Webjornal - Quinzenal - Edição 52 - Aracaju,  28  de março a  04 de abril  de 2004
______________________________________________________________________________________________

Portugal Online

Barqueiros e pontes

Por Margarida Ribeiro*

À beira de Coimbra há uma aldeia isolada na vertente abrupta da margem sul do Rio Ceira. Leva-nos lá uma interminável estradinha estreita rasgada entre árvores, sempre pendurada nas alturas, numa margem em que mais nada existe e que não leva a mais lado nenhum.

Das janelas das casas vê-se a pouca distância, do outro lado da corrente de água, uma das estradas principais. Mas o rio, apesar de estreito, tem ali ímpetos de profundezas. Quem ali vive só de lá sai depois de um longo caminho.

Faz falta uma ponte. E foi um barqueiro que não a deixou construir.

A história, verdadeira, passou-se assim.

Na viragem do séc. XIX para o séc. XX foi aberta na encosta uma mina que começou a ser explorada intensamente e fez construir as primeiras casas. Começaram estas por ser simples abrigos de mineiros, mas em breve se tinham tornado habitações das suas famílias. Assim nasceu a aldeia.

O minério recolhido diariamente era passado para a estrada da outra margem numa barcaça, em viagens de ida e volta. Ocupava-se disso um barqueiro, homem trabalhador e humilde, que achara naquela ocupação os ganhos arredondados que até então não tinha esperado obter.

Mas a mina mostrava-se produtiva, o processo de transporte era moroso, e os engenheiros começaram a pensar na construção de uma ponte. A obra seria pouco custosa. Valia a pena.

Foi então que o barqueiro entrou em pânico. Uma ponte significava o fim dos seus proventos e a inutilidade da sua sabedoria antiga de remar em segurança sobre os redemoinhos da água.

Que não! repetia ele num contínuo grazinar aos ouvidos dos patrões. Que não era preciso! Que ele podia muito bem fazer mais viagens, remar mais depressa, levar em cada dia todo o minério arrancado da terra.

E tanto falou, tanto prometeu, tanto fez, que a sua convicção persuadiu os engenheiros, conhecedores dos limites da mina e do previsível fim da exploração.

Durante alguns anos aquele homem redobrou a força dos braços. Trabalhou como um mouro, sem folgas no seu horário de sol a sol, sem direito a doença ou a mal-estar, sem falhar uma viagem, sem deixar em terra uma única carga de minério.

Um dia a mina esgotou-se. Os engenheiros partiram com as suas máquinas. O barqueiro estava velho e cansado, morreu.

E a aldeia ficou, sem barqueiro e sem ponte.

Neste início do séc. XXI há muitas profissões e serviços que começam a desaparecer. Não raro, ouvem-se protestos e são feitos pedidos de medidas de protecção aos governos. Por cada um que seja aceite, provavelmente há uma ponte que deixa de ser construída.

*Professora portuguesa,  reside em Castelo Branco,  Portugal


 

(c) Todos os Direitos Reservados