Webjornal - Quinzenal - Edição 57 - Aracaju,  06 a 20  de maio  de 2004
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Portugal Online

Centro e quatro anos

(texto adaptado de uma conversa tida em 1997 com a Sr Maria do Campo, que viveu toda a sua vida no lugar de Lagoa, perto de Coimbra)

Por Margarida Ribeiro*

Não, não me lembro do ano em que nasci... Sei que foi em Setembro. Dizem que tenho 104 anos, que eu já lhes perdi a conta.

Não, não me lembro dos reis. Havia reis? Aqui em Lagoas  nunca os vi. 

Quando eu era pequena, escola não havia, ninguém ia à escola, só já crescidos é que às vezes lá iam de noite. Brincar, brincávamos pouco, que era preciso trabalhar. Mas fazíamos bonecas de farrapo. Ou então, com um casulo de milho: fazia-se um buraco, espetava-se um pau, que era os braços, e fazia-se um vestido para lhe enfiar e um lenço para lhe atar na cabeça. O cabelo era a barba do milho. De dia  andava pelas fazendas a trabalhar, a apanhar erva, a  sachar o milho, a tratar das novidades(1). Ia ao moinho, ao rio, levar o milho a moer. A água acartava-se com um cântaro da fonte, lá em baixo, e tinha-se de subir esta ladeira toda com ela.

Poupava-se a água. Agora é que ninguém poupa nada. Quem não poupa água nem lenha, não poupa nada que tenha. E apanhávamos lenha nos pinhais. Apanhávamos gravetos pelo chão, que os pinheiros não eram nossos. Íamos à lenha quase ao Carvalho

Era tudo a pé, e descalças, que a gente não tinha sapatos, ou se tinha estavam arrecadados para um dia... Comia-se sardinha e broa e alumiávamo-nos com umas lanternazitas, umas candeias de petróleo ou de azeite, ou com uma pinha a arder. Andávamos com elas na mão, que não havia a luz de agora.

Doenças não havia muitas, agora é pior. Às vezes lá acontecia e então vinha cá o barbeiro, um de S. Frutuoso, o Francisco barbeiro que era melhor que um médico. Naquele tempo usavam-se coisas melhores que remédios. Mas uma vez aleijei-me a tirar água ao engenho, no Alto de S. João. O cambão veio p´ra trás e bateu-me. Tive de ir para o hospital deitada numa escada, para servir de maca.

Às vezes havia baile, à noite. Tocavam, guitarra, bandolim, rabeca... Também íamos ao St. Amaro e ao Espírito Santo. Mas a romaria melhor era a da Srª  das Necessidades,  em Poiares. O caminho era serra fora, pelo Carvalho. Fora das festas, as raparigas namoravam pelos caminhos, quando tinham de ir a algum lado.

Os noivos casavam em Ceira; daqui ia-se a pé. As noivas do Carvalho também, mas era mais longe, levavam farnel e comiam lá. A noiva dava arroz doce às pessoas amigas em troca de um presente, pr´aí 5 escudos.

Mas eu cá nunca casei, não. Por isso é que ainda estou viva.
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(1) novidades – plantas da horta que se criavam no momento

*Professora portuguesa,  reside em Castelo Branco,  Portugal

 

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