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Portugal
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Viajar
Por Margarida Ribeiro*
Seria
bom poder ir a Paris, passear em Praga, visitar Barcelona.
Mas
tão bom como viajar a longes sítios é achar outros, antes
insuspeitados, bem mais perto de nós.
O
vale daquela aldeia, por exemplo.
Descem-se
os caminhos estreitos passo a passo.… O
verde transborda dos socalcos. Brilhos saltitam nas cascatazinhas da
ribeira enquanto o som da levada cantarola nas pedras. As raízes
vermelhas de um salgueiro agarram-se à margem úmida. Paredes semi-caídas
de antigas azenhas aninham-se sob as ramadas. Carcomidas por centenas de
anos de fios de água, as pedras ficaram lavradas de um baixo-relevo
fantasmagórico.
Histórias
antigas bailam-nos na memória: quem inventou os moinhos foi o
diabo…
Palpitante,
o passado emerge, vivo e presente sob a capa das silvas. As velhas mós
abandonadas encostam-se aqui e ali, como mulheres velhas sentadas, a
recordar. Entre todos os tons de verde, flores de cores impossíveis
salpicam o chão.
Labirinto
fremente de surpresas para os olhos.
Entretido
a jardinar a sua horta, o Sr. José, um poeta. Olhos doces, mãos
diligentes. Há-de refazer a azenha, recuperar as rodas das mós. Para
ganhar dinheiro? Não! Para moer o próprio milho. Para recuperar as
imagens da infância.
É
uma arte, este jeito de caminhar e de se gostar do que se pode ter. Idas,
vindas, passeios por caminhos que estão sempre à nossa beira, à mão
dos nossos olhos. Assim os procuremos….
Há
lugares secretos que se acham numa volta sem destino por serras e vales,
escondidos atrás de um morro ou no fundo de um vão de montanha, ilhas
fora da rota dos nossos monótonos hábitos do quotidiano.
E
há outros lugares, os que foram inventados pelo lápis de alguém que em
palavras nos faz percorrer as estradas. Palavras pousadas no papel,
fazedoras de paisagens e de caminhos.
Assim
as saibamos olhar e ver, assim as saibamos ler e as queiramos
aproveitar.
*Professora
portuguesa, reside em Castelo Branco, Portugal
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