Webjornal - Quinzenal - Edição 55 - Aracaju,   09 a 23  de maio  de 2004
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Portugal Online

Uma vez, numa escola...

Por Margarida Ribeiro*

As aulas decorriam mais ou menos animadas. Os alunos ouviam, davam opiniões, faziam perguntas. Aprendiam. Só o José estava como sempre, mergulhado no seu ar ausente e cantarolando baixinho, num sussurro.

Durante os intervalos os professores constatavam o facto num preocupado diálogo.

- Já tentei tudo – lamentava-se um deles. - Por mais que faça, não consigo que esteja atento ao que se passa na aula.

Havia programas a cumprir e as matérias sucediam-se. Os temas eram variados e a professora de História continuava a procurar, incansavelmente mas sem qualquer êxito, interessar o pequeno cantor.

Pelo meio do 2º período lectivo falou-se das viagens marítimas do séc. XV. Havia na sala um frémito de excitação por aquela aventura verdadeira, mais verdadeira do que os filmes da televisão. As crianças, sensíveis à descrição dos pavores medievais, tomavam-nos como seus durante alguns minutos. Com a respiração suspensa, “viam” as barcas e as caravelas partir para o mar, então tenebroso, infestado de monstros.

A professora estava a sentir que eles brincavam ao faz-de-conta e partilhavam o antigo pavor de que o mar acabasse e de que as caravelas desaparecessem engolidas por abismos sem fundo.

Foi então que reparou que o José parara de cantar. Estava atento, de olhos fixos no seu rosto, num silêncio concentrado.

Vitoriosa, regozijou-se. Foi com orgulho que minutos depois, apesar do olhar incrédulo dos colegas, descreveu o acontecimento memorável.

Porém as aulas prosseguiram e o José retomou o seu mundo à parte. As caravelas bordejaram África, as naus chegaram à Índia, Fernão de Magalhães deu a volta à Terra – e o José, indiferente a tudo, cantarolava em surdina.

Até que um dia, de repente, a professora viu-lhe o braço levantado na sua primeira tentativa de participação na aula desde o longínquo início do ano. Uma sua frase tinha sido interrompida, mas que importância tinha isso? Emocionada, susteve a ansiedade que tomara a turma inteira perante tal novidade. E encorajou a pergunta.

- Diz, José…

E o José, finalmente, falou.

- Então e afinal? O mar acabou ou não acabou?

 

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