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Portugal
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Centro e quatro anos
(texto adaptado de uma
conversa tida em 1997 com a Sr Maria do Campo, que viveu toda a sua vida
no lugar de Lagoa, perto de Coimbra)
Por Margarida Ribeiro*
Não,
não me lembro do ano em que nasci... Sei que foi em Setembro. Dizem que
tenho 104 anos, que eu já lhes perdi a conta.
Não,
não me lembro dos reis. Havia reis? Aqui em Lagoas
nunca os vi.
Quando
eu era pequena, escola não havia, ninguém ia à escola, só já
crescidos é que às vezes lá iam de noite. Brincar, brincávamos pouco,
que era preciso trabalhar. Mas fazíamos bonecas de farrapo. Ou então,
com um casulo de milho: fazia-se um buraco, espetava-se um pau, que era os
braços, e fazia-se um vestido para lhe enfiar e um lenço para lhe atar
na cabeça. O cabelo era a barba do milho. De dia
andava pelas fazendas a trabalhar, a apanhar erva, a
sachar o milho, a tratar das novidades(1). Ia ao moinho, ao rio,
levar o milho a moer. A água acartava-se com um cântaro da fonte, lá em
baixo, e tinha-se de subir esta ladeira toda com ela.
Poupava-se
a água. Agora é que ninguém poupa nada. Quem
não poupa água nem lenha, não poupa nada que tenha. E apanhávamos
lenha nos pinhais. Apanhávamos gravetos pelo chão, que os pinheiros não
eram nossos. Íamos à lenha quase ao Carvalho
Era
tudo a pé, e descalças, que a gente não tinha sapatos, ou se tinha
estavam arrecadados para um dia... Comia-se sardinha e broa e alumiávamo-nos
com umas lanternazitas, umas candeias de petróleo ou de azeite, ou com
uma pinha a arder. Andávamos com elas na mão, que não havia a luz de
agora.
Doenças
não havia muitas, agora é pior. Às vezes lá acontecia e então vinha cá
o barbeiro, um de S. Frutuoso, o Francisco barbeiro que era melhor que um
médico. Naquele tempo usavam-se coisas melhores que remédios. Mas uma
vez aleijei-me a tirar água ao engenho, no Alto de S. João. O cambão
veio p´ra trás e bateu-me. Tive de ir para o hospital deitada numa
escada, para servir de maca.
Às
vezes havia baile, à noite. Tocavam, guitarra, bandolim, rabeca... Também
íamos ao St. Amaro e ao Espírito Santo. Mas a romaria melhor era a da Srª
das Necessidades, em
Poiares. O caminho era serra fora, pelo Carvalho. Fora das festas, as
raparigas namoravam pelos caminhos, quando tinham de ir a algum lado.
Os
noivos casavam em Ceira; daqui ia-se a pé. As noivas do Carvalho também,
mas era mais longe, levavam farnel e comiam lá. A noiva dava arroz doce
às pessoas amigas em troca de um presente, pr´aí 5 escudos.
Mas
eu cá nunca casei, não. Por isso é que ainda estou viva.
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(1) novidades – plantas da horta que se criavam no momento
*Professora
portuguesa, reside em Castelo Branco, Portugal
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