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Uma vez, numa escola...
Por Margarida Ribeiro*
As
aulas decorriam mais ou menos animadas. Os alunos ouviam, davam opiniões,
faziam perguntas. Aprendiam. Só o José estava como sempre, mergulhado no
seu ar ausente e cantarolando baixinho, num sussurro.
Durante
os intervalos os professores constatavam o facto num preocupado diálogo.
- Já
tentei tudo – lamentava-se um deles. - Por mais que faça, não consigo
que esteja atento ao que se passa na aula.
Havia
programas a cumprir e as matérias sucediam-se. Os temas eram variados e a
professora de História continuava a procurar, incansavelmente mas sem
qualquer êxito, interessar o pequeno cantor.
Pelo
meio do 2º período lectivo falou-se das viagens marítimas do séc. XV.
Havia na sala um frémito de excitação por aquela aventura verdadeira,
mais verdadeira do que os filmes da televisão. As crianças, sensíveis
à descrição dos pavores medievais, tomavam-nos como seus durante alguns
minutos. Com a respiração suspensa, “viam” as barcas e as caravelas
partir para o mar, então tenebroso, infestado de monstros.
A
professora estava a sentir que eles brincavam ao faz-de-conta e
partilhavam o antigo pavor de que o mar acabasse e de que as caravelas
desaparecessem engolidas por abismos sem fundo.
Foi então
que reparou que o José parara de cantar. Estava atento, de olhos fixos no
seu rosto, num silêncio concentrado.
Vitoriosa,
regozijou-se. Foi com orgulho que minutos depois, apesar do olhar incrédulo
dos colegas, descreveu o acontecimento memorável.
Porém
as aulas prosseguiram e o José retomou o seu mundo à parte. As caravelas
bordejaram África, as naus chegaram à Índia, Fernão de Magalhães deu
a volta à Terra – e o José, indiferente a tudo, cantarolava em
surdina.
Até
que um dia, de repente, a professora viu-lhe o braço levantado na sua
primeira tentativa de participação na aula desde o longínquo início do
ano. Uma sua frase tinha sido interrompida, mas que importância tinha
isso? Emocionada, susteve a ansiedade que tomara a turma inteira perante
tal novidade. E encorajou a pergunta.
- Diz,
José…
E o José,
finalmente, falou.
-
Então e afinal? O mar acabou ou não acabou?
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