suspensa em casos especiais. Será suspensa mais tarde ou mais cedo.

Este é o grande feito do terrorismo. Mais do que matar pessoas, a vitória estará em condicionar a vida dos que sobrevivem. E vamos assim sentir-nos a fazer os primeiros movimentos sugeridos pelos fios das marionetas que, se não nos acautelarmos, passaremos a ser.

*Professora portuguesa,  reside em Castelo Branco,  Portugal


 

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