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Barqueiros e pontes
Por Margarida Ribeiro*
À
beira de Coimbra há uma aldeia isolada na vertente abrupta da margem sul
do Rio Ceira. Leva-nos lá uma interminável estradinha estreita rasgada
entre árvores, sempre pendurada nas alturas, numa margem em que mais nada
existe e que não leva a mais lado nenhum.
Das
janelas das casas vê-se a pouca distância, do outro lado da corrente de
água, uma das estradas principais. Mas o rio, apesar de estreito, tem ali
ímpetos de profundezas. Quem ali vive só de lá sai depois de um longo
caminho.
Faz falta
uma ponte. E foi um barqueiro que não a deixou construir.
A história,
verdadeira, passou-se assim.
Na viragem
do séc. XIX para o séc. XX foi aberta na encosta uma mina que começou a
ser explorada intensamente e fez construir as primeiras casas. Começaram
estas por ser simples abrigos de mineiros, mas em breve se tinham tornado
habitações das suas famílias. Assim nasceu a aldeia.
O minério
recolhido diariamente era passado para a estrada da outra margem numa
barcaça, em viagens de ida e volta. Ocupava-se disso um barqueiro, homem
trabalhador e humilde, que achara naquela ocupação os ganhos
arredondados que até então não tinha esperado obter.
Mas a mina
mostrava-se produtiva, o processo de transporte era moroso, e os
engenheiros começaram a pensar na construção de uma ponte. A obra seria
pouco custosa. Valia a pena.
Foi então que o barqueiro entrou em
pânico. Uma ponte significava o fim dos seus proventos e a inutilidade da
sua sabedoria antiga de remar em segurança sobre os redemoinhos da água.
Que não! repetia ele num contínuo
grazinar aos ouvidos dos patrões. Que não era preciso! Que ele podia
muito bem fazer mais viagens, remar mais depressa, levar em cada dia todo
o minério arrancado da terra.
E tanto falou, tanto prometeu, tanto
fez, que a sua convicção persuadiu os engenheiros, conhecedores dos
limites da mina e do previsível fim da exploração.
Durante alguns anos aquele homem
redobrou a força dos braços. Trabalhou como um mouro, sem folgas no seu
horário de sol a sol, sem direito a doença ou a mal-estar, sem falhar
uma viagem, sem deixar em terra uma única carga de minério.
Um dia a mina esgotou-se. Os
engenheiros partiram com as suas máquinas. O barqueiro estava velho e
cansado, morreu.
E a aldeia ficou, sem barqueiro e sem
ponte.
Neste início do séc. XXI há muitas
profissões e serviços que começam a desaparecer. Não raro, ouvem-se
protestos e são feitos pedidos de medidas de protecção aos governos.
Por cada um que seja aceite, provavelmente há uma ponte que deixa de ser
construída.
*Professora
portuguesa, reside em Castelo Branco, Portugal
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