|
Portugal
Online
Hidra de sete cabeças
Por Margarida Ribeiro*
O grande
terrorismo, tal como se esperava, chegou à Europa. Estamos a viver um
turbilhão de sentimentos comuns que se desdobram numa espiral, entre um
extremo de compaixão e outro de medo.
Esta é a guerra do terceiro milénio.
Enfrentamos um inimigo feroz, implacável, sem rosto. Um inimigo que passa
ao nosso lado na rua, invisível e silencioso. Um monstro cujas cabeças
renascem mal são cortadas, como as da Hidra de Lerna.
Mais do que Espanha, o resto da
Europa espera ansiosamente que se descubra quem preparou o atentado. Se
foi a ETA, o movimento independentista basco, a questão é localizada,
respira-se fundo num alívio envergonhado. Se foi a Al-Qaeda, como parece
provável, há mais quem deva estar alerta. Ninguém está a salvo.
Percorre-se a História da frente
para trás à procura de um terror igual. Mas não se acha. Todo o terror
antigo teve um grito de guerra, um pendão, uma farda, um rosto, um peito
a visar por quem se defendia.
A defesa nos tempos de hoje passa por
destruir a liberdade de ir e vir, levar e trazer, dentro de um espaço
aberto de confiança. Damos connosco a pensar se não será melhor evitar
ir a certas cidades, fugir de certas manifestações públicas. Nos
aeroportos, nos portos e nas estradas, as fronteiras dos países da Europa
que já nos habituámos a ver abertas podem vir a ser fechadas na
tentativa de vigiar movimentos e discernir planos terroristas. A livre
circulação, tal como é previsto no Tratado de Shengen, pode ser
suspensa em casos especiais. Será suspensa mais tarde ou mais cedo.
Este é o grande feito do terrorismo.
Mais do que matar pessoas, a vitória estará em condicionar a vida dos
que sobrevivem. E vamos assim sentir-nos a fazer os primeiros movimentos
sugeridos pelos fios das marionetas que, se não nos acautelarmos,
passaremos a ser.
*Professora
portuguesa, reside em Castelo Branco, Portugal
|