Webjornal - Quinzenal - Edição 54 - Aracaju,   25  de abril  a  09 de maio  de 2004
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Portugal Online

Romarias

Por Margarida Ribeiro*
Pintura: Dordio Gomes

Passados os maiores frios, começa agora, aqui em Portugal, a época das romarias.

Nos meados do séc. XX, uma vez por ano as aldeias despovoavam-se da sua gente que caminhava a pé por caminhos de terra batida, entre campos, até ao adro de uma capela, quase sempre construída num lugar despovoado, onde se venerava o santo da devoção regional. Iam em grupos, velhos e novos, carregados com um copioso farnel e acompanhados por tocadores de tambor e de concertina. 

Uma vez chegados, começava a festa. Assistiam às cerimónias religiosas, pagavam as promessas feitas nas horas de aflição e, terminado o negócio com o santo, começava o baile e a comezaina. Comiam, bebiam e dançavam até noite alta, altura em que a maior parte adormecia num acampamento desordenado antes de, nascido o sol, todos regressarem a casa.

Hoje em dia as romarias continuam a ser momentos altos da vida da população rural. As igrejinhas são as mesmas. Algumas foram engolidas pelas cidades que se arredondaram, mas outras mantêm-se isoladas em lugares ermos. Já ninguém vai a pé e já ninguém adormece pela noite debaixo de um sobreiro, mas juntam-se ainda maiores multidões, e por mais dias, no espaço à volta das velhas capelas. Alguns, emigrados em França ou na Alemanha, vêm de longe para assistir aos festejos. Os feirantes acorrem a levantar as suas tendas e os seus carrosséis que instalam sob o atroador som de uma música tornada ruído pela violência das aparelhagens sonoras. Armam-se lugares de comes e bebes, restaurantes improvisados, onde grupos se instalam a jantar um churrasco barulhento e animado.

De nada valeu a luta de séculos com que a Igreja tentou, em tempos idos, separar os festejos religiosos dos profanos. A veneração ao santo, à medida que vão morrendo as velhas superstições populares, tornou-se cada vez mais um pretexto, não raro até ele mesmo desprezado e esquecido. Tal como outrora, as romarias são sobretudo espaços de encontro, de festa e de alegria.

*Professora portuguesa,  reside em Castelo Branco,  Portugal


 

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